Entrevista com Delia Steinberg Guzmán (1973 – 2023), presidente honorária de Nova Acrópole.

Fernando Schwarz – Professora Steinberg, por que a Nova Acrópole que é uma associação cultural e filosófica realiza atividades na sociedade?
Delia Steinberg Guzmán – Em primeiro lugar, porque entendemos que a Filosofia abrange absolutamente todas as atividades humanas. Esse amor pelo conhecimento, essa busca pelas raízes de tudo aquilo que foi feito pelo ser humano, não pode deixar de lado nem a cultura, nem qualquer outro aspecto próprio da Humanidade.
Portanto, as atividades culturais não se referem apenas a um aspecto superficial, momentâneo ou temporário da cultura, mas sim àquele outro aspecto interno, profundo, que revela o que o ser humano pensa e sente, e que continuará manifestando enquanto for humano. Porque onde há uma raiz, há uma árvore.
F.S. – Que tipo de atividades estão sendo realizadas, além do que é especificamente cultural?
D.S.G. – As atividades culturais já contemplam um mosaico muito amplo de possibilidades. Mas a essas somamos outras que são muito mais práticas, como o voluntariado social. A possibilidade de nos colocarmos em contato direto com a sociedade, pois não é possível viver uma filosofia que sirva apenas para si mesmo.
Sob esse ponto de vista, se a Filosofia nos leva a compartilhar um destino e necessidades com todos os seres humanos, o voluntariado demonstra até que ponto a Filosofia desenvolve a generosidade na pessoa, e até que ponto essa generosidade pode se manifestar sem necessidade de recompensa. Pelo contrário, não há recompensa maior do que aproximar-se daqueles que necessitam de elementos materiais que estão dentro das nossas possibilidades de oferecer.
Outras atividades são especialmente dedicadas à educação, que é um dos pilares fundamentais da Filosofia. Publicações de diferentes tipos, que têm como eixo central a Filosofia, mas que também se estendem à Arte, à Sociologia, à pesquisa. Anualmente, buscamos uma forma de centralizar todos os países nos quais a Nova Acrópole atua, e essa centralização busca algum elemento que seja particularmente necessário em todo o mundo.
Por exemplo: o desenvolvimento de um espírito de tolerância e, nesse sentido, trabalhar ativamente pelos direitos humanos. Entendemos que não podemos separar os direitos humanos dos deveres, isso é lógico, mas um ser que pensa e sente precisa se expressar livremente. E é sob esse ponto de vista que enfocamos os direitos humanos.
Por isso também destacamos aquelas figuras da história da Humanidade que também tiveram dificuldades para se expressar, que não foram suficientemente valorizadas nem compreendidas em seu tempo e que, no entanto, hoje são exemplos e fazem parte do valioso tesouro da Humanidade.
São esses direitos: o direito à expressão, o direito de pensar, o direito de transmitir aquilo que consideramos fundamental, os que incluímos e fomentamos dentro das nossas particulares atividades anuais.
F.S. – Que diferença então podemos estabelecer entre uma organização como a Nova Acrópole e uma de outro tipo de ajuda humanitária?
D.S.G. – A ajuda humanitária tem uma tarefa muito específica: atender às necessidades que surgem em momentos específicos, quando as catástrofes podem incidir sobre um povo ou um país, e nesse momento a ajuda humanitária se volta para esse país ou esse povo que necessita.
O que a Nova Acrópole faz nesse sentido é, sem eliminar essa ajuda humanitária, integrá-la dentro de um espectro muito mais amplo de possibilidades, que tem como eixo fundamental a Filosofia.
Entendemos que, se Filosofia é amor ao conhecimento, logicamente é também amor aos seres humanos. Mas há também muitos outros tipos de ajuda humanitária. Educar também é uma forma de ajuda humanitária. E a própria cultura, porque não pode haver um bom futuro se desconhecermos o enorme valor da educação, para citar apenas um exemplo.
F.S. – A Filosofia tem realmente alguma utilidade para resolver os problemas cotidianos?
D.S.G. – Sim, tem, e é muito importante. A Filosofia nos ajuda a conhecer a nós mesmos. Conhecer-se a si mesmo não significa apenas buscar aspectos intelectuais, um desenvolvimento racional, certos conhecimentos científicos. Conhecer-se é também saber como somos e como agimos diariamente. Quais são as coisas que mais nos doem, quais as que mais nos satisfazem, e quais as dificuldades em que tropeçamos.
Portanto, a Filosofia nos oferece ferramentas muito práticas de autoconhecimento e, consequentemente, capazes de resolver problemas que vamos encontrar no dia a dia. O que fazer quando me deparo com uma dificuldade no trabalho, em casa, na universidade, na relação com meus amigos, ou com pessoas que não conheço, mas com quem gostaria de me comunicar? A Filosofia também é uma chave para esses aspectos cotidianos.
Talvez a mais importante, porque mais do que uma chave, é um motor interior. É a possibilidade de sentir que nós mesmos temos dentro de nós as respostas para resolver todas essas problemáticas.
F.S. – Diante da situação preocupante do mundo, quais são as prioridades da Nova Acrópole?
D.S.G. – Não podemos falar estritamente de prioridades, porque a Filosofia é um campo geral em que qualquer atividade e qualquer interesse humano têm seu lugar. Mas é evidente que às vezes é preciso sim estabelecer prioridades. Se falamos de voluntariado social, tentaremos direcionar nossa ação para os pontos onde ela for mais necessária, e nesse sentido podemos falar de prioridades. Se houver uma catástrofe, logicamente, a catástrofe determina a prioridade da ação.
Mas a prioridade fundamental é a formação humana. Uma formação que sirva para toda a vida, que não seja apenas um aprendizado racional de coisas que hoje podemos lembrar e amanhã esquecer, mas sim uma formação que ajude a viver.
Poderíamos dizer que, nesse sentido, a Filosofia é uma escola de vida. E essa é uma prioridade constante. Quem sabe viver, sabe reconhecer as prioridades em qualquer momento de sua existência, e pode modificar sua direção e suas ações em função do que é absolutamente necessário.
Acredito que também é uma vantagem da Filosofia não estabelecer prioridades com muita antecedência, pois são as diferentes situações que se apresentam que vão determinar essas prioridades.
F.S. – Como a Nova Acrópole consegue organizar ações comuns em diferentes países, quando as pessoas são tão diferentes, como é o caso, por exemplo, dos países do norte e do sul?
D.S.G. – Não podemos deixar de reconhecer que a distribuição geográfica dos países gera diferenças: de clima, de estilo de vida etc. Mas como nossa ação não está voltada para as diferenças e sim para as semelhanças, não encontramos nenhuma dificuldade em desenvolver o programa e o tipo de trabalho que a Nova Acrópole propõe.
Tudo o que fazemos está fundamentado numa igualdade essencial. Os seres humanos somos essencialmente iguais no fundo moral e espiritual.
Se esse é o elemento central sobre o qual desenvolvemos nossas atividades, todas as demais diferenças desaparecem. Nesse sentido, não teria valor falar de norte, de sul, de leste ou de oeste.
F.S. – Vocês refletiram sobre algumas perspectivas de ação para os próximos dez anos?
D.S.G. – Neste momento histórico, falar de dez anos é quase como falar de um século.
Estamos vivendo uma época em que tudo muda muito rapidamente. O tempo “corre”. Há transformações fundamentais no mundo, e falar de dez anos, no que se refere a ações pontuais, resulta bastante complexo.
O que sim podemos dizer que continuaremos fazendo nos próximos dez anos (ou vinte, ou cinquenta, ou cem) é dar o valor fundamental que a Filosofia tem como possibilidade de nos descobrirmos a nós mesmos e de seguir estabelecendo contato com todos os seres humanos. De tomar contato com a Natureza, viver nela e ser-lhe útil. E de entrar igualmente em contato com tudo aquilo que é transcendente, sagrado e essencial para o ser humano. E sobre isso não vamos estabelecer nenhum prazo, porque essa é a visão fundamental da Nova Acrópole.
No mais, nos próximos dez anos faremos aquilo que for indispensável, necessário, imediato… Mas também nos adaptaremos às mudanças que os tempos nos forem ditando.
F.S. – Quem são os voluntários que atuam na Nova Acrópole?
D.S.G. – Todo associado da Nova Acrópole tem a possibilidade (não a obrigação) de colaborar em nossas ações voluntárias em relação à sociedade, em relação a todas as ajudas que tentamos oferecer em todos os nossos campos de atividades.
No que diz respeito a eles, não nos importam sua origem social, seu prestígio, o país de onde procedem, nem tampouco suas riquezas pessoais. Basta um pouco de bom coração, generosidade, desejo de ajudar os outros, e isso é suficiente para constituir-se como voluntário e colaborar em todas essas tarefas que estamos empreendendo.
F.S. – De todas as suas viagens dos últimos anos, que são dezenas de países visitados, o que mais a impressionou? Que aprendizados extraiu para sua organização?
D.S.G. – Visitar muitos países é, por si só, um grande ensinamento sobre a enorme diversidade e capacidade de expressões que existem no mundo. Sobre a criatividade que podemos encontrar em cada lugar, e nos seres humanos, expressando-se em diferentes línguas e aproveitando suas possibilidades econômicas — sejam muitas ou poucas.
Mas o fundamental, do meu ponto de vista, é encontrar o ser humano em qualquer canto do mundo. É descobrir que, além dessas aparentes diferenças, da variedade da paisagem e do desenvolvimento econômico de um país, bastam cinco ou dez minutos de diálogo autêntico e verdadeiro, de comunicação sincera, para perceber que, no interior, todos os seres humanos buscamos as mesmas coisas, sofremos pelas mesmas coisas, temos anseios muito semelhantes e pontos em comum fundamentais.
F.S. – Para concluir, segundo a senhora, quais são os principais desafios para a juventude neste novo século?
D.S.G. – Considero que o maior desafio da juventude será descobrir que precisa se libertar das dependências exteriores e começar a buscar apoios interiores para poder sobreviver em momentos difíceis.
Hoje em dia, o enorme desenvolvimento técnico, científico e econômico em alguns lugares da Terra fez com que a juventude sentisse que seus apoios estão sempre fora de si mesma. Que sempre haverá elementos nos quais poderá se apoiar, ou aos quais poderá recorrer. Isso fez com que, em grande medida, ela esquecesse que os grandes valores estão sempre no interior.
Talvez a juventude tenha que aprender a conhecer a si mesma, e a encontrar que o verdadeiro apoio estará sempre dentro de si.
Esse é um desafio que, ao mesmo tempo, servirá para enfrentar outro desafio fundamental: vencer o medo.
Hoje os jovens têm medo. O futuro se apresenta como algo desconhecido. O jovem pode estudar, pode empenhar-se em concluir uma carreira, mais ou menos longa, mais ou menos difícil. Mas não sabe o que poderá fazer com esses estudos, onde vai encontrar um espaço, em qual caminho poderá se desenvolver. E isso gera medo e incerteza.
Se os valores voltarem a ser internalizados, se a pessoa — jovem ou adulta — buscar apoio em seu próprio ser, também poderá vencer o medo, que é um dos grandes males do nosso tempo atual; porque o futuro exige muito valor. Exige gente valente, decidida, entusiasta e feliz. E creio que essas características também se encontram no coração da Filosofia.
F.S. – Muito obrigado, professora Steinberg.
