Os Estados Unidos: princípio ou fim de uma forma de vida?

Para compreender o fenômeno social, econômico e político dos EUA, é preciso recordar suas origens.

Este colosso, hoje enfrentando um dilema essencial e existencial, apresenta um caso muito curioso em sua constituição como país. Talvez um caso único, que encerra em si muitas contradições.

Nasce, na segunda metade do século XVIII, na costa leste, como um forte impulso anti-imperialista de um grupo humano que se desprende — o primeiro do continente americano — da tutela de uma potência europeia, a Inglaterra, com o apoio de elementos liberais franceses. Esses homens, como Lafayette, recebem, em sua primeira hora, e devido a um embate entre potências inimigas da Inglaterra, o apoio mais ou menos velado da França e da Espanha. Com o passar dos anos, mediante aquisições e guerras, anexam importantes territórios do centro, do centro-oeste e do sul de sua vasta geografia atual. Assim, compram da França sua zona central, invadem regiões dominadas primeiro pela Espanha e depois pelo México, sem desprezar o Alasca, adquirido por alguns poucos dólares do império russo. O grande colosso capitalista conquista a si mesmo antes de se lançar à conquista do mundo. Mas, depois da guerra de Cuba e de Manila, este nascente paladino da liberdade acaba tomando uma forma imperialista, apesar de tê-la combatido em suas origens.

Tendo a constituição mais estável e antiga do Ocidente — na qual se reafirmam os direitos humanos e o combate à escravidão, não se liberta desta última com facilidade. Será necessária a terrível Guerra de Secessão para extirpá-la, já que antes, na prática, sua abolição era opcional nos diferentes estados constitutivos. Em 1865, três dias depois da vitória do norte liberal, seu presidente, Lincoln, morre com um tiro na nuca, em seu camarote presidencial de um teatro. Jamais se soube quem realmente ordenou sua morte. Na transição entre o século XIX e o XX, outro presidente, McKinley, morre da mesma misteriosa forma. Seu assassinato também nunca foi devidamente esclarecido. E, nos anos 1960, também é morto, com um ou dois tiros na nuca, o presidente Kennedy; seu assassino morre diante das câmeras de televisão, diante de milhões de espectadores, pelas mãos de um personagem obscuro que, por sua vez, morrerá em um hospital, sem oferecer declarações críveis.

Esses são fatos isolados, pontos de reflexão. Não pretendemos ensinar nada ao leitor, pois qualquer livro de história contemporânea lhe dará informações suficientes. Mas o importante, para a posição filosófica, é pensar… não apenas memorizar dados. O processo, descrito de forma breve, já nos indica contradições de difícil compreensão.

Os EUA crescem e crescem ao longo do século XX e, além de receber quase 50 milhões de imigrantes, em sua maioria europeus, revelam enorme pujança econômica e uma agressividade sempre desperta.

Em seu seio nascem diversas correntes filosóficas, mas a que se impõe é a “antimetafísica do positivismo lógico”. Aquilo que, na Europa do fim do século XVIII, não pôde surgir, absorvido pelas fortes correntes tradicionais, é lançado nos EUA como uma pedra ao ar. Mas, como toda pedra, após o voo que lhe é dado pelo impulso, tende a cair na terra de onde partiu. A política agressiva dos EUA acaba se voltando contra si mesma, com o passar do tempo.

Com uma desculpa mais ou menos válida, entram na Primeira Guerra Mundial enviando suas tropas, e, sobretudo, suas máquinas, para uma Europa martirizada. O slogan é o de sempre: “a defesa da liberdade e dos direitos humanos”… Embora a “Doutrina Monroe” tenha afirmado que “a América é para os americanos”, por uma estranha contradição psicológica, e unidos à sua antiga opressora, a Inglaterra, que utilizam como trampolim de lançamento, seus homens morrem e matam no coração da Europa, sem deixar de ampliar sua influência na Ásia e na África. Observam com certa indiferença as obras de arte destruídas, as casas reais e as tradições derrubadas. Estaria surgindo uma nova forma de vida?

Sim, de certa forma, os EUA promovem, em todo o mundo, produzir rapidamente e incentivar um consumo ainda mais rápido, para que a produção cresça sem parar. Sonha-se constantemente com o futuro… mas nada de concreto se prevê em seu benefício. O “positivismo lógico” se converte em uma robotização dos sonhos que, no plano subliminar, inventa quantidades extras de vitaminas para os espinafres, através do simpático e musculoso Popeye, e lança personagens como o Superman, que encerram, como Popeye já encerrava potencialmente, uma grande dicotomia de caráter: poderosos até a fantasia e tímidos até a estupidez. O mito europeu de “o homem e a besta” se transforma no mito americano de “o super-homem e o tolo”. Mas, no mito americano, quem move os fios é o tolo.

Somente esse caráter psicológico coletivo explica que, também depois do misterioso episódio de Pearl Harbor, onde uma enorme frota japonesa penetrou milhares de quilômetros na área de defesa norte-americana no Pacífico, o duvidoso presidente Roosevelt tenha voltado mais esforço econômico para a guerra europeia do que para a asiática. Suas contínuas concessões a Stalin nos deixaram o legado de uma Europa partida em dois. E, em relação ao Japão, seu sucessor não encontrou melhor meio de render aqueles que já não podiam suportar mais dois meses de guerra do que recorrer ao horror ecológico, ao genocídio da bomba atômica, que, somente em Hiroshima, já causou até hoje 200.000 mortes civis, mesmo após 35 anos de seu lançamento.

Mais uma vez, nos deparamos com essa mistura infantil de um mundo utópico de paz e liberdade e o papel de “policial mundial” que tenta impor seu “American way of life” a quem queira e a quem não queira.

Talvez a opinião pública dos EUA não consiga entender as 90 revoluções da Bolívia… Mas não suspeita que, da mesma forma, a opinião pública da Bolívia não consiga entender que um país tão poderoso como os EUA tenha perdido a guerra do Vietnã, ou que não tenha conseguido organizar o resgate dos “reféns” no Irã, colidindo, simplesmente, um helicóptero com outro.

E, na Europa, não entendemos nem uma coisa nem outra.

Se os EUA pudessem aceitar que são tão incompreendidos quanto a Bolívia, a URSS ou Cuba, dariam um grande passo à frente. E não nos referimos ao povo norte-americano, que conhecemos como bondoso e inclinado a compreender tudo, mas ao pequeno círculo que o governa, pois os EUA deixaram há muito tempo de ser uma “democracia”, mesmo no sentido corrompido atual da palavra, para se converterem em uma “plutocracia” com um par de grupos de poder que disputam o governo de milhões de pessoas.

O presidente Carter, com seu messianismo individualista, à maneira luterana, levou as coisas a tal extremo que analistas não comprometidos chegam a se perguntar se não estamos presenciando o fim do império norte-americano. Este moralista acabou envolvido com as aventuras de seu irmão Billy, que chegou a usar seu nome em latas de cerveja, além do tortuoso caso dos milhões de dólares negociados com a Líbia, dos quais a Casa Branca nada sabe oficialmente, segundo informa o prestigiado New York Times.

Por outro lado, nesse aparente paraíso das liberdades humanas que são os EUA, deu-se a paradoxa de que, além de suas incongruências internas, foram propostas fórmulas que levaram, no pós-guerra, milhões de homens à escravidão comunista em várias partes do mundo, de Hungria a Angola. Os EUA não souberam ser amigos de seus amigos (como no caso de Taiwan) nem inimigos de seus inimigos (como no caso de Cuba). Fizeram tudo pela metade, timidamente… e sempre perderam. Hoje, a URSS domina 10 milhões de quilômetros quadrados a mais do que no fim da Segunda Guerra Mundial.

Na iminência das eleições, vemos os esforços dos “clãs” plutocráticos para escravizar as consciências dos cidadãos norte-americanos. O último Kennedy tentou verificar se Anderson poderia colaborar com ele. O próprio J. Carter tenta se reeleger (o que nos parece inconcebível). Kissinger procurou se aproximar de Reagan, assim como Ford, mas este outro candidato paradoxal é suficientemente astuto para perceber que o mundo mudou muito nos últimos anos. De outra forma, M. Thatcher não governaria a Inglaterra. As pessoas clamam por definições. E, para essas definições, Reagan, o candidato com melhores perspectivas de vitória, escolheu como vice, ao que parece, um ex-chefe da CIA, G. Bush.

Poderão os EUA superar seu complexo de “policial mundial”? Viverão e deixarão viver? Seus dirigentes compreenderão que a URSS está devorando o mundo em fatias, enquanto eles se preocupam com os “direitos humanos” no Paraguai? E os “direitos humanos” no Afeganistão, em Cuba, na Alemanha Oriental? Compreenderão que a Europa foi destroçada por sua culpa e que suas manobras no Oriente Médio podem torná-la a próxima vítima do comunismo, sem pátria e sem Deus? Perceberão que as teorias “tecnotrônicas” sobre um ano 2000 à la Flash Gordon já são impossíveis e que temos pela frente problemas gravíssimos de desaceleração de todo o processo histórico da civilização ocidental?

Essas perguntas precisam de respostas adequadas e concretas.

Não se trata de frear o Japão por seu auge industrial, mas de fortalecer um mercado desanimado pelas falhas contínuas do colosso americano. Os EUA devem voltar a beber nas fontes que os fizeram grandes, mas evitando cuidadosamente os erros do passado, pois nada ganhamos desmontando impérios europeus para substituí-los por impérios capitalistas ou comunistas. Devemos “humanizar” o processo. Importam-nos mais, hoje, os “direitos humanos” do que esses pseudo “direitos humanos”, ou morrer em nome das utopias “cinematográficas” dos anos 1930 que os EUA insistem em eternizar. E o fazem contra a vontade de seu próprio povo, obnubilado pelos espetáculos carnavalescos de cada eleição presidencial.

O que é essencial salvar não é uma forma infantil de viver o presente, sem importar o futuro e negando o passado. O que importa é salvar os valores humanos; as essências da cultura e da civilização; é não continuar envenenando a Terra e as consciências dos homens.

Já não podemos pensar em salvar uma forma de vida… mas a própria vida.

Isso é, pelo menos, o que opina um filósofo.

Jorge Ángel Livraga Rizzi, fundador de Nova Acrópole

Notas

[1] Nota da edição: Acreditamos que este artigo, apesar de ter sido escrito nove anos antes da queda do Muro de Berlim e do desmantelamento da URSS, ou do declínio do Japão como potência industrial (cedendo seu lugar à China), dá uma explicação clara de seu momento histórico. Além disso, apresenta uma proposta humanista para a sociedade e a política.

Publicado originalmente na Revista Nueva Acrópolis (Espanha), nº 76, outubro de 1980.

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