Sobre a cordura

Autora: Delia Steinberg Guzmán (1943–2023), presidente honorária da Nova Acrópole

Entre tantos valores que fazem falta, a cordura ocupa um lugar muito especial. Se estar lúcido é o contrário de estar louco, hoje observam-se traços variados de loucura em todos os níveis humanos, a tal ponto que é difícil reconhecer quem é quem e onde se encontra o sutil limite que diferencia uns dos outros.

Não vamos analisar os casos clínicos de loucura nos quais, de algum modo, é possível detectar causas físicas ou orgânicas que promovem o desequilíbrio. Ou ainda que essas causas não sejam tão claras, o que é evidente é a perda do equilíbrio mental.

O que nos preocupa, ao contrário, é a forma de criar e manter um juízo saudável ao longo da vida. Uma coisa é a saúde mental, e outra bem diferente é ir perdendo a capacidade normal de julgamento por falta de formação, de educação, o que diminui as faculdades racionais — o grande distintivo do ser humano.

Se partimos do princípio de que todos viemos ao mundo com um potencial que deve manifestar-se com o passar dos anos, e em grau crescente, o que acontece com o juízo saudável, lúcido, inteligente, aquele que deve discernir e escolher? Se as oportunidades que nos apresentam, longe de serem úteis ao desenvolvimento do entendimento, o distorcem ou atrofiam, o que teremos serão loucos mais ou menos perigosos.

Estamos imersos no reino das opiniões. Proliferam programas de rádio e televisão, nos quais se trata de ver quem grita mais alto, quem atrai mais atenção com um escândalo mais chamativo ou com um disparate mais sedutor. Não se busca a razão, mas sim que cada um imponha “sua” razão, além da verdade, da lógica ou dos fatos reais.

Como se pode desenvolver, assim, um bom juízo? Onde encontrará equilíbrio aquele que apenas se alimenta dessas fontes de informação?

Por outro lado, diante de um mesmo fato, vemos como são utilizados dois argumentos totalmente opostos, embora ambos aparentem ter o mesmo valor. O espetáculo diário das discrepâncias entre as altas personalidades do mundo é um quebra-cabeça que, longe de conduzir ao juízo saudável, leva à perplexidade, ao desencanto ou, pior ainda, à solução fácil de “tomar partido” por uns ou por outros, conforme nos pareçam mais ou menos simpáticos.

A isso se soma a imensa quantidade de argumentos que existem sobre um mesmo tema. Cada qual tem seus apoios e suas demonstrações, e o espectador é quem acaba sem saber o que fazer diante de tanta variedade de opiniões. Não se educa o critério de seleção, mas se induz a pessoa a escolher algo sem pensar. Em todo caso, os elementos que ajudam na decisão são: o que está na moda? O que diz – ainda que não pense – a maioria? O que parece mais prestigioso ou dá a impressão de estar na vanguarda? Mas, infelizmente, nenhuma dessas opções é adequada para que prevaleça a cordura.

Assim, os pobres seres humanos vivem a loucura do desacordo, das opiniões que mudam de um dia para o outro, das modas avassaladoras e inconsistentes, das ideias sustentadas à força ou somente pelo carisma pessoal. Ninguém está louco, mas tampouco desfruta da cordura, da inteligência, da sabedoria, da aptidão para pensar com serenidade e escolher conscientemente.

É necessária muita fortaleza para penetrar nessa selva e encontrar um caminho em meio a tanta confusão caótica. Mas é preciso fazê-lo inevitavelmente. Esse é o caminho que traçaram, seguiram e assinalaram os verdadeiros e perenes sábios que a Humanidade teve e ainda tem e é esse o caminho que precisamos resgatar, para devolver à cordura, ao pensamento educado, livre e, sobretudo, eficaz, seu lugar de honra.

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