A Filosofia dá cor à vida: Delia Steinberg Guzmán

Hoje, quando os conceitos parecem tão vazios, criou-se um grande vazio também no conceito de Filosofia.
Transformou-se a Filosofia em um trabalho meramente racional, uma elaboração complexa de ideias cuja finalidade é descobrir o porquê — ou a falta de razão — das coisas, as relações que unem seres e objetos, e tudo isso dentro do mais estrito plano da mente.

Os sentimentos parecem não ter espaço na Filosofia; não há sensibilidade possível nessa intrincada rede de causas e efeitos ou de fatos casuais — conforme diferentes pensadores nos apresentam a lógica ou a ilógica do mundo em que vivemos.

A cor da vida

E assim caímos no erro de considerar a Filosofia fria, com pouco valor para os seres humanos que anseiam pela plenitude da sua própria essência: pensar, sentir, viver — em uma só palavra.

Nesse estado de coisas, surge uma nova dicotomia: uma coisa é viver, outra é filosofar.
Não é raro ouvir, de jovens ou nem tão jovens, frases como:
“Deixe-me viver em paz, sem complicações nem ideias estranhas que nada me servem para resolver meus problemas reais.”

A Filosofia assume, então, o papel de um ancião severo, deslocado da realidade, sombrio e incapaz de se emocionar com qualquer coisa; só sabe de explicações rígidas e razões complicadas que acabam tirando o sentido de tudo o que se vive cotidianamente.

Mas chegou o momento de unir forças para resgatar a Filosofia da sua prisão de enganos, falsas ilusões, mentiras e deformações.
Quando a Filosofia ocupava boa parte do trabalho dos grandes pensadores das antigas civilizações, nada tinha a ver com a imagem que hoje lhe pintamos.

Tradicionalmente, a Filosofia era a autêntica Sabedoria: o conhecimento profundo e integral de tudo o que constitui a própria vida, em todas as suas expressões.
Mais ainda: foi considerada uma forma de vida, na qual deviam unir-se harmonicamente as necessidades materiais, as expressões da psique e do pensamento, os ideais elevados, as aspirações místicas e as projeções históricas para o futuro.

É o nosso desejo — isto é, o nosso sentimento mais intenso — devolver à Filosofia esse caráter de ciência do ser humano, que dava um “porquê” a todas as coisas, na qual todas as expressões tinham explicação, e mais ainda, evolução.

A Natureza inteira é o campo da Filosofia; o é também o Cosmos infinito com todos os seus mistérios, e o é o próprio homem com suas ideias e sentimentos, com sua complexa máquina corporal e com seus sonhos mais sutis.

Um conhecimento sem emoção é apenas um quadro em preto e branco, como os que só existem na realidade fingida das antigas fotografias e desenhos feitos pela mão humana.
A Natureza é rica em cores.
E a Filosofia dá a cor do sentimento às leis matemáticas que nos regem.

Delia Steinberg Guzmán (1943 – 2023), presidente honorária de Nova Acrópole

Rolar para cima