Todos os seres humanos de todas as culturas, em todas as épocas, se depararam com essa problemática, diante desses dois grandes caminhos: se existe uma predestinação ou se, de alguma forma, podemos mudar o curso das coisas com nossa vontade, nossos desejos, nossas lágrimas, nossos perigos, nossos erros.
Todos os povos historicamente conhecidos enfrentaram essa questão, chegando até a dedicar divindades a ela. Por exemplo, dentro do que hoje conhecemos de Roma (que é muito mais do que sabíamos há dez anos, quando ainda se pensava que sua fundação se devia a Rômulo e Remo, ignorando-se as tradições de Virgílio sobre Eneias e seu pequeno grupo), esse povo possuía uma divindade superior a Júpiter, uma divindade sem nome a quem chamavam de “o Desconhecido”.
Os gregos também possuíam uma divindade que estava além de Zeus, senhor do Olimpo; chamavam-na de Zeus-Zen. Ésquilo nos fala dessa divindade que rege o destino. Frequentemente, essas obras dramáticas gregas, reflexos sobretudo dos mistérios eleusinos, mencionam um destino que governa todas as coisas. Recordemos, por exemplo, a tragédia Prometeu Acorrentado, do próprio Ésquilo. Quando Prometeu rouba o fogo, a luz, a inteligência, para os homens, Zeus o condena a permanecer acorrentado nas montanhas do Cáucaso, enquanto uma águia devora seu fígado, que se regenera continuamente, repetindo o ciclo da dor todos os dias. Segundo versões mais esotéricas, Prometeu tem um arado de ferro cravado no lado esquerdo. Quando esse crucificado nas montanhas pergunta: “Por que me fazeis isso?”, uma voz além de Zeus, que chega através de Hermes, deus da sabedoria, responde: “Porque assim quer o Destino, porque assim é o Destino”.

Livre-arbítrio
Todos os povos intuíram que, além de uma divindade personificada, havia uma espécie de destino. Na Cabala hebraica, ele está representado por Ain Soph, o “não-ser”, aquilo que está além da Coroa, que rege todos os seres invisíveis até alcançar este mundo dual onde as coisas se manifestam por impacto, por choque, por cruzamento de força, de energia sobre a matéria.
O antigo panteão hindu também faz referência a uma divindade que escapa de todas as nossas possibilidades intelectuais e racionais.
Igualmente a encontramos nos panteões da América pré-colombiana e da China: uma divindade sem nome, que é o destino inexorável.
Então, existe esse destino total e inexorável? Há alguma forma de conviver com esse destino? Ou ele não existe, e há apenas o livre-arbítrio, por meio do qual forjamos nosso próprio caminho?
É difícil responder a essa pergunta, pois há exemplos de uma coisa e de outra. Alguns são verdadeiramente aterradores. Há poucos meses, na Inglaterra, foi descoberta uma novela de um escritor pouco conhecido, escrita por volta de 1890, chamada Titán. Essa novela fala de um navio muito maior do que os existentes na época, com cerca de 60.000 toneladas, chamado Titán. Em sua viagem inaugural, mais de 2.000 passageiros embarcam nele, saindo da Inglaterra rumo a Nova York. Um dia antes de chegar ao destino, choca-se com um iceberg que o rasga e o faz afundar. Apesar dos sinais enviados, o navio tinha tanta fama de indestrutível que ninguém deu atenção nem acorreu em ajuda nos primeiros momentos. Muitas pessoas se afogaram, sendo essa a maior catástrofe da história naval. Vinte anos depois, a novela tornou-se realidade. Como podemos explicar isso? Teria o autor tido acesso ao que iria acontecer? Como é possível que o que vai ocorrer se apresente simbolicamente a algumas pessoas?
Meu primeiro mestre em esoterismo foi um velho professor alemão chamado Smith; eu tinha 17 anos. Lembro-me de que certa vez ele me contou sobre um amigo londrino, já idoso, que tinha grande paixão pela astrologia.
Segundo a tradição da filosofia esotérica, aos verdadeiros discípulos que estudavam astrologia e faziam um juramento vitalício, era proibido calcular seu próprio ponto de morte. Segundo essa tradição, os mestres, os deuses, nos julgam incapazes de viver normalmente se soubermos o momento exato da nossa morte. Mesmo aqueles desapegados da parte física e que não temem a morte podem ter filhos, discípulos, tarefas ou livros a concluir, e saber quando irão morrer alteraria completamente sua vida, tirando deles as últimas possibilidades diante da morte. Por isso, geralmente, quem conhecia astrologia, embora pudesse calcular seus pontos de morte, pois temos vários, não o fazia.
Para compreender que cada ser humano tem vários pontos de morte, podemos imaginar a vida como um cone no qual entramos de forma circular; o primeiro ponto de morte seria superado com certa facilidade, e depois seguiríamos enfrentando outros, que poderíamos ou não ultrapassar, até chegar ao último, que é inevitável.
Também era proibido calcular o ponto de morte de uma pessoa amada.
Meu professor me contou que esse amigo calculou seu próprio ponto de morte; não apenas a data, mas a forma: soube que morreria afogado. Então, apesar de todo seu conhecimento, teve uma reação algo simplista: mudou-se para o deserto do Saara, certo de que ali não morreria afogado. O que não leu no horóscopo foi com o quê seria afogado. Na data prevista, morreu afogado… por areia, durante um simum.
Heródoto também relata a história de um príncipe que mandou retirar todas as carroças de seu reino e proibiu a entrada de novas, pois um adivinho lhe dissera que morreria por causa de uma carroça. Um dia houve uma revolta no Estado, e um dos príncipes rebelados cravou-o no trono com sua espada; a última coisa que a vítima viu no pomo da lâmina foi uma carroça símbolo da casa real de seu assassino.
Essas histórias recorrentes, narradas por diferentes pessoas, nos levam a questionar: existe uma predeterminação? Um destino inexorável que abarca todas as coisas?
Os hindus falam, em sua filosofia, de um Dharman, a lei que rege o cosmos e todos os seus habitantes; de um Sadhana, o sentido da vida, um caminho predeterminado; e de um Karma, a lei de ação e reação.
Eles imaginam o Dharma como uma estrada larga pela qual é inexorável seguir. Qual seria, então, a liberdade humana? De que forma distinguem-se os bons dos maus, os que se abandonam aos instintos dos que se entregam às sagradas paixões da alma? Esses filósofos afirmavam que a liberdade está em caminhar mais rápido ou mais devagar; que, ao nos desviarmos e tocarmos as margens, sentimos dor — e a dor nos desperta para voltarmos ao centro do caminho.
A dor é sempre veículo de consciência, e só valorizamos verdadeiramente as coisas quando as perdemos.
Todos temos dentro de nós uma pequena voz, a voz da consciência chamada no Himalaia de Voz do Nada, que nos diz o que devemos fazer, se agimos bem ou mal. O problema é que raramente a escutamos, talvez porque nos habituamos a ela e a ouvimos como quem ouve a água cair ou o vento soprar. Mas essa voz é o deus em nós, a alma, o eu, aquilo mais íntimo, que continuará falando mesmo quando não estivermos mais fisicamente na Terra.
Essa voz interior nos indica nosso caminho, que geralmente coincide com o Grande Caminho, com a grande Determinação presente em todas as coisas.
Então, também existe o livre-arbítrio? Infelizmente, no mundo materialista em que vivemos, desenvolvemos uma mente dialética no pior sentido da palavra, ou seja, as coisas são brancas ou pretas, boas ou más. E digo “infelizmente” não por ser contra uma axiologia, contra certo juízo de valor, mas porque nem tudo que não é branco é preto, e vice-versa. É perigoso cair nessa dialética absolutista, nesse dogmatismo no sentido mais tirânico. Essa forma de pensar e interpretar a Natureza nos leva, inevitavelmente, a erros e conflitos não apenas entre seres humanos, mas dentro de nós mesmos porque nos torturamos e vivemos angustiados por ter de escolher, quando essas pseudoescolhas muitas vezes são ilusórias, e somos nós que as imaginamos.
Predestinação ou livre-arbítrio? E por que não, de algum modo, os dois? Por que não podem esses dois elementos coexistir, se lhes retirarmos o caráter de absolutos?
Neste mundo manifestado, não existem valores absolutos; tudo depende daquilo com que se relaciona.
Portanto, todas as coisas têm um destino. Cada objeto, neste momento evolutivo, neste instante de consciência, tem sua necessidade, seu destino. E talvez esse destino não seja mais do que o ponto de partida para outros caminhos que hoje nem sequer podemos sonhar.
Todas as coisas caminham para seu destino. E, nesse caminhar, descobrimos que existe uma metafísica do Destino, algo além da parte física que nos chama, que nos conduz como um pai conduz seu filho.
Existe uma fatalidade, mas sem dor, sem angústia; uma fatalidade alegre, vital, que nos leva a lugares que não compreendemos, mas aos quais, mesmo com nossos medos, deveríamos nos aproximar. Esse destino inexorável nos empurra na marcha de uma metahistória que não conseguimos compreender, mas que sentimos intimamente.
No entanto, tudo isso pode coexistir perfeitamente com nosso livre-arbítrio, que também não precisa ser absoluto, mas sim relativo. Dentro da grande marcha metahistórica, podemos construir nossa própria história e somos responsáveis pelo que fazemos. Pois, embora todas as coisas se repitam, todas avancem e retornem, por outro ponto de vista, jamais se repetem. O que ocorre neste momento é único e irrepetível. Não acontecerá de novo, e de certo modo, jamais existiu. Por isso, cada instante é válido e sagrado dentro do que fazemos, pois nunca se repetirá assim. Daí nossa responsabilidade de não nos abandonarmos. Aqueles que, confiando em um destino inexorável, deixam que a vida os leve, podem tornar-se uma espécie de involução. O ser humano tem a possibilidade de andar ao seu ritmo, à sua maneira, e de ir se moldando, se limpando, se polindo no caminho.
Há os que marcham se arrastando e os que marcham com os próprios pés. Há os que marcham apoiando-se nos outros, e os que, ao marchar, sustentam os demais. Existem pessoas que, para avançar, não se importam de caminhar sobre as costas dos amigos, e outras que, para que seus amigos avancem, não se importam que caminhem sobre elas. Não somos todos iguais, esse é um dos mitos do século XX. Os seres humanos somos diferentes em nossos rostos, em nossos gostos, em nosso modo de ser. Mas isso não quer dizer que sejamos opostos, nem inimigos. Com nossas diferenças, podemos unir elementos que façam avançar nossa própria evolução.
O verdadeiro filósofo, aquele que realmente busca a verdade, deve acostumar-se a caminhar de mãos dadas com o Mistério, a não entender tudo, e a aceitar que não pode entender. Pois é muita vaidade querer entender tudo, saber tudo, e reduzir tudo a números e palavras. Esse foi o erro do século XIX, quando diziam: “E agora, o que falta inventar?”. Achavam que, porque já haviam inventado a máquina a vapor, os primeiros trens, os primeiros protótipos de automóveis que andavam a 20 km/h, tudo estava inventado. Mas havia muito mais e ainda há muito mais a inventar. E também coisas que esqueceremos. E outras que desejaremos fazer e outras que não quereremos.
Portanto, devemos aprender a caminhar de mãos dadas com uma criança — símbolo do enigma. Assim se representava muitas vezes nos mistérios iniciáticos essa parte de Deus que está em nós, e talvez também fora de nós, que sorri e às vezes carrega uma tocha para que vejamos melhor onde colocamos os pés. Essa criança que nos acompanha é o tesouro que ignoramos, é um ensinamento para que guardemos um pouco de humildade, para que tenhamos em nossos corações uma grande fé em nós mesmos, na Humanidade e em Deus. E não me refiro ao deus dos cristãos, nem ao dos judeus, nem ao dos muçulmanos, mas àquilo que está além de todas as coisas, àquilo que sentimos profundamente, que nos acompanha, que nos ama.
Um homem com Deus nunca está só.
Quando um homem percebe Deus, nunca está só e pode realizar tudo aquilo que, dentro de seu destino, realmente deseja fazer. Um homem com Deus sempre é maioria.
Jorge Ángel Livraga Rizzi, fundador de Nova Acrópole.
