Paulo Passos e Raquel Brostel
Introdução
De acordo com o eminente psicólogo Jonathan Haidt (2024), autor da obra “A Geração Ansiosa”, o mundo desejável e mesmo ideal para crianças e adolescentes é aquele que lhes oferece a possibilidade de brincar livremente, de conectar-se com outras crianças, de expor-se ao risco e de realizar um aprendizado social. O brincar é uma das atividades básicas da infância. Por meio de brincadeiras frequentes e repetitivas, o cérebro é preparado para assimilar habilidades necessárias à formação de adultos bem-sucedidos. É brincando que as crianças aprendem a superar danos físicos, a lidar com suas emoções, a compreender as emoções de outras crianças, a revezar, a resolver conflitos e a jogar limpo. No exercício dessa atividade, elas aprendem a lidar com riscos e a avaliar a sensação de perigo. Crianças privadas disso sofrem perdas sociais, cognitivas e emocionais.
É próprio das crianças se conectarem com as outras por meio daquilo que os psicólogos denominam sintonização e sincronização de seus movimentos e emoções com as demais. A sintonização se manifesta desde a mais tenra infância, quando a criança responde a estímulos externos, sobretudo os provocados por adultos, como também, quando a criança, numa faixa etária mais avançada, aprende e é capaz de ler as expressões faciais e as emoções das outras. Tem-se como certo que a sintonização é tão importante para o desenvolvimento social quanto o movimento e o exercício são para o desenvolvimento físico. Ela é fundamental para a autorregulação emocional posterior, pois se faz via experiência social interativa, envolvendo confiança mútua. Crianças que não vivem essa experiência podem apresentar dificuldades de formar vínculos saudáveis na adolescência e na idade adulta, menor capacidade de lidar com desafios inesperados, de autocontrole emocional e até de tomar decisões sensatas.
A aprendizagem está associada ao desejo humano inato de aprender, copiando e fazendo as escolhas certas do que copiar, daí decorrendo dois valores básicos, a saber: a conformidade e o prestígio. Por conformidade devemos entender a capacidade de a criança observar e fazer o que a maioria está fazendo como estratégia mais segura, em vários contextos e ambientes. Já o prestígio tem a ver com hierarquias sociais, com a capacidade humana de conferir valor, voluntariamente, àqueles que são percebidos como tendo atingido a excelência em uma área de atuação valorizada. Tudo isso com o propósito de maximizar nosso aprendizado e também com o de aumentar nosso próprio prestígio. Cada pessoa pode perceber excelência por si mesma, porém é mais eficiente confiar no julgamento e validação dos outros. Lições aprendidas na infância, projetam-se definitivamente na puberdade, bem como na idade adulta.
O meio de aprendizagem, sem dúvida, confere os valores para o saudável desenvolvimento das crianças. Este artigo vai mostrar como o Programa Criança para o Bem, que prioriza a formação de valores, dialoga com a necessidade de gerar um ambiente de aprendizado, onde as crianças possam brincar, desenvolver empatia e valores que permitam a elas serem realmente cidadãs.
A crise de saúde mental em crianças e adolescentes
Mais recentemente, entretanto, novos e perturbadores fatos devem ser agregados como influenciadores na formação das crianças e dos adolescentes. Progressos científicos e tecnológicos contemporâneos que deveriam concorrer para o aumento da eficiência e conforto da sociedade, a par dos benefícios de fato trazidos, carregam consigo a introdução de novos hábitos, motivadores de justificáveis preocupações. Estamos falando da revolução ocorrida na esfera das comunicações e que trouxe no seu bojo o uso massivo dos smartphones, dos computadores pessoais e da internet com suas redes sociais.
De acordo com Haidt (2024), não havia sinais de uma crise iminente de saúde mental nos adolescentes da sociedade americana nos anos 2000. Então, de repente, no início da década de 2010, as coisas mudaram. Observou-se o aumento de transtornos relacionados à ansiedade e depressão – transtornos internalizantes – durantes os quais a pessoa sente uma forte angústia e emoções, como ansiedade, medo, tristeza, retraimento social, sentimento de culpa e desesperança. Rumina as coisas e, muitas vezes, evita o envolvimento social.
Ao lado desses, foram anotados os transtornos externalizantes, aqueles em que a pessoa sente uma forte angústia e direciona os sintomas e as reações a outras pessoas, ou seja, ao exterior. Entre eles estão os desvios de conduta, dificuldade em lidar com a raiva, tendências violentas e necessidade de correr riscos.
O advento dos smartphones, em 2007 fez-se acompanhar de sua disseminação em grau sem precedente e mudou a vida das pessoas. Com os smartphones, os usuários passaram a estar conectados à internet 24 horas por dia, todos os dias da semana, utilizando-se de incontáveis aplicativos e das redes sociais instaladas em seus aparelhos. O que no passado consumia cerca de duas horas diárias na rede cedeu lugar a passar quase o tempo todo on-line. Com grande número de atividades virtuais novas e atraentes, muitos adolescentes, e até mesmo adultos, perderam a capacidade de estar totalmente presentes em companhia de pessoas a sua volta. Em pouco tempo, padrões sociais, modelos de comportamento, emoções e padrões de atividade física e até mesmo de sono das crianças e adolescentes foram alterados.
Essa mudança de padrão, assustadora, de acordo com Haidt (2024) talvez seja a chave para explicar o colapso repentino da saúde mental dos adolescentes. Ela, sem dúvida, tem grande responsabilidade no que toca ao crescimento exponencial dos índices de transtornos de ansiedade e depressão entre pré-adolescentes e adolescentes, opondo pais e filhos numa relação tensa, marcada por conflitos constantes. De um lado, é possível observar pais empenhados em estabelecer, com grande dificuldade, regras e limites para a exposição dos seus filhos às telas digitais, procurando manter rituais familiares e conexões humanas básicas. Do outro lado, em contraposição, é possível ver jovens reativos a qualquer controle de acesso às redes sociais e aos games eletrônicos.
Enquanto isso, disseminam-se entre eles sintomas frequentes e desproporcionais de medo, angústia e preocupação; estados de humor depressivo (sensação de tristeza, vazio, desesperança) e perda de interesse ou prazer na maioria das atividades; confusão mental; dificuldade de concentração; tendência ao isolamento e diminuição ou aumento significativo do número de horas dormidas.
Os autores Thiagarajan (2025), Silva (2025), Haddad Filho (2025) e Santos (2023) convergem ao alertar para os efeitos prejudiciais do uso precoce e excessivo de redes sociais na saúde psíquica de crianças e adolescentes. Destacam ainda o impacto no sono — com episódios de insônia ou sonolência excessiva — além de dificuldades de concentração e tendência ao isolamento social, que comprometem o desenvolvimento emocional e cognitivo. Esses autores defendem que o uso não supervisionado de tecnologias pode desestabilizar a construção saudável da identidade e das relações interpessoais, exigindo políticas educativas, familiares e escolares mais eficazes e conscientes.
Educação socioemocional e o Programa Criança para o Bem
Tais requerimentos, fundamentais para uma infância mais saudável na era digital, chamam atenção para o Brasil, país onde apenas 11,4% dos alunos do Ensino Fundamental e 20,4% dos alunos do Ensino Médio estavam matriculados em tempo integral em 2022 (INEP, 2022, Censo Escolar). Aqui, a dimensão dos desafios para as famílias e educadores, no que concerne ao uso proveitoso e saudável do tempo disponível, torna-se ainda maior, face à evidente preponderância do turno único nos nossos estabelecimentos de ensino tanto públicos quanto privados.
Essa deficiência vem sendo contrabalançada, de algum modo, por grande número de iniciativas patrocinadas por entidades da sociedade civil – o chamado Terceiro Setor – empenhadas em oferecer supletivamente aos jovens, no contraturno escolar, oportunidades para o desenvolvimento de suas habilidades e vocações, nos campos dos esportes, das artes e mesmo na esfera profissional.
Entre essas iniciativas, tem papel de destaque aquela levada a cabo pela Organização Nova Acrópole – na Capital Federal, denominada “Programa Criança para o Bem – PCPB. O Programa, criado em 2007, tem como foco a formação de crianças, adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade social, no contraturno escolar, com forte componente nas esferas cultural e de formação em valores éticos, como eixo transversal. Beneficia as comunidades das Regiões Administrativas de Varjão, Paranoá e Itapoã, caracterizadas por baixo poder aquisitivo, escassos investimentos públicos e considerável índice de violência entre crianças, adolescentes, jovens e adultos. A maioria do público assistido vive em condições de vulnerabilidade social.
Sua implementação envolve mais de sessenta colaboradores, sendo em média quarenta voluntários, com financiamento público e privado, beneficiando cerca de 190 crianças e suas famílias a cada ano. Ademais, o foco do Programa o faz particularmente alinhado com os seguintes Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas – ONU: ODS 3 – Saúde e Bem-Estar; ODS 4 – Educação de Qualidade; ODS – 16 Paz, Justiça e Instituições Eficazes.
O PCPB possui quatro grandes eixos de atuação:
- Formação complementar, no contraturno escolar, por meio de oficinas nas áreas de acompanhamento escolar, música, balé, capoeira, filosofia, informática, inglês e recreação;
- Bem-estar, por meio de consultas nas áreas de pediatria, clínica geral, odontologia, psicologia, nutricionista, psicopedagoga e fonoaudiologia;
- Oficinas para pais nas áreas de formação parental e apoios eventuais, por meio de cestas básicas e oportunidades de emprego.
- Transporte e lanche, para garantir a assiduidade e pontualidade.
O PCPB se propõe a desenvolver competências práticas, socioafetivas, racionais e espirituais, ou seja, a tratar do desenvolvimento das crianças de maneira integral. Algumas das competências cobertas pelo programa e que foram objeto de avaliação da iniciativa são as seguintes:
- Competências práticas, cujo desenvolvimento se relaciona à saúde e hábitos de higiene das crianças e adolescentes; cuidado e respeito para com os objetos, para com o meio ambiente e evitar desperdícios;
- Competências socioafetivas, cujo propósito é o de ajudá-los a desenvolver o respeito e a boa vontade, assim como a melhorar o convívio com os colegas e outras pessoas;
- Competências racionais, cuja finalidade é o desenvolvimento no uso das faculdades cognitivas, da linguagem oral e escrita, da capacidade lógica e da matemática;
- Competências espirituais, cujo intuito é o de fazer cada um refletir sobre a sua vida e o mundo, saber viver e valorizar o momento presente e unir-se consigo, com as outras pessoas e com a natureza, tendo em vista sua realização humana e sua contribuição para a sociedade.
Em 2023, a Nova Acrópole realizou abrangente avaliação desse Programa, identificando lições aprendidas na sua implementação, resultados obtidos no desenvolvimento integral das crianças, famílias e colaboradores, assim como contribuições para o aperfeiçoamento da metodologia desenvolvida pelo Programa (Método Aprender para o Bem – MAB) e para o desenvolvimento de seu sistema de Monitoramento e Avaliação (COSTA, 2023).
O resultado das investigações levadas a efeito, ouvindo as famílias, as crianças e jovens assistidos e os colaboradores e voluntários foi definitivamente animador, conforme apontam as seguintes conclusões: a) o Programa Criança para o Bem é uma intervenção relevante para o atendimento das necessidades das crianças, adolescentes, jovens e de suas famílias e cumpre um papel subsidiário valioso à atuação do setor público. As consultas médicas gratuitas, por exemplo, possuem um papel importante no atendimento integral às famílias; b) O Programa fez diferença na vida de 100% dos alunos e ex-alunos entrevistados. Constatou-se ainda que contribui para o desenvolvimento de competências, especialmente na esfera prática e socioemocional; c) o Programa ajudou os colaboradores a desenvolverem competências espirituais e racionais, suscitando neles sentimentos de gratidão e satisfação por poderem contribuir com essa iniciativa. As crianças e as famílias sentem-se valorizadas e respeitadas pelo ambiente que frequentam, pelo tratamento que recebem e pelas apresentações públicas e outras atividades.
A avaliação positiva dos impactos do “Programa Criança para o Bem” ficou ainda mais evidente, quando, entre as sugestões de melhoria apresentadas pelos responsáveis pelas crianças, incluiu-se o desejo de aumento da oferta de vagas, dos dias de aula e dos atendimentos médicos e psicológicos, e, ainda, uma oferta maior de atividades e oficinas.
Resultados dos níveis de competências práticas, socioafetivas, racionais e espirituais
Desde 2023, o Programa vem sendo objeto de pesquisa junto aos pais e responsáveis pelos alunos. Em dezembro de 2024, foi concluída a 2ª rodada das Entrevistas Sociais. Os principais resultados das pesquisas relacionados ao desenvolvimento das crianças, adolescentes e jovens são delineados a seguir.
Constatou-se, em termos médios, um nível de desenvolvimento bastante satisfatório das potencialidades prática, socioafetiva, racional e espiritual dos assistidos pelo PCPB. Segundo a visão dos pais/responsáveis, no entanto, as pesquisas permitem identificar algumas habilidades que são classificadas como nível de desenvolvimento a melhorar, as quais são trabalhadas prioritariamente com os assistidos pela equipe do PCPB.
A Figura 1 apresenta gráfico construído a partir dos valores médios para cada uma das potencialidades, obtidos nas pesquisas de maio/2023, dezembro/2023 e dezembro/2024.
Figura 1. Valores médios dos Níveis de Desenvolvimento das Potencialidades, segundo pais/responsáveis. Fonte: Entrevistas sociais – (Mai/23, Dez/23 e Dez/24).

Fonte: Entrevista social, 1ª, 2ª e 3ª Rodadas (abril/23, dez/23, dez/2024).
No quesito Potencialidade Prática, as habilidades “higiene pessoal”, “cuidados e respeito com as coisas dos outros” e “cuidado com o meio ambiente” mantiveram-se com valores percentuais acima de 75%, representando níveis de desenvolvimento importantes. As habilidades “cuidados com suas coisas pessoais” e “saúde e alimentação” foram classificadas como nível de desenvolvimento a melhorar (menor que 75% nas categorias “muito bom” e “bom”) e mantiveram-se como as mais críticas dentre as potencialidades práticas, porém apresentando uma tendência de melhora, considerando as pontuações obtidas nas três últimas pesquisas.
No que se refere à potencialidade socioafetiva, as habilidades “respeitar as pessoas”, “ajudar os outros” e “saber conviver com colegas e outras pessoas” atingiram percentuais muito elevados de desempenho, o que mostra que um programa como este pode ajudar a desenvolver habilidades críticas num mundo de smartphones. A única que não atingiu o percentual do 75% nas avaliações das categorias “muito bom” e “bom” foi “saber controlar as emoções” que trata de uma competência mais exigente a ser desenvolvida, não apenas em crianças e jovens, mas também em adultos.
No caso da Potencialidade Espiritual, os resultados obtidos atingindo as categorias “bom” e “muito bom”, foram predominantes. A Nova Acrópole, como uma escola de filosofia, tem como objetivo o desenvolvimento da vida interior e motiva os assistidos do PCPB com o ensino de virtudes, como por exemplo respeito, coragem e disciplina. Vida espiritual aqui se refere a um senso de propósito, presença no que faz e conexão com a vida, elementos essenciais muitas vezes embotados pelos smartphones que levam à dispersão e desconexão com o momento presente.
No Programa os desafios maiores a serem alcançados estão nas potencialidades da ordem racional, a maioria das habilidades como “ser organizado”; “resolver problemas de matemática”; “ter atenção”, “expressar bem as ideias de forma oral e escrita”; “gostar de estudar”; “cumprir acordos feitos na escola e em casa” e “tirar boas notas”. Estas devem ser consideradas em nível de desenvolvimento a melhorar.
Próximos passos: principais virtudes a desenvolver
As entrevistas realizadas também identificaram as virtudes que os pais/responsáveis entendem que seriam importantes que seus filhos desenvolvessem. Nesse sentido, as virtudes mencionadas foram sintetizadas e subsidiaram os planos de trabalho do PCPB. A Figura 2 apresenta o resultado das entrevistas, onde se buscou identificar as que foram mais citadas, que podem ser consideradas como prioritárias. Os pais mencionaram: paciência/calma, organização, ser estudioso, disciplina/organização, coragem/fortaleza, iniciativa/proatividade, comunicação, aceitação/compreensão, obediência. Isso corrobora o trabalho de Haidt (2024) sobre a questão da ansiedade que está muito presente nas crianças. Em sua maioria os pais aspiram ao desenvolvimento da paciência e calma em seus filhos, assim como a organização, que é uma competência comum a ser desenvolvida nesta fase da vida de cada indivíduo. De toda forma, o programa busca desenvolver este centramento nas crianças por meio de práticas de concentração e interiorização realizadas em sala de aula.
Figura 2. Virtudes a serem desenvolvidas pelos alunos, segundo pais/responsáveis.

Fonte: Entrevista social – 2ª Rodada (Dez/2024).
Nas entrevistas, foi solicitado aos pais/responsáveis dos alunos que participam do PCPB que identificassem as virtudes que mais se destacavam nos filhos. As virtudes que foram mais mencionadas foram: carinhoso/amoroso, generosidade, alegria, prestativo/atencioso, bondade/doçura, verdade/honestidade, respeito, amizade, esforçado/guerreiro, dedicação, inteligência.
A Figura 3 apresenta as virtudes mencionadas e o número de vezes que foi citada, destacando que alguns pais/responsáveis citaram mais de uma virtude. Estes resultados mostram como as crianças assistidas pelo programa exibem um grau de competência emocional, em especial o comportamento amoroso/carinhoso, a generosidade, a alegria e ser prestativo/atencioso. Eles se destacam pela afetuosidade que demonstram.
Figura 3. Virtudes identificadas nos alunos, segundo pais/responsáveis.

Fonte: Entrevista social – 2ª Rodada (Dez/2024).
Nível de satisfação dos pais/responsáveis com o PCPB
Nas entrevistas realizadas em dezembro/2024, os pais/responsáveis foram questionados quanto ao nível de satisfação com os serviços prestados no âmbito do PCPB, o que resultou em um índice de 99%, considerando as avaliações obtidas nas classes “Muito bom” e “Bom”. A Figura 4 apresenta os resultados dessas entrevistas. De maneira geral, as famílias são muito gratas pelo fato de suas crianças estarem bem cuidadas quando estão fora da escola. E, de fato, esta é uma demanda social urgente no país – que é a ampliação da educação integral de modo a tirar as crianças em situação de vulnerabilidade da rua, e lhes dar oportunidade de uma formação humana por meio de artes, esportes e convivência com outras crianças.
Figura 4. Avaliação do nível de satisfação com os serviços prestados pela PCPB. Dez/24).

Fonte: Entrevista social – 2ª Rodada (Dez/2024).
Maior Bem que o Programa levou às famílias
Na pesquisa os pais e responsáveis também foram instados a responder qual o maior BEM que o Programa levou para as famílias, resultando que 81% dos pesquisados indicaram um ou mais benefícios. Os benefícios identificados pelos pais/responsáveis foram agrupados por similaridade e estão apresentados na Tabela 1.
Considerando o elevado nível de vulnerabilidade das famílias era de se esperar a preponderância dos benefícios diretos proporcionados pelo Programa como a participação nas oficinas e o atendimento médico, porém os benefícios mais destacados pelos pais/responsáveis (55%) estão relacionados ao desenvolvimento das crianças e jovens nas esferas prática, socioafetiva, racional e espiritual, que são trabalhadas no âmbito do Programa, bem como a valorização das artes, local de aprendizado, segurança e acolhimento, e crianças mais calmas , educadas e felizes[1]. Estes resultados mostram que as famílias valorizam o trabalho com as virtudes e ter um espaço seguro para seus filhos, ou seja, necessidades mais profundas de desenvolvimento. Em muitos casos, os programas consideram apenas necessidades mais básicas de abrigo e alimentação. Estes dados reforçam a importância de oferecer para famílias em situação de vulnerabilidade serviços mais profundos associados à sua dimensão mais interna que lhes dê um senso maior de dignidade e verdadeiro florescer humano.
Tabela 1. Maior BEM que o PCPB levou para as famílias, segundo os pais/responsáveis
| Maior BEM levado pelo PCPB | Quantidade citada | Percentual |
| Desenvolvimento da criança, fundamentado nas virtudes | 45 | 25% |
| Lugar de aprendizado, em especial as artes. Seguro para os filhos. | 27 | 15% |
| Desenvolvimento emocional das crianças. Mais educadas e calmas. | 27 | 15% |
| As crianças gostam muito. Chegam em casa felizes. | 24 | 13% |
| Acolhimento das crianças e famílias | 17 | 9% |
| Atendimento médico | 16 | 9% |
| Mais socialização da criança | 16 | 9% |
| União da família, inclusive nas ocasiões das apresentações | 8 | 4% |
Fonte: Entrevista social – 2ª Rodada (Dez/2024).
Considerações Finais
Diante do que foi até aqui exposto e tendo em mente as condições ideais que deveriam estar presentes na vida de crianças e adolescentes, para seu adequado crescimento e amadurecimento, até atingirem a idade adulta, seria pertinente a seguinte indagação: “Se tomássemos dois jovens, ao primeiro, conferindo plena liberdade para mergulhar e vivenciar sem controle o repertório de conteúdo das redes sociais e “games” do mundo digital, diariamente, nos horários de contraturno, e ao segundo, concedendo a oportunidade de frequentar uma escola ou programa, nos moldes do “Criança para o Bem”, que resultados esperar?”
O primeiro deles provavelmente seguiria um caminho atraído por jogos eletrônicos e por redes digitais não controladas, responsáveis com frequência por informações não confiáveis e por comparações e validações inidôneas. Esse caminho poderá desaguar em diversas patologias, hoje identificadas por educadores, psicólogos e psiquiatras, causadoras de desconforto e sofrimento à juventude capturada pelas telas (SANTOS et al., 2023, VASCONCELOS et al., 2023; MAGALHÃES et al., 2025; VIEIRA CRUZ et al., 2024; RECIEN, 2023).
Já o segundo jovem trilharia caminho alternativo, frequentando um estabelecimento físico com propósitos e programação definida, lastreada em relações interpessoais presenciais, onde seria estimulado o melhor em termos de desenvolvimento da criatividade, da capacidade cognitiva, da maturidade emocional e das virtudes espirituais, em cada assistido. (ASSIS & ZANELLA, 2012; HERZ et al., 2023). Os levantamentos do programa apontam que há um claro desenvolvimento de competências socioafetivas das crianças assistidas que falam sobre o desenvolvimento da empatia, do carinho e de uma convivência mais harmoniosa conforme expresso pelos pais.
Frente a esses dois mundos, de características, motivações e expectativas tão distintas, devemos almejar, por um lado, a redução do risco do ambiente virtual na formação dos jovens, como consequência da ação diligente de governos, educadores e famílias, para que nele possam transitar com inteligência e moderação, mantendo sua condição de higidez psicológica (SILVA et al., 2021; SILVA, 2024). Por outro lado, devemos hipotecar decidido apoio ao fortalecimento do papel relevante de instituições como Nova Acrópole, no que corresponde ao seu empenho para a prestação de serviço social dedicado à juventude.
O PCPB tem demonstrado ser um agente de mudanças no nível de desenvolvimento das crianças, adolescentes e jovens assistidos, considerando a sua integralidade humana sintetizada nas esferas trabalhadas e em particular na esfera socioemocional. Entende-se que o conjunto de ensinamentos, valores e virtudes ensinado e praticado propicia uma experiência importante para a formação humana (COSTA, 2023).
Isso é motivo suficiente para que um programa como o “Criança para o Bem” seja mais atentamente observado e mesmo amplamente replicado, inspirando outras iniciativas no trabalho em benefício de maior número de crianças e adolescentes em nosso país.
Pela sua natureza especial e desenho único, o PCPB pretende, no que lhe cabe, contribuir para a formação de verdadeiros cidadãos e de seres humanos mais bondosos, fraternos, educados, virtuosos e com potencial de maior desenvolvimento emocional, mental e espiritual, aspectos fundamentais para a formação de uma Cultura de Paz no mundo.
Este artigo caracteriza-se como uma avaliação preliminar fundamentada na experiência prática do PCPB e dos processos de avaliação e monitoramento que vem sendo realizado de forma sistemática desde 2023, acompanhado de uma revisão bibliográfica pertinente. É importante que estudos posteriores qualitativos e quantitativos sejam desenvolvidos para maior aprofundamento dos resultados do Programa a curto, médio e longo prazos.
Referências:
ASSIS, Neiva de; ZANELLA, Andréa Vieira. Jovens e programas de contraturno escolar: (des)encontros possíveis. Pesquisas e Práticas Psicossociais, v. 7, n. 1, p. 76–82, 2012. Disponível em: https://ufsj.edu.br/portal2-repositorio/File/revistalapip/Volume7_n1/Assis_e_Zanella.pdf. Acesso em: 28 jul. 2025.
BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Censo Escolar da Educação Básica 2022. Brasília-DF, 2023.
COSTA, M. A. Relatório de Avaliação do Programa Criança para o Bem. Brasília-DF, 2023.
HADDAD FILHO, Marcelo et al. Impacto do uso de dispositivos eletrônicos na saúde mental infantil: uma perspectiva pediátrica. Revista Rease, v. 10, n. 4, p. 1–20, 2025. DOI: 10.51891/rease. v10i4.13557.
HAIDT, Jonathan (2024). A geração ansiosa: Como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais / tradução Lígia Azevedo. — 1a ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.
HERZ, G.; TOMIO, D.; BIHRINGER, K. Contraturno escolar: que tempo é esse de educar?Reflexões a partir de uma revisão sistemática da produção científica brasileira. Humanidades & Inovação, v. 10, n. 21, 2023. Disponível em: https://revista.unitins.br/index.php/humanidadeseinovacao/article/view/9006. Acesso em: 28 jul. 2025.
MAGALHÃES, V. et al. Efeitos do uso excessivo de telas no neurodesenvolvimento de crianças e adolescentes: o que diz a literatura. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, [s. l.], v. 7, n. 3, 2025. Disponível em: https://bjihs.emnuvens.com.br/bjihs/article/view/5526. Acesso em: 28 jul. 2025.
RECIEN – Revista Científica de Enfermagem. Uso de telas e os perigos à saúde mental de crianças e adolescentes: revisão integrativa. Recien, [s. l.], 2023. Disponível em: https://www.recien.com.br/index.php/Recien/article/view/831. Acesso em: 28 jul. 2025.
SANTOS, Renata Maria Silva et al. The associations between screen time and mental health in adolescents: a systematic review. BMC Psychology, v. 11, n. 1, p. 1–15, 2023. DOI: 10.1186/s40359-023-01166-7.
SILVA, A.; SAMPAIO, G.; MACHADO, G.; TRANCOSO, I.; NASCIMENTO, M. Impactos negativos da tecnologia no sono e na concentração infantil: consequências para o bem-estar.Revista FT, v. 29, n. 144, p. 1–15, mar. 2025. DOI: 10.69849/revistaft/ch10202503251956.
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VIEIRA CRUZ, L. L. et al. Saúde mental: os riscos em crianças e adolescentes pelo uso excessivo de telas: uma revisão integrativa. Revista Sociedade Científica, [s. l.], v. 7, n. 1, 2024. Disponível em: https://journal.scientificsociety.net/index.php/sobre/article/view/81. Acesso em: 28 jul. 2025.
Artigo publicado em: CAMAROTTTI, Henriqueta; BRASIL, Mário Lima; COSTA, Melissa Andrade (org.). Caminhos para a paz: teoria e prática. Brasília: Universidade de Brasília, Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares, 2026. E-book (308 p. ).
Publicação completa disponível em: https://livros.unb.br/index.php/portal/catalog/book/726
[1] Há que destacar que estas respostas foram codificadas a partir de uma pergunta aberta, ou seja, as respostas dos pais foram espontâneas, não foram sugeridas pelo voluntário que realizou a pesquisa sobre o programa.
