A aceleração dos tempos

Delia Steinberg Guzmán (1943 – 2023), presidente honorária de Nova Acrópole

Ainda que comumente aceitemos que os homens vivam enquadrados pelas coordenadas do Tempo e do Espaço, o certo é que essas dimensões que nos regem nos resultam quase por completo desconhecidas. Das duas, é talvez o Espaço quem nos oferece menos complicações. Nosso espaço vital nos é simples de delimitar, e a ampliação das viagens e comunicações em nosso mundo reduziu consideravelmente as fronteiras do que antes era o infinito.

Mas o tempo continua sendo o perfeito desconhecido. É mais sutil que o espaço, escapa-nos com muito mais facilidade e nos oculta segredos muito mais profundos. O tempo só podemos vivê-lo, ou melhor dizendo, viver nele, mas não podemos compreendê-lo.

Precisamente nestes momentos da História, o Tempo nos oferece uma de suas múltiplas variações sob a forma de um fenômeno possível de apreciar, ainda que complexo de entender. Refiro-me ao que os especialistas têm chamado de “a aceleração dos tempos”.

É próprio da vaidade humana querer medir o tempo, e fazê-lo com base em unidades fixas e inamovíveis. Nossos relógios são infatigáveis, marcando horas todas iguais entre si, com seus sessenta minutos. Nossos calendários assinalam dias iguais a outros dias, que somam meses que se transformam em anos… Mas a realidade é bem diferente. Na realidade não há dois dias iguais, nem duas horas, nem sequer dois minutos com a mesma duração. Aqui encontra lugar o mencionado fenômeno do tempo que se acelera, que apressa sua marcha, necessitando de menos para fazer o mesmo ou até mais do que antes.

Os historiadores nos asseguram, já desde épocas distantes, que em momentos de crise o tempo se acelera. Cabe-nos hoje falar do caráter da crise que nos aflige; isso já fizemos em outras oportunidades. O certo é que, para o bem ou para o mal, estamos em uma crise, no mais amplo sentido da palavra: estamos diante de uma mudança. Os valores que nos regiam até agora caem no esquecimento e tornam-se necessárias novas fórmulas para cobrir esse vazio. Umas coisas morrem e outras nascem… E, nesse vértice da mudança, o tempo se acelera, talvez para não prolongar exageradamente a instabilidade própria de toda mudança. Ninguém pode permanecer demasiado tempo no intervalo entre um passo e outro, pois o equilíbrio vacila.

Por ora, a aceleração dos tempos manifesta-se para nós como uma constante destruição dos valores existentes, como uma variabilidade imperiosa que se percebe em todos os aspectos da vida, uma insubstancialidade, uma incapacidade de fixação.

Talvez este seja o primeiro passo necessário para uma renovação profunda na Humanidade. Mas, atenção: diante da velocidade da destruição, é necessário opor a mesma rapidez na elaboração dos novos elementos que deverão nos guiar.

A aceleração dos tempos não vale apenas para o que se vai, mas também e fundamentalmente para o que vem. Ali, no que vem, no mundo futuro que é preciso construir com urgência, é onde a Acrópole quer se ajustar ao ritmo do Tempo que corre. E ali, nessa voragem que poderia arrastar tudo se não nos detivermos para salvar o que é justo, é onde queremos nos encontrar com nossos companheiros de sonhos e ideais.

Hoje, mais que nunca, torna-se realidade aquele ensinamento que nos transmitiu o Prof. Jorge Ángel Livraga: “Em um mundo que avança, o que não caminha, retrocede.”

Não podemos nos deter. O Tempo corre e nós com ele. Mas formemos fileiras do lado dos minutos que salvam, reforçam e criam o Mundo Novo e Melhor que todos anelamos.

Publicado na revista Nova Acrópole, número 72, em março de 1980.

Rolar para cima