Nem sim, nem não, mas exatamente o contrário

Delia Steinberg Guzmán, (1943 – 2023), presidente honorária de Nova Acrópole

Não queremos acrescentar, com estas palavras, mais uma dose ao desconcerto que, infelizmente, já afeta quase todo o mundo. Apenas as utilizamos para refletir um estado de espírito que vai, pouco a pouco, ganhando espaço em todos aqueles que procuram formar uma ideia da vida atual recorrendo unicamente aos meios de comunicação ou aos rumores que deles se derivam.

Há dias em que basta abrir o jornal pela manhã para mergulhar nessa crise do “nem sim, nem não, mas exatamente o contrário”. Surge então a vontade de escapar, ou de afastar por um momento a consciência do que se lê, tentando enxergar “de fora”, com outra perspectiva, descontaminada de tudo o que nos impregna diariamente, quase sem perceber.

Se realmente pudéssemos nos converter em espectadores desapegados de tudo o que nos rodeia e nos aprisiona, perceberíamos que, na maioria das pessoas, o que predomina é desconcerto, confusão, inquietação, ausência de rumo e de método — ainda que cada um expresse esses estados interiores de formas muito diferentes.

Alguns se escoram na autossuficiência que lhes dá saber que, de alguma forma (quem sabe por quais motivos), manipulam e até criam esse mesmo desconcerto. Outros se protegem atrás da indiferença, tentando seguir o ritmo estabelecido de vida, já que alterá-lo — por pior que seja — criaria um desconcerto ainda maior. Há os que nem se dão conta de nada, seja porque não percebem o que se passa, seja porque perderam toda capacidade de análise. Outros preferem o silêncio para não serem taxados de loucos ou endemoninhados. E há ainda aqueles que somatizam seu desconcerto inconsciente em dores, insônias, úlceras, indigestões, apatia ou depressão.

Quem nos dera possuir aqueles elmos mágicos das antigas lendas para nos tornarmos invisíveis e observar tudo sem sermos incomodados. Ou então um elixir milagroso que nos ajudasse a retirar as vendas psicológicas que nos cobrem os olhos.

Há raros momentos em que — sem elmo, sem elixir — conseguimos isso. Poucos, muito poucos. Talvez eu possa aproveitar um deles para deixar aqui algumas linhas sobre esse turbilhão de opiniões que tanto dano causa.

Curiosamente, no inusitado “confessionário” de um táxi — ao abrigo da incógnita entre passageiro e motorista, ambos sem nome ou sobrenome, unidos apenas por alguns minutos de circunstância —, encontro pessoas que expressam exatamente o que quero dizer. Com palavras simples, porém contundentes. Com um senso comum impressionante. Mas estão atadas ao banco de seu carro e precisam seguir dirigindo, pois desconcerto não paga as contas.

E vamos ao ponto.

Sem ordem de preferência, deixo aqui alguns tópicos que alimentam minha crescente perplexidade. Bibliografia? A mais simples de todas: dois jornais de dois dias seguidos, lembranças de alguns noticiários de rádio ou TV de no máximo uma semana, e um ou outro comentário de rua.

1. As crianças

As crianças, serão mesmo crianças? É difícil saber como tratá-las, especialmente a partir dos cinco ou seis anos. Diz-se que as de hoje são mais inteligentes que as de antes e, por isso, se interessam por outras coisas e têm outras preocupações. Pode ser. Mas isso não elimina o fato de que, junto aos mais “evoluídos”, ainda existam crianças morrendo de fome, sem qualquer possibilidade de melhorar minimamente sua condição de vida, nem mesmo de aprender a ler para saber que têm mais inteligência que há um século.

Nada disso impede que a violência também faça estragos nessa idade, levando a surgirem perigosos assassinos de dez ou onze anos, inspirados sabe-se lá no quê. E isso também não nos salva de crianças — aquelas que podem expressar sua “superioridade” — se tornarem mais caprichosas, desobedientes, inabordáveis… mas, claro, são livres.

Ao mesmo tempo, cresce o número de crianças submetidas a maus-tratos por pais, parentes ou mesmo por professores. Lemos: “O tráfico de crianças gera um negócio milionário na América Central”. Trata-se de redes criadas para facilitar adoções rápidas, sem burocracia, bastando o pagamento pela criança em países onde sequer existem registros de nascimento ou óbito.

Se isso não acontece, muitas acabam assassinadas para aproveitamento de órgãos (outro bom negócio), ou se veem forçadas à prostituição e à criminalidade para sobreviver.

E quando olhamos para os programas de estudo “cuidadosamente” elaborados aqui e ali, continuamos sem saber o que se pretende da criança: torná-la um robô memorizador ou deixá-la ao próprio arbítrio, já que obrigá-la a estudar poderia causar traumas.

O que fazer? Tratá-las como adultos ou como crianças? E afinal, o que é uma criança?
Acho que sei: nem criança, nem adulta, mas exatamente o contrário.

2. Adolescentes e jovens

Os adolescentes enfrentam um duplo problema: por um lado, estão se abrindo para a vida com todas as suas complexidades; por outro, sem uma orientação adequada, sentem-se compelidos a “experimentar de tudo”. Hoje, quem não fuma, não prova alguma droga, não se enche de bebidas mal misturadas ou não se envolve sexualmente, é considerado “atrasado”.

Ao mesmo tempo, devem concluir os estudos para “ser alguém no futuro”. Mas não sabem estudar, não conseguem se concentrar, não amam o que aprendem e raramente encontram professores que lhes despertem a alma.

Uma estatística (correta ou não) afirma que 45% dos adolescentes espanhóis acreditam estar fracassando nos estudos. Não confiam em si mesmos, não veem o futuro com clareza. As decepções e a perda de autoestima nascem cedo. E, no mesmo jornal, lê-se sobre o fascínio desses adolescentes por um novo estilo de mangá japonês, dominado por conteúdos sexuais e violentos.

O jovem que, mesmo estudando, tenta encontrar trabalho condizente com sua formação enfrenta um muro. Se não há emprego para os adultos, como haverá para os jovens sem experiência? E as soluções propostas — empregos de baixo salário “enquanto aprendem” — apenas geram mais descontentamento, pois substituem trabalhadores mais velhos e caros por jovens mais baratos.

O resultado: protestos, bloqueios, revoltas.

E, como disse o arcebispo francês de Lyon:

“Temo que tudo isso leve a juventude à frustração e ao desespero. Somos nós, os adultos, que corremos o risco de desesperar a juventude.”

Uns jovens permanecem em casa, acomodados; outros saem sem medir as consequências, pulando de lugar em lugar, sem rumo. Não surpreende que tantas relações fracassem, enquanto a moda incentiva trocas constantes em vez de construir amores duradouros.

E, claro, ninguém quer fazer o serviço militar — visto como perda de tempo ou tirania — pois falar de pátria ou nação é “coisa ultrapassada”. Melhor se declarar “insubmisso”.

Pobres jovens e adolescentes! Em quem ou no que confiar?
Acho que sei: nem em uns, nem em outros, mas exatamente o contrário.

Adultos e idosos

É curioso saber que os adultos são os encarregados de conduzir com sabedoria o caminho dos jovens, mas que esses mesmos adultos não sabem como conduzir as suas próprias vidas. Exceto os cada vez mais raros que têm resolvidos os seus conflitos econômicos, completar anos de vida vai se convertendo em uma maldição: ninguém quer dar um novo trabalho àquele que já tem certa idade e uma família formada para sustentar, e ninguém gosta da maturidade ou da velhice em nenhum de seus aspectos.

Embora se promova a “beleza da ruga” (deve ser apenas nos tecidos), as pessoas buscam todo tipo de artifícios para apagar as rugas de seus rostos e corpos. O aparecimento de uns “pés de galinha” é mais terrível que a presença de um fantasma sombrio.

A regra da perfeição é ser jovem, ser belo, ter dinheiro e… depois veremos o que se faz.

Por isso, é preciso conservar-se em bom estado, é preciso emagrecer, é preciso recorrer aos novos produtos maravilhosos que farão tudo enquanto se dorme, sem que seja necessário usar uma gota sequer de vontade e perseverança para conseguir o que se deseja.

Enquanto isso, há lugares no mundo onde uma pessoa de quatorze anos parece ter mais de cinquenta e não tem sequer a possibilidade de medir as suas rugas; quanto a emagrecer, é evidente que não precisa.

Dos idosos, é melhor nem falar. Insistimos em não mencionar as exceções, mas a maioria deles se debate entre a falta de interesse e de carinho de sua família e a espera interminável para conseguir um lugar em algum asilo ou residência nos quais, de todo modo, detestam estar. A alguns restam as suas lembranças, outros morrem muito antes de terem morrido. Um velho é algo detestável, inútil, não se deveria permitir que se mostrasse na rua. Melhor abandoná-los, como aos cães, embora agora se levantem vozes lembrando que aqueles que amam os cães e os animais em geral são pessoas cultas. E suponho que aqueles que amam os idosos também o sejam.

Trabalhar a maior parte da vida, fazer esforços para economizar algum dinheiro que depois acaba não valendo nada, apegar-se aos filhos, aos netos para depois sentir-se só, olhar para o futuro e não ver nada além de um vazio perigoso com o rosto da morte: como interpretar este panorama? Como que viver não é bom nem mau, mas exatamente o contrário.

A sociedade

Entende-se por sociedade um grupo humano que convive com base em finalidades comuns. Melhor não buscar essas finalidades, nem tampouco a convivência.

A única coisa clara que se vislumbra é um enfrentamento de todos contra todos, chame-se pelo nome que se quiser. É certo que se brandem denominações pomposas como racismo, xenofobia, lutas étnicas, antissemitismo, fascismo, fundamentalismo, nacionalismo… Quantas palavras tantas vezes utilizadas por todos os meios de comunicação e que pobres diante da crua realidade de todos os dias. É claro que tudo isso existe, mas também existem fios ocultos que transformam os seres humanos em marionetes sem vontade, obrigando-os a gritar hoje a favor de uma ideia para agitá-los amanhã contra a mesma coisa que elogiavam. Quem move esses fios e para quê? São muito poucos os que pensam de verdade e menos ainda os que se atrevem a expressar em voz alta o que pensam. Pelo visto, ainda continua existindo a pena de morte por pensar ou, melhor dizendo, por não pensar como aparentemente pensam as maiorias.

Enquanto se celebra o Dia Mundial do Racismo (a favor ou contra?), diariamente ocorrem brigas e mortes por motivos raciais às quais se somam as de cunho religioso. A intolerância está na ordem do dia e cada um acredita ter razão. Assim será muito difícil alcançar uma convivência que dure mais de quatro dias.

Enquanto se elogiam as conquistas do nosso século, entre elas a liberdade de voto, acontece que em uma eleição universitária comparece apenas cinco por cento dos estudantes. Ao mesmo tempo, na África do Sul morrem vinte e um presos em um incêndio enquanto protestavam reclamando o seu direito ao voto.

Enquanto se proclama a liberdade de crenças e o respeito por todas elas, estamos cansados de ver o número crescente de mortos por essa mesma razão. Mata-se nas ruas, nos templos (que deveriam ser sagrados, ou não?), nas casas particulares, durante viagens de turismo, nas escolas, supermercados e em meio a comícios políticos.

Onde e como buscar refúgio e segurança? Um jornal recente confirmava a pouca confiança que muitos espanhóis têm no poder judicial ou, melhor dizendo, nos juízes. E é natural se temos de enfrentar notícias que refletem a corrupção de alguns juízes, os mesmos em quem deveríamos confiar, ou os maus-tratos de policiais que teoricamente seriam os que têm que nos defender. É claro que é tão fácil manipular notícias e deixar-nos a todos sem saber nada de nada enquanto acreditamos que sabemos tudo.

A corrupção existe na medida em que nos é apresentada ou é mais uma arma para desqualificar os opositores em um ou outro campo? Esses maus-tratos existem de forma tão generalizada como se pinta ou é uma forma de proteger os delinquentes, quando a delinquência já alcançou as mais altas esferas?

Supõe-se que a democracia nos deu a todos a possibilidade de pensar como queremos e escolher os partidos ou as pessoas que nos parecem mais adequados. Pois não. Porque ao primeiro partido ou pessoa que se desmarque dos limites estabelecidos pela democracia se lhe chama de fascista e pronto. Pelo visto, acaba de surgir um terceiro tipo de fascismo (falta-me investigar um pouco mais sobre as outras duas formas): é o que propugna o poder econômico, o que exercem os milionários que pretendem entrar no jogo político. E acaso o poder econômico não teve sempre um papel fundamental na política, mesmo que disfarçado com outras cores? É necessário chamá-lo de fascismo e criar uma nova fonte de confusão? E àquele a quem não se pode aplicar algum adjetivo da moda, elimina-se com um par de tiros; mais fácil, jogue-se água.

Para escapar de tanta alienação cotidiana, restam alguns meios nem sempre saudáveis: a droga, a “telelixo”, as “party line”, as discussões intermináveis sobre eutanásia sim ou não. Enquanto os laboratórios farmacêuticos travam suas próprias batalhas retirando ou acrescentando medicamentos para o consumo, sem que a pobre gente saiba a que se ater, outros apelam aos tribunais para que lhes permitam morrer dignamente quando já não lhes resta outro destino senão uma morte segura e degradante. Enquanto alguns doentes lutam incansavelmente para se curar e viver, outros matam dezenas e dezenas de inocentes que não tiveram sequer a possibilidade de exercer a sua vontade de viver. Porque, afinal, a droga é boa ou má segundo quem a controla.

A cultura é algo fora de uso. Para que serve neste mundo competitivo e cruel? Por isso surgem palavras novas, como “telelixo”, para satisfazer ao “público-lixo” que viemos a ser nós, condenados a não ter outra opção ou a esquecermo-nos daqueles maravilhosos aparelhos chamados televisores que tanto nos atraíram no momento de sua aparição.

Convenceram-nos de que a informática agilizaria muitos processos e que tudo iria mais rápido e melhor. Mas os computadores são manuseados por seres humanos e também se equivocam, e muito, se é que já não começam a ter uma inteligência própria. Não é estranho manter um diálogo com uma secretária eletrônica ou discutir com um computador que só sabe dar a mesma resposta enquanto não se lhe mude o programa?

Resta-nos também o espetáculo frequente dos governos e seus representantes que agora ocupam as páginas das revistas de celebridades com seus romances e escândalos, com suas mútuas acusações. Resta-nos os políticos que prometem com a mesma leveza dos adolescentes que acreditam estar apaixonados e que, passado um tempo, só nos oferecem as suas brigas domésticas, os seus fracassos e as suas manipulações.

Por sorte, após uma recente pesquisa realizada em oito países da Europa e da América do Norte, chegou-se à conclusão de que “a Imprensa é o cão de guarda contra o poder”. Menos mal. E da Imprensa, quem nos protege? Já sei: nem todos nem ninguém, mas exatamente o contrário.

Tudo o que foi dito pode parecer dramaticamente pessimista, mas não é. É uma mera queixa, dolorosa queixa, em tom de brincadeira, por falta de outra coisa. Consola-me ler uma entrevista com Leszek Kolakowski, catedrático de Filosofia na Universidade de Chicago, na qual afirma que não estamos tão “no ar” como parece, nem que é tão bom sentir-se liberado de todo contexto e compromisso, dependendo de quais contextos e compromissos. Ele diz: “Ser totalmente livre da herança religiosa ou da tradição histórica é colocar-se a si mesmo no vazio e desintegrar-se”. E também: “A indiferença é a forma principal de tolerância no Ocidente. Muitas vezes, nossa atitude tolerante é pouco mais do que falta de interesse ou de crença”.

E bem, algo nos resta, portanto. Uma tradição histórica, uma herança religiosa ou espiritual, o que equivale a dizer cultura. Resta-nos sacudir a indiferença e a incredulidade, trocando-as por uma postura mais ativa e comprometida. Se quisermos sair deste labirinto de contradições, não há outro remédio senão mover-se, interessar-se, arriscar-se, intervir, aprender a pensar, a decidir, o que é um pouco tornar-se filósofo. Caso contrário, não seremos nem pouco nem muito, mas exatamente o contrário.

Autora: Delia Steinberg Guzmán, Publicado na revista Nova Acrópole, número 225, em abril de 1994.

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