Música para o Bem e sua contribuição para o sentimento de paz nas crianças e jovens que participam do programa

Mário Lima Brasil

Introdução

A música e a filosofia são duas forças transformadoras, duas chaves do Universo que, combinadas, podem promover a paz e harmonia em diversas dimensões: física, energética, emocional, mental, espiritual, social e cultural. Talvez seja por isso que desde a antiguidade, filósofos e pensadores como Platão e Pitágoras exploraram a relação entre música e harmonia destacando seu impacto na formação humana. Platão, por exemplo, afirmava que “ritmo e harmonia dependem de estilo, e este é a expressão da alma” (PLATÃO, 2014, p. 118). Essa perspectiva evidencia a capacidade da música de influenciar a saúde física, as energias que circulam pelo corpo, as emoções e os sentimentos, bússolas da saúde mental, a relação com o divino, seus comportamentos – com você mesmo e com os outros – tornando-se uma ferramenta essencial na construção de ambientes harmoniosos, pacíficos e na educação de crianças e jovens, principalmente os advindos de situações de vulnerabilidade social.

O projetoMúsica para o Bem, fundamentado na Filosofia Aplicada da Nova Acrópole, e apoiado pelo Movimento Sinfônico de Orquestras e Corais do Brasil (MovSinfo), coordenado pelo maestro Ricardo Souza-Castro, é um exemplo concreto de como a música e a filosofia podem contribuir para a promoção de um mundo de paz. Paz essa tão necessária, principalmente no momento crítico em que a humanidade está vivendo, quando o planeta se envolve em tantas guerras, inclusive a mais perigosa delas, nossa guerra interior, nossas bombas construídas num coração humano angustiado e fora de sintonia.

O projeto Música para o Bem apoia-se no ombro de dois programas que estão mudando, por meio da música, a vida de crianças e jovens em Brasília e na Venezuela: O El Sistema de Orquestra da Venezuela (El Sistema), criado pelo músico e educador José Antônio Abreu, e o MovSinfo, criado pelo maestroRicardo Souza – Castro. Ambos propõem a inclusão social por meio do ensino musical coletivo, baseado na ideia de que “a música tem o poder de unir e transformar a sociedade” (ABREU, 2008).

Essa metodologia permite que crianças e jovens desenvolvam disciplina, cooperação e senso de comunidade, elementos fundamentais para um ambiente de paz. No entanto, não é somente em programas de música coletiva que se apoia o Música para o Bem. Ele está dentro do programa Criança para o Bem da Nova Acrópole.

O programa atende crianças e jovens das Regiões Administrativas do Varjão, Itapuã e Paranoá do Distrito Federal. Nessas regiões, que se caracterizam pelo baixo poder aquisitivo, escassos investimentos públicos e considerável índice de violência entre crianças e adultos, está a maioria do seu público-alvo, que são os assistidos em situação de vulnerabilidade social (RELATÓRIO PCPB 2024, 2024, p. 4).

Ele fornece, com a ajuda de voluntários abnegados, rede de apoio que vai desde reforço escolar, alimentação balanceada e de qualidade, oficinas de música, balé, poesia, capoeira, esportes, entre outras; atendimento à saúde das crianças e das famílias, criando um ambiente de harmonia e paz para as crianças, jovens e familiares que pertencem ao programa.

O farol guia de toda essa estrutura é a Filosofia Aplicada da Nova Acrópole, que propõe uma educação baseada na prática dos valores universais da fraternidade, conhecimento e desenvolvimento interior. Segundo o diretor internacional da Nova Acrópole, Carlos Adelantado, “a filosofia da Nova Acrópole está baseada na sabedoria clássica do Oriente e Ocidente, que tem como finalidade desenvolver a consciência, aprender a agir com o coração e despertar as forças humanas.” (PUCHAL, 2024, p. 7).

A filosofia, quando aplicada ao cotidiano, ajuda os jovens a desenvolverem consciência crítica, respeito e empatia, promovendo um ambiente de aprendizado voltado para a paz e o crescimento humano. São exatamente essas ferramentas que, junto com a música, fazem o milagre acontecer na vida dessas crianças e jovens que participam do projeto Música para o Bem.

Neste artigo, exploraremos como esses três pilares — música, filosofia e educação coletiva de coros e orquestras — se complementam na formação de crianças e adolescentes, contribuindo para um sentimento genuíno de harmonia e paz. Serão analisados os impactos do ensino musical e filosófico, bem como relatos de participantes e educadores que vivenciam o dia a dia do projeto.

Fundamentação Teórica

A fundamentação teórica deste estudo está organizada em três eixos: o papel da música no desenvolvimento humano, a filosofia como base para a educação da paz e a análise de três programas de educação musical coletiva — El Sistema, MovSinfo e Música para o Bem e como este último, diferente dos demais, se funde com a Filosofia Aplicada da Nova Acrópole, construindo um mundo mais harmonioso e pacífico para as crianças e jovens.

A música é reconhecida por sua capacidade de atuar sobre múltiplas dimensões do ser humano, contribuindo para o desenvolvimento físico, energético, emocional, cognitivo, espiritual e social. Estudos indicam que a prática musical em grupo favorece o autocontrole, a concentração, a empatia, a cooperação, a sensibilidade, a harmonia, a paz e o senso de responsabilidade (GUERRERO; TORCHE, 2017). Esses efeitos são ainda mais significativos em contextos vulneráveis, onde a música se torna não apenas uma atividade extracurricular, mas um verdadeiro instrumento de transformação social. Segundo Guerrero e Torche (2017), crianças que participaram do El Sistema apresentaram melhorias no comportamento social, nas habilidades de cooperação e na redução de comportamentos antissociais. Essas observações reforçam a tese de que a música coletiva oferece mais do que entretenimento: ela estrutura emocionalmente, orienta comportamentos e fortalece vínculos.

A relação entre música e filosofia remonta à antiguidade clássica, especialmente à tradição pitagórica, que via na harmonia musical uma expressão da ordem cósmica. “Para Pitágoras, a harmonia que regula o movimento dos astros não pode achar-se distante, dizia-se, da ordem que rege as relações dos simples intervalos fundamentais da música” (TOMÁS, 2002, p. 24). Pitágoras via uma profunda relação da matemática com a música. Acreditava que as leis cósmicas ditadas por um Demiurgo e executadas por um Arquiteto eram todas baseadas em números, relações e proporções, a verdadeira essência da realidade. A relação da música com a matemática é conhecida: as notas musicais são proporções matemáticas de vibração extraídas de uma única corda. Essas proporções geram harmonia, que estão presentes na música e no movimento dos astros. Dizia-se que Pitágoras era capaz de ouvir a música das esferas, a música dos astros vibrando no firmamento no céu escuro e silencioso das noites acropolitanas[1].

Na contemporaneidade, essa abordagem ressurge em iniciativas que utilizam a música como meio de educação para valores humanos. O projeto Música para o Bem, da Nova Acrópole, adota explicitamente uma proposta filosófica de formação moral, ensinando conceitos como beleza, bondade, gentileza, cooperação, disciplina e respeito, por meio da prática coral e instrumental (NOVA ACRÓPOLE, 2024). Essa conexão entre filosofia e música transforma o fazer musical em uma experiência formativa integral, em que o estudante é estimulado a refletir sobre si mesmo e sobre o mundo à sua volta. Como destaca Mário Brasil (2019), “a música bem orientada é uma via para o desenvolvimento do caráter”.

Os três programas analisados neste artigo partilham de um princípio comum: utilizar a música como ferramenta de transformação social e desenvolvimento humano.

O El Sistema, criado na Venezuela em 1975, tornou-se uma referência internacional por seu impacto em populações periféricas e vulneráveis. Conforme relatório do Banco Interamericano de Desenvolvimento (GUERRERO; TORCHE, 2017), o programa foi capaz de melhorar significativamente o autocontrole e a autoestima de seus participantes, funcionando como uma “vacina cultural” contra a violência.

Em Brasília, o MovSinfo desenvolve um trabalho semelhante ao oferecer formação musical gratuita a jovens do Distrito Federal. Desde 2012, o projeto proporciona aos estudantes de rede pública, o acesso à técnica orquestral e coral, bem como à experiência coletiva da música como expressão artística e ética. Seus concertos públicos, como o Requiem de Mozart em 2025, revelam o alto nível artístico e o compromisso social do grupo (MOVSINFO, 2025).

O Música para o Bem, por sua vez, destaca-se por integrar a prática musical à filosofia clássica. Utilizando a Filosofia Aplicada da Nova Acrópole, a metodologia do MovSinfo e El Sistema, o Método Suzuki e CLASP (Composição, Literatura, Apreciação, Técnica e Performance). A iniciativa promove o desenvolvimento técnico, ético e filosófico dos alunos, com ênfase em valores como cortesia, bondade, beleza e disciplina (NOVA ACRÓPOLE, 2024). Essas experiências apontam para a música coletiva do Música para o Bem como um espaço privilegiado para o cultivo da paz — não como ausência de conflito, mas como um estado ativo de harmonia interior, integração social e respeito mútuo.

Metodologia

Esse artigo adota uma abordagem qualitativa, de caráter exploratório-descritivo, com o objetivo de compreender de que maneira a educação musical coletiva do Música para o Bem, aliada a valores filosóficos, contribui para o desenvolvimento do sentimento de paz nas crianças e jovens. A escolha pela abordagem qualitativa justifica-se pela natureza subjetiva e complexa do objeto de estudo, que envolve aspectos emocionais, culturais e éticos.

Trata-se de uma pesquisa documental e bibliográfica, baseada na análise de materiais institucionais, boletins informativos, relatórios de impacto, artigos acadêmicos, material bibliográfico, e reportagens sobre os programas El Sistema, MovSinfo e Música para o Bem. Também foram utilizadas publicações oficiais e fontes da mídia especializada, todas devidamente referenciadas conforme as normas da ABNT.

A coleta de dados foi realizada por meio da busca sistemática em sites institucionais, bases de dados acadêmicas, relatórios de organizações sociais e portais de notícias. Os critérios de seleção incluíram:

  • Relevância temática (foco em educação musical coletiva e impacto social);
  • Atualidade (publicações entre 2000 e 2025);
  • Confiabilidade da fonte (instituições reconhecidas, projetos oficiais, livros e periódicos científicos).

Embora a pesquisa documental permita um panorama abrangente, ela não substitui a análise empírica por meio de entrevistas ou observações em campo. Assim, esta investigação apresenta-se como um estudo exploratório que poderá servir de base para futuras pesquisas com métodos mais aprofundados, como estudos de caso e análise etnográfica.

Resultados e Discussão

Quando a Coordenadora da Nova Acrópole nos pediu indicação sobre como formar a orquestra da Nova Acrópole, pensei imediatamente no El Sistemae de como essa metodologia poderia servir de modelo para a construção da futura orquestra. A orquestra da Nova Acrópole é formada por crianças e jovens em nível de vulnerabilidade social, das Regiões Administrativas do Varjão, Paranoá e Itapuã. Lá se vão quase 10 anos dessa conversa com a Coordenadora do Programa. As crianças hoje são jovens e adolescentes – outras crianças entraram no programa – o projeto cresceu, amadureceu, a orquestra não é só uma orquestra, mas duas: a Juvenil e a Camerata. Além das orquestras há o Coral das crianças e jovens, e esses conjuntos já encantam com sua sonoridade e afinação, sob a batuta do Maestro Ricardo Souza – Castro, auxiliado pelo Maestro Mário Lima Brasil.

A metodologia utilizada pelo maestro, aprender fazendo, é a mais empregada no decurso da história humana. Essa expressão remonta à filosofia educacional de John Dewey, final do século XIX, para quem o conhecimento surge da experiência prática e da reflexão sobre ela.

Dewey (1959) nos Estados Unidos e Freire (1984) no Brasil foram importantes para o desenvolvimento dessa metodologia. Dewey defende uma pedagogia centrada na ação, na qual o aluno participa ativamente do processo de aprendizagem, sendo sujeito e não apenas objeto da transmissão de saberes. Essa concepção influencia metodologias ativas como as usadas em projetos musicais coletivos. “A educação não é preparação para a vida; a educação é a própria vida” (DEWEY, 1938, p. 17). Como afirma Freire: “É na práxis — na ação e reflexão dos homens sobre o mundo para transformá-lo — que se dá a sua humanização” (FREIRE, 1987, p. 40). E esta humanização traz a paz.

Assim que as crianças emitem os primeiros sons nos instrumentos já são colocadas na orquestra, auxiliadas por monitores que normalmente são jovens da própria orquestra, que já passaram por todo esse processo, aprendem na medida que o ensaio acontece – aprendem fazendo. O maestro e os monitores corrigem pacientemente os que estão iniciando.

O diferencial dessa metodologia é que as crianças, cedo, são colocadas nesse rio de sons que é a orquestra: primeiro aprendem a seguir o curso do rio sem se afogar, sem se perder, auxiliados por monitores diligentes; depois aprendem a nadar e a seguir suavemente a correnteza dos sons e a se amalgamar com a sonoridade que agora elas fazem parte. Isso estimula as crianças, que em vez de estudos solitários e desestimulantes das metodologias usuais, são mergulhados no caos do estudo coletivo da orquestra, onde ajudam a construir o cosmo, a sinfonia, a harmonia, a sonoridade do todo.

O projetoMúsica para o Bemusa essa metodologia; no entanto é uma iniciativa que vai além do ensino musical: por meio da Filosofia Aplicada da Nova Acrópole,ele promove valores humanos, transformação social e o desenvolvimento do sentimento de paz entre crianças e jovens. Utilizando-se da prática musical coletiva e da reflexão filosófica, o programa cria ambiente de aprendizado, onde os participantes não apenas desenvolvem habilidades artísticas, mas também cultivam empatia, disciplina e cooperação.

O Música para o Bem tem como principais objetivos:

  • Democratizar o acesso à educação musical, permitindo que crianças e jovens, preferencialmente os mais vulneráveis, participem ativamente.
  • Utilizar a música como ferramenta de inclusão e desenvolvimento emocional.
  • Integrar princípios filosóficos que incentivam o autoconhecimento e a convivência harmoniosa.
  • Criar uma rede de apoio para os participantes, promovendo valores como fraternidade e cooperação.

A metodologia do programa se baseia na aprendizagem coletiva e no aprender fazendo seguindo os fundamentos do MovSinfo e do El Sistema. Segundo José Antonio Abreu, criador do programa venezuelano, “uma orquestra é a expressão máxima de solidariedade, pois exige que todos escutem uns aos outros” (ABREU, 2008). Esse princípio é aplicado no Música para o Bem, onde os jovens aprendem a trabalhar juntos, respeitar a diversidade e valorizar o esforço coletivo.

Mas o que diferencia o Música para o Bem de outros programas de práticas educacionais coletivas, de coral e orquestra, é que, além da prática musical, o programa incorpora ensinamentos da Filosofia Aplicadada Nova Acrópole, proporcionando espaços de diálogo e reflexão sobre valores fundamentais para a paz, como respeito, responsabilidade e empatia.

Para entendermos melhor como a filosofia cria o diferencial no programa de música da Nova Acrópole em relação a outros programas, precisamos compreender melhor o que é a Filosofia Aplicada da Nova Acrópole.

A educação vai além do ensino técnico e acadêmico; ela molda valores, princípios e a visão de mundo dos indivíduos. Neste contexto, a Filosofia Aplicada da Nova Acrópole tem um papel essencial, pois oferece ferramentas para o desenvolvimento humano integral, promovendo a paz por meio da reflexão e da prática de valores universais. A filosofia, quando ensinada de maneira aplicada, não se restringe a debates abstratos, mas se torna um guia prático para a vida cotidiana.

A Nova Acrópole baseia seu ensino filosófico em três pilares: Fraternidade, Conhecimento e Desenvolvimento Pessoal(PUCHAL, 2024, p. 7).  Pierre Hadot (1995) em O Que É a Filosofia Antiga? dizia: “a filosofia não deve ser apenas um discurso, mas uma forma de vida, em que o conhecimento seja aplicado para gerar mudanças concretas”. Esse princípio está presente na metodologia da Nova Acrópole, que incentiva seus estudantes a praticarem valores filosóficos no cotidiano, inclusive as crianças e jovens do Música para o Bem.

Nesse contexto, o conceito de fraternidade, por exemplo, é essencial para a construção da paz. Aristóteles, ao discorrer sobre a amizade, afirmava que “a amizade é extremamente necessária à vida” (ARISTÓTELES, 2001, p.163), reforçando a ideia de que relações harmoniosas entre indivíduos são fundamentais para a vida. No contexto do Música para o Bem, essa filosofia se manifesta na maneira como os jovens são incentivados a colaborar, respeitar e ouvir uns aos outros, criando um ambiente de aprendizado baseado na empatia.

Pensando em um ambiente de orquestras, a colaboração como virtude é fundamental para o bom andamento do ensaio. São os jovens que arrumam as cadeiras, as estantes de partituras, distribuem as partituras, afinam os instrumentos dos que estão iniciando, cada um tem uma função para além do musical. Da mesma maneira que, ao colaborarem uns com os outros, aprendem e ensinam ao mesmo tempo, quem sabe mais colabora com quem sabe menos.  Esse espírito é fundamental para o bom funcionamento da orquestra.

Respeitar e ouvir uns aos outros, virtudes que se desenvolvem na própria dinâmica da orquestra, cuja prática é incentivada em outros ambientes. A orquestra não afina se os músicos não estiverem se ouvindo. Por outro lado, a orquestra não adquire o equilíbrio dinâmico se não houver o respeito pela hierarquia dinâmica que ela impõe. Esse equilíbrio se dá pela dinâmica das partes que se está tocando: o tema, a ideia central, deve sobressair; ele traz o germe da criação do compositor; mais abaixo está o contraponto que se contrapõe ao tema sem descaracterizá-lo, mais abaixo ainda vem o acompanhamento e que serve como base para que brilhem o tema e o contraponto; por último a base, onde repousa toda a estrutura. Mais uma vez a orquestra, no seu próprio metier, nos coloca a importância da virtude do respeito a essa dinâmica. As crianças e jovens aprendem isso tanto na orquestra como na Virtude do Trimestre, ação do programa Criança para o Bem,que incentiva a prática de uma determinada virtude por trimestre. (GUIA PEDAGÓGICO, 2020)

Os três pilares da Nova Acrópole possuem uma conexão direta com o ensino musical e sua capacidade de promover paz:

  • Fraternidade: ao tocar em conjunto, os jovens aprendem a trabalhar em equipe, respeitar as diferenças e construir harmonia coletiva.
  • Conhecimento: o estudo da música, aliado à filosofia, expande o pensamento crítico, a sensibilidade estética e a capacidade de enxergar o mundo de maneira mais ampla.
  • Desenvolvimento Pessoal: a prática musical fortalece a disciplina, a autoconfiança e a capacidade de superação, proporcionando crescimento interior.

Além da aplicação dos princípios na educação musical, a filosofia permite uma profunda reflexão sobre o próprio papel dos jovens na sociedade. Ao integrar pensamento filosófico e prática musical, programas como Música para o Bem incentivam crianças e adolescentes a se questionarem sobre suas ações, comportamentos e impacto na comunidade. Essa abordagem também promove a resiliência emocional. Muitas crianças e jovens enfrentam dificuldades pessoais e sociais que podem gerar ansiedade e insegurança. A Filosofia Aplicada oferece ferramentas para lidar com esses desafios, ensinando que a paz verdadeira começa dentro de cada indivíduo.

A integração entre Filosofia Aplicada e música no projeto Música para o Bem, representa um modelo inovador de educação para a paz. Ao aprender música em um ambiente que valoriza fraternidade, conhecimento e desenvolvimento pessoal, os jovens não apenas se tornam músicos mais talentosos, mas também seres humanos mais conscientes, resilientes e pacíficos. A Filosofia Aplicada, longe de ser um conceito abstrato, se traduz em ações concretas que contribuem para uma sociedade mais harmônica.

O método aprender para o bem é a ferramenta que conecta música à filosofia no Música para o Bem, ou seja, faz o amálgama da Filosofia Aplicada da Nova Acrópole com o projeto. Esse Programa é estruturado em cinco princípios: formação filosófica, educação de virtudes, intencionalidade pedagógica, contextos de aprendizagem e preparação do educador (GUIA PEDAGÓGICO, 2020). Esses princípios trazem ensinamentos importantes para a música, alguns deles fundamentais.

No primeiro princípio, é fundamental a superação de limites e o trabalho em equipe para se tocar bem em uma orquestra. Não há como tocar um instrumento sem tentar superar seus limites toda vez que estuda o instrumento. Fazer música é uma superação de limites diário. As crianças sentem isso quando estão estudando seu instrumento, quando vão, pacientemente, aumentando o tempo do metrônomo, até conseguirem tocar aquele trecho musical no andamento pedido. Sentem essa superação de limites com o coração; quando são levadas a pensar como virtude na vivência do primeiro princípio, passam a praticar essa virtude com mais consciência, tanto no instrumento, como no seu dia a dia. Para essas crianças traz um profundo sentimento de realização e isso traz felicidade, paz e harmonia.

No segundo princípio, destaca-se a composição com temática das virtudes para as crianças da musicalização. Estimular a composição ou criação nas crianças é de fundamental importância para seu desenvolvimento, principalmente quando a temática dessa composição são as virtudes. Isso gera um debate entre as crianças, que não só praticam a virtude, como se utilizam das suas práticas para compor.

No terceiro princípio, transmitir o aprendizado e promover conexões, as crianças se espelham nos mestres, veem como os mestres ensinam e como promovem as conexões entre eles, tudo isso com dedicação. Como já foi dito, os mais experientes aprendem com os professores e ensinam para os inexperientes. Ter o exemplo de professoras dedicadas inspira as crianças e jovens a se comportarem do mesmo jeito, criando uma corrente do bem que facilita o ensino, aprendizado e conexão da música às virtudes.

No quarto princípio, a ênfase na beleza, carinho e paz é fundamental para um ensaio harmonioso. Esse ambiente tem sido importante para que as crianças continuem frequentando a orquestra. Segundo o Relatório Social do Criança para Bem de 2024 da Nova Acrópole, “94% das crianças e jovens renovaram a matrícula para ano seguinte”. (RELATÓRIO PCPB 2024, 2024, p.7). E, nesses anos todos tem sido sempre assim; a rematrícula é sempre alta, trazendo um desafio importante para o programa: aumentar paulatinamente o número de vagas.

No quinto princípio, está o exemplo do educador, e cada jovem é aprendiz e educador, dando a eles um senso de responsabilidade importante. Quando você chega na orquestra do Música para o Bem, vai perceber que aqueles que estão entrando são mais tímidos, inseguros, mas nunca estão sozinhos; há sempre alguém ao seu lado incentivando e ensinando as passagens mais difíceis da música, seja um monitor ou um colega mais experiente. Esse senso de responsabilidade está em todos, e aqueles que agora são aprendizes, no futuro serão mestres, e assim segue girando a roda da aprendizagem coletiva de orquestra.

Os ensinamentos contidos no método aprender para o Bem são transmitidos para as crianças nos Seminários das Virtudes e nas Virtudes do Trimestre. Nos seminários os maestros, instrutores e os monitores (estudantes do programa, que estão mais adiantados recebem bolsa de monitoria, uma forma de mantê-los no programa e evitar que muito cedo caiam em subempregos para ajudar os pais), a cada trimestre aprendem uma virtude que é praticada nas oficinas de música e nos ensaios do coral e da orquestra.

Diversos relatos de participantes comprovam a influência positiva do Música para o Bem na vida dos jovens. Crianças que antes enfrentavam dificuldades emocionais, falta de perspectiva ou ambientes desfavoráveis encontraram na música e na filosofia um caminho para o crescimento pessoal. Segundo o depoimento de Luiz Otávio, 10 anos, flautista da orquestra, “participar da orquestra é legal, ajuda a pensar mais e a ter mais raciocínio” (CRIANÇA PARA O BEM, 2024). Realmente a música desenvolve a parte cognitiva das crianças, eles sentem isso principalmente na escola. Estudos realizados em programas semelhantes apontam que o envolvimento em atividades musicais pode reduzir a ansiedade e aumentar a autoestima em até 40% (LIMB, 2010).

Um caso emblemático ocorreu com um grupo de jovens que, ao ingressarem no programa, passaram a desenvolver um senso de pertencimento e propósito. Segundo depoimentos de educadores, muitos desses jovens passaram a enxergar novas possibilidades de futuro, melhorando seu desempenho escolar e fortalecendo sua conexão com a comunidade.

No último relatório doCriança para o Bem de 2024, que mediu a potencialidade das crianças e jovens em quatro áreas: prática, socioafetiva, racional e espiritual, constatou-se – numa escala de 1 a 5, onde 1 é muito ruim e 5 muito bom – que a maioria teve uma melhora significativa nas quatro potencialidades: todas ficaram com médias de 3 para cima sendo que a espiritual chegou à média 4. Nessa potencialidade é onde se manifesta mais o mundo harmonioso e pacífico que estão envoltas as crianças do programa (RELATÓRIO PCPB, 2024).

O impacto do Música para o Bem vai além da música: ele forma cidadãos mais conscientes e participativos. O ensino baseado na Filosofia Aplicada e na prática musical coletiva permite que os jovens compreendam melhor seu papel na sociedade, tornando-se agentes de transformação e multiplicadores da paz. Encontramos a paz quando encontramos nosso sentido de vida. Esse princípio está presente no programa, onde a música e a filosofia servem como ferramentas para que os participantes construam um propósito sólido de vida.

Considerações Finais

A ampliação de programas como o Música para o Bem exige um compromisso contínuo da sociedade, das instituições educacionais e dos órgãos governamentais. Entre os principais desafios enfrentados estão:

  • Falta de financiamento e infraestrutura: muitos projetos musicais enfrentam dificuldades financeiras para a compra de instrumentos, manutenção de espaços de ensino e contratação de professores especializados.
  • Acesso limitado à educação musical em comunidades de baixa renda: apesar do modelo de inclusão do Música para o Bem, ainda há muitas regiões onde crianças e jovens não têm acesso à formação musical gratuita.
  • Necessidade de formação de educadores: é essencial garantir que professores e regentes tenham não apenas conhecimento técnico-musical, mas também formação em valores filosóficos e sociais para trabalhar com o desenvolvimento humano dos participantes.
  • Reconhecimento institucional: para que iniciativas como Música para o Bem sejam amplamente implementadas, é necessário maior reconhecimento das autoridades educacionais e culturais sobre o papel transformador da música e da filosofia na educação.

Apesar dos desafios, existem diversas possibilidades para expandir e fortalecer o impacto do programa, permitindo que mais crianças e jovens se beneficiem da educação musical e filosófica. Algumas estratégias viáveis incluem:

  • Parcerias com instituições públicas e privadas: o apoio de universidades, Organizações Não Governamentais (ONGs) e empresas pode garantir financiamento, estrutura e apoio logístico para manter o projeto funcionando e alcançar novos públicos.
  • Uso da tecnologia e educação híbrida: plataformas digitais podem ser utilizadas para oferecer aulas de música e filosofia online, ampliando o alcance do programa para regiões onde a infraestrutura presencial é limitada.
  • Capacitação de educadores: investir na formação contínua de professores e regentes, integrando música e filosofia, para que possam aplicar metodologias inovadoras e tornar o ensino mais acessível e eficaz.
  • Campanhas de sensibilização: movimentos sociais e campanhas de conscientização podem fortalecer a visibilidade do projeto e incentivar o apoio governamental e comunitário.
  • Expansão internacional do modelo: Assim como o El Sistema inspirou programas ao redor do mundo, o Música para o Bem pode ser adaptado a diferentes contextos culturais, promovendo paz através da música e da filosofia em outras unidades de Nova Acrópole que se espalham nas regiões do Brasil e nos cinco continentes.

Ao longo deste artigo, exploramos como o projeto Música para o Bem, apoiado pelo Movimento Sinfônico (MovSinfo) e fundamentado na Filosofia Aplicada da Nova Acrópole, contribui para a construção da paz entre crianças e jovens. A música, ao atuar como ferramenta de transformação social e emocional, promove o desenvolvimento da paz interior, inclusão e cooperação, formando cidadãos mais conscientes e resilientes.

A Filosofia Aplicada da Nova Acrópole e o Programa Criança para o Bem oferecem uma base para a reflexão e prática de valores universais, criando um ambiente que favorece o equilíbrio emocional e o crescimento humano. Ao integrar esses elementos, o Música para o Bem torna-se um espaço onde a música não apenas educa, mas transforma vidas.

Apesar dos desafios de financiamento, infraestrutura e expansão, há caminhos promissores para a ampliação do programa. Parcerias institucionais, o uso da tecnologia e a formação contínua de educadores e regentes são estratégias essenciais para garantir que mais crianças e jovens tenham acesso a essas iniciativas. Em um mundo marcado por desafios sociais, violências e guerras, iniciativas como o Música para o Bem provam que a música e a filosofia são ferramentas poderosas para a construção da paz.

O impacto desses projetos não se limita à formação artística, mas se reflete na sociedade, gerando uma cultura de cooperação, respeito e harmonia. A paz, antes vista como um conceito abstrato,  torna-se uma experiência real e é vivida através da educação musical e filosófica, deixando um legado duradouro na vida dos participantes e na comunidade.

Artigo publicado em: CAMAROTTTI, Henriqueta; BRASIL, Mário Lima; COSTA, Melissa Andrade (org.). Caminhos para a paz: teoria e prática. Brasília: Universidade de Brasília, Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares, 2026. E-book (308 p. ).
Publicação completa disponível em: https://livros.unb.br/index.php/portal/catalog/book/726

Referências:

ABREU, José Antonio. Discurso no prêmio Príncipe das Astúrias. Oviedo: Fundação Príncipe das Astúrias, 2008.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Torrieri Guimarães. São Paulo: Martin Claret, 2001.

DEWEY, John. Democracia e educação: uma introdução à filosofia da educação. São Paulo: Nacional, 1959.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

HADOT, Pierre. O que é a filosofia antiga? Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Editora Loyola, 1995.

LIMB, Charles J. Neuroscience and music. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2010.

LIMA BRASIL, Mário. A música como escola de virtudes. Boletim Nova Acrópole, abr. 2019. Disponível em: https://nova-acropole.org.br/boletim-musica. Acesso em: 19 jun. 2025.

LEVITIN, Daniel J. This is your brain on music: the science of a human obsession. New York: Dutton, 2006.

NOVA ACRÓPOLE. Criança para o Bem – Música para o Bem. Brasília: Nova Acrópole, 2024. Disponível em: https://nova-acropole.org.br/voluntariado/crianca-para-o-bem. Acesso em: 19 jun. 2025.

MOVSINFO. Movimento Sinfônico e Coral. MovSinfo, 2025. Disponível em: https://movsinfo.com.br. Acesso em: 19 jun. 2025.

PLATÃO. A República. Tradução e notas de Leonel Vallandro. Edição especial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2014. E-book Kindle.

PUCHAL, C. A. As Esferas da Consciência: eu, os outros e o mundo. Santos: Edições Nova Acrópole, 2024.

RELATÓRIO PCPB 2024. Relatório entrevista social: Programa Criança para o Bem 2024. Criança para o Bem, 2024. Disponível em: https://criancaparaobem.org.br/. Acesso em: 19 jun. 2025.

TOMÁS, Lia. Ouvir o Lógos: música e filosofia. São Paulo: Editora Unesp, 2002. TUNSTALL, T. Changing lives: Gustavo Dudamel, El Sistema, and the transformative power of music. New York: W. W. Norton & Company, 2012.


[1] Havia uma Acrópole na cidade de Crotona, onde Pitágoras estabeleceu sua escola de filosofia.

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