Aline Nascimento Freitas1
O Dia das Crianças tornou-se, para muitos, sinônimo de presentes e eventos voltados para celebração da infância. Mas, além das cores das vitrines e das campanhas comerciais, essa data guarda um sentido mais profundo e pode ser um verdadeiro convite à reflexão sobre o que significa, afinal, ser e educar uma criança num mundo que parece perder, a cada dia, o contato com a simplicidade e a imaginação.
A celebração do dia 12 de outubro surgiu oficialmente no Brasil em 1924, por meio de um decreto que buscava valorizar a infância e reforçar a importância da educação. Décadas depois, com o fortalecimento do comércio e da indústria de brinquedos, a data ganhou seu caráter mais festivo e mercadológico.
Não há nada de errado em celebrar – com alegria – a infância, que por sua natureza, já nos remete a festas e diversão, mas talvez esse seja também um bom momento para relembrar o propósito original dessa data, que é reconhecer nas crianças o início da jornada humana, nossa semente de futuro, e cuidar para que desenvolvam nelas não apenas seu aspecto físico e biológico, mas também a sua alma e o seu caráter.
A infância é o tempo da curiosidade e da admiração. A criança vive o momento presente com intensidade: pergunta, observa, experimenta. Tudo é novo, tudo é uma possibilidade. Esse modo de ver o mundo — tão espontâneo e íntegro — é algo que, muitas vezes, os adultos perdem na correria e na preocupação do dia a dia.
Educar uma criança, então, é mais do que oferecer respostas: é preservar o espaço da pergunta. É ajudá-la a crescer sem apagar essa chama de curiosidade que é, na verdade, a primeira forma de filosofia. Quando uma criança pergunta “por quê?”, está dando seus primeiros passos no caminho do saber.
Os antigos filósofos ensinavam que a verdadeira educação era uma forma de despertar de dentro de cada ser humano o que ele tem de melhor e, portanto, não se reduz apenas a informar a mente, mas a formar almas fortes e bondosas, que apreciam o belo e buscam a verdade e a justiça.
Educar é ajudar a construir o caráter, é algo que se faz mais com exemplos do que com palavras. Uma criança aprende o valor da honestidade, quando vê seus pais sendo verdadeiros. Aprende o respeito, quando percebe que o outro é tratado com atenção. Aprende generosidade, quando testemunha gestos de cuidado e afeto desinteressados.
Não há manual infalível para educar, mas há princípios universais que deveriam ser levados em consideração: coerência, paciência, e especialmente, presença. Elas são virtudes que crescem no cotidiano, nas pequenas atitudes, nos instantes em que o adulto escolhe estar inteiro com a criança — não apenas fisicamente, mas com o coração desperto.
Em vez de apenas dar presentes, este pode ser um dia para oferecer presença atenta, tempo de qualidade e escuta sensível. Eis algumas ideias simples, mas profundas que podem ajudar:
- Brinque junto. As crianças não se lembram tanto dos brinquedos que teve, mas de quem brincou com elas. A alegria compartilhada é um dos presentes mais duradouros que podemos oferecer.
- Conte histórias. Os mitos, contos e fábulas guardam lições eternas. Por meio deles, a criança entra em contato com o bem, o belo e o justo — de forma lúdica e natural.
- Mostre a beleza do mundo. Um pôr do sol, o canto de um pássaro, a paciência do plantio e semeadura de uma semente. São experiências simples que educam o olhar e despertam a sensibilidade.
- Pratique a gratidão. Convide a criança a reconhecer o que há de bom na vida: a família, os amigos, a natureza. A gratidão é uma forma de sabedoria.
- Redescubra sua própria infância. Ao reencontrar a criança que existe dentro de si – aquela parte que ainda acredita, sonha e se encanta – o adulto apresenta-se de forma mais entregue para as outras crianças, gerando pontos de conexão e empatia com elas.
Por fim, vale lembrar que essa criança que há em cada um de nós – e que nunca deixou de existir – é o símbolo da alma simples e curiosa, que deseja aprender, amar e descobrir o mundo. O filósofo, no fundo, é alguém que consegue manter viva essa pureza de olhar. Ele é aquele que, mesmo adulto, não se acostuma com a vida, mas que continua sempre se fazendo perguntando e buscando respostas.
Estar em contato e/ou cuidar de uma criança, portanto, é um ato de amor e de filosofia. É ajudar um novo ser humano a crescer com sentido, e é também recordar, em nós mesmos, o poder da inocência aliada à sabedoria — o equilíbrio entre o coração puro e a mente desperta.
Neste Dia das Crianças, celebremos a alegria, sim. Mas celebremos também a possibilidade de recomeçar: de aprender de novo a olhar, a perguntar e a admirar a vida ao seu redor, aprendendo com tudo, com todos e a todo instante.
- Aline Freitas, psicopedagoga, escritora e professora voluntária da Nova Acrópole há 12 anos. ↩︎
