Lançamento no Memorial Darcy Ribeiro, na Universidade de Brasília, reuniu filosofia, ciência, arte, educação e ação social em torno da construção de uma cultura de paz.

Nosso mundo atualmente está marcado por conflitos, polarizações e incertezas, nesse contexto construir a paz exige mais do que desejar o silêncio das armas. Requer diálogo, transformação individual e ação coletiva. Essa foi uma das reflexões centrais do lançamento do livro Caminhos para a Paz – Teoria e Prática, realizado no dia 17 de agosto, no Auditório do Memorial Darcy Ribeiro, no campus da Universidade de Brasília (UnB).
A coletânea reúne contribuições filosóficas, científicas, educacionais, artísticas e sociais, além de experiências desenvolvidas no Brasil e em outros países. Dividida em duas partes: Teoria para a Promoção da Paz e Práticas para a Promoção da Paz, a publicação busca aproximar reflexão e ação, oferecendo fundamentos e experiências que possam contribuir para a construção de ambientes mais inclusivos, solidários e sustentáveis.
Entre as instituições que colaboraram para a obra está a Nova Acrópole, que participa da coletânea com experiências relacionadas à Filosofia Aplicada e à promoção da cultura de paz.
Diálogo e síntese como caminhos

O encontro foi mediado por Melissa Andrade Costa, uma das organizadoras do livro e Secretária de Relações Institucionais da Nova Acrópole. Ao apresentar a proposta da publicação, ela destacou que a paz não deve ser compreendida apenas como ausência de guerra, mas como um processo que envolve simultaneamente o indivíduo e a sociedade.
“Necessitamos ter uma capacidade de síntese, na qual encontramos a paz como algo dentro de nós e, ao mesmo tempo, conseguimos expressá-la fora. O diálogo une-se a isso como um elemento essencial, e aí entra o trabalho da Nova Acrópole como escola de filosofia. Para promovermos a paz, essencialmente precisamos promover o diálogo e a síntese. Este livro traz lições práticas de como podemos construir a paz por meio de vários projetos e diversas iniciativas”, afirmou Melissa.
A perspectiva encontra eco em um dos estudos presentes na obra, Contribuições da Filosofia Aplicada para a Promoção da Paz, de Melissa Andrade Costa e Raquel de Carvalho Brostel. O trabalho apresenta uma avaliação realizada na Unidade da Nova Acrópole Asa Sul, no Distrito Federal, buscando identificar de que maneira as atividades filosóficas, culturais e de voluntariado contribuem para a formação humana e para uma Cultura de Paz. A pesquisa combinou análise documental, questionários, entrevistas e grupos focais.
Os resultados destacaram aspectos como solidariedade, escuta, convivência respeitosa e compreensão das diferenças. O estudo também aponta para a relação entre transformação pessoal e transformação dos ambientes de convivência, mostrando como a prática das virtudes pode ultrapassar o espaço da escola e alcançar as relações cotidianas.
A professora Nair Heloisa Bicalho de Souza abordou a cultura de paz a partir da escuta, do diálogo e do cuidado, compreendidos como uma práxis de humanização. Regina Fittipaldi ressaltou a conexão entre os seres humanos e a natureza: “Somos seres de sensação, a síntese da criação da Mãe Terra. Estamos totalmente conectados. A construção da paz é um laboratório”.
Transformação individual e responsabilidade coletiva

A proposta de uma paz que começa no indivíduo e se manifesta nas relações também esteve presente na fala de Ulisses Riedel.
“Aquilo que a gente faz constrói o mundo como ele é. Temos que nos transformar em pessoas que dão amor, em pessoas que são amor. A mudança de mentalidade começa individualmente, mas é um trabalho coletivo”, declarou.
A reflexão também está presente na concepção de Filosofia Aplicada apresentada no livro. Segundo o estudo sobre a experiência da Nova Acrópole, a filosofia aplicada busca aproximar o conhecimento da vida cotidiana, favorecendo o autodomínio e a formação de indivíduos capazes de atuar como agentes de transformação na sociedade.
Para Mário Lima Brasil, diretor do Núcleo de Estudos da Interconexão de Ciência, Arte, Filosofia e Espiritualidade (CAFE/CEAM/UnB) e um dos organizadores da obra, a discussão é urgente: “O mundo chegou ao ponto do caos. E a pergunta fica: para onde vamos? Ou damos um salto civilizatório ou vamos para a barbárie. Mas o salto é possível”, afirmou. Ele ainda deixou um questionamento para a reflexão dos presentes: “O que há de paz naquilo que você faz?”.
Segundo Mário, o livro busca oferecer subsídios conceituais e operacionais para que pessoas e instituições possam contribuir para ambientes mais solidários. A obra foi construída com a colaboração de setores da UnB e de organizações comprometidas com a cultura de paz e a inovação no campo do conhecimento, entre elas Nova Acrópole, União Planetária e Unipaz. O prefácio é assinado por Marlova Jovchelovitch Noleto, diretora do Escritório da UNESCO em Brasília e representante da UNESCO no Brasil.
Da reflexão à prática
Uma das características da coletânea é justamente aproximar os conceitos das experiências concretas. Na segunda parte do livro, diferentes iniciativas são apresentadas como possibilidades de educação e atuação para a construção da paz.
Entre elas está o Música para o Bem, desenvolvido pela Nova Acrópole dentro do Programa Criança para o Bem. O projeto articula educação musical coletiva e Filosofia Aplicada, trabalhando valores como cooperação, disciplina, cortesia, bondade e beleza. O livro aponta que a experiência musical coletiva favorece o desenvolvimento do senso de comunidade e cria um espaço para o cultivo da harmonia, do respeito mútuo e da integração social.
A publicação também destaca que a prática musical pode se tornar um exercício de superação de limites e trabalho em equipe. Ao integrar a reflexão sobre as virtudes à experiência cotidiana de aprender um instrumento e tocar em conjunto, o processo educativo busca transformar uma habilidade artística em uma experiência de desenvolvimento humano.
Assim, a paz aparece na obra não como uma ideia distante, mas como algo que pode ser exercitado em diferentes espaços: na sala de aula, nas relações familiares, nas comunidades, nas instituições, na arte e nas escolhas individuais.
Um convite à construção
O encontro no Memorial Darcy Ribeiro foi aberto pela cantora Bruna Leiros, aluna da Nova Acrópole, que interpretou Nella Fantasia, de Ennio Morricone. Em seguida, ela recebeu Hoeck Miranda e Anderson Gomes Ribeiro para a apresentação de Paz pela Paz, do compositor pernambucano Nando Cordel.
O evento foi encerrado com Regina Fittipaldi recitando Sonhar um sonho impossível, passagem associada ao clássico Dom Quixote. Após o encerramento, os participantes receberam gratuitamente exemplares da coletânea e puderam participar de uma sessão de autógrafos com os autores.
Mais do que reunir diferentes áreas do conhecimento em torno de um tema urgente, Caminhos para a Paz – Teoria e Prática propõe uma mudança de perspectiva: compreender que a construção da paz depende também daquilo que cada pessoa cultiva, pratica e expressa no cotidiano.
“Creio que, mais do que nunca, necessitamos fazer sínteses e aprender a dialogar. O livro nos ajuda a refletir e nos unir para trabalharmos juntos pela promoção da paz dentro e fora de nós”, destaca Melissa Andrade Costa.
Acesse gratuitamente ao livro: Caminhos para a Paz – Teoria e Prática – livros.unb.br
