Estar ao Sol

Autora: Delia Steinberg Guzmán (1943 – 2023), presidente honorária de Nova Acrópole.

“Apolo e as Musas” – Baldassare Peruzzi (século XVI)

Os seres humanos, tão propensos a seguir as modas impostas pelas conveniências e pelos convencionalismos, deveríamos aprender a seguir uma moda que nos beneficiaria em termos de realismo e naturalidade. Refiro-me a estarmos “na moda” conforme as estações do ano, segundo o ritmo marcado, precisamente, pela Natureza.

Com isso, não pretendemos descobrir nada novo; as civilizações antigas rendiam culto a esses ciclos anuais não apenas por simplicidade mental, mas por conhecimento das leis fundamentais dos ritmos vitais.

O fato é que, inconscientemente, sem intenção, a maioria das pessoas presta culto ao sol, e se não for um culto religioso à moda antiga, é um culto profano e moderno, em que, sem se deter muito nas características metafísicas do brilhante astro, basta apreciar suas evidentes manifestações materiais. Há uma necessidade de sair dos confinamentos, de desfrutar do ar livre, de “estar ao sol”. Praias, rios, córregos e piscinas adquirem um fascínio especial, em que se somam as forças próprias das águas e a muito particular do sol.

Estar ao sol é estar à luz, é despir-se não apenas das roupas, mas especialmente de elementos psicológicos antigos e desgastados. O verão que se inicia marca em si o desejo explícito de começar coisas novas, de traçar planos para o futuro próximo e mais distante, de abandonar tristezas e dores para dar lugar a novos sentimentos positivos.

O sol melhora o aspecto de todas as coisas, emprestando-lhes parte de seu brilho extraordinário. Por isso, tudo nos parece belo e somos capazes de parar para observar aquilo que, embora víssemos todos os dias, jamais havíamos notado com tanta clareza. A rua do nosso cotidiano é outra, assim como são outros os rostos das pessoas com quem compartilhamos horas e horas de trabalho e convivência. As árvores são efetivamente outras, ainda que suas raízes permaneçam as mesmas, e o ambiente se enche de novos sons, inclusive o daqueles pássaros que, despercebidos nas grandes cidades, tentam com seus cantos nos indicar que algo mudou na Natureza.

O verão favorece as amizades e as confidências, e estimula algo que bem poderíamos chamar de maturidade, assim como nos frutos da terra. Há nos seres humanos uma serenidade que não vem apenas das férias, mas do ritmo completo do nosso entorno. Há mais capacidade de doar, de ajudar quem precisa, de alegrar-se com quem se alegra e de sofrer com quem sofre.

Cabe, pois, ao filósofo propor e assumir essa nova moda que muda sem mudar e favorece sem alterar os ciclos da vida. Cabe ao filósofo estar na moda do verão. Isso implica despir-se das peles velhas, livrar-se dos elementos de experiências desgastadas e focar em novas possibilidades de ação e realização interior. Supõe ajustar-se a uma disposição de ânimo construtiva e serena, madura como os frutos da Natureza. Estar com o verão é reconhecer as vantagens da luz, praticar a clarificação interior, o autoconhecimento e o conhecimento dos outros, honrar a verdade e a sinceridade e viver como se nosso “eu” fosse transparente aos raios do sol.

Assumir essa moda é, para o filósofo, obrigar-se a refletir, escolher suas melhores virtudes e planejar com cuidado a semeadura do próximo inverno, para que nenhum broto cresça ao acaso nos sulcos humanos. É estender as mãos e o coração aos demais, fomentar vínculos duradouros. É elevar os olhos e reconhecer o grande milagre vivido pela Natureza, e que, por consequência, cada um de nós também pode viver, na medida em que dele participarmos.

Verão é vida.

E o filósofo, que ama a Sabedoria e a busca em cada canto da experiência, também ama a Vida, a reconhece, a serve e caminha junto com ela rumo a novos e seguros horizontes.

Publicado en la revista Nueva Acrópolis número 118, en julio de 1984.

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