Desafiando a gravidade: Wicked e o direito de ser mais que entretenimento.

Voltando de São Paulo após assistir ao musical “Wicked” e, para atender às perguntas que, creio, alguns me farão, informo que, de fato, gostei bastante e recomendo.

Para as perguntas tradicionais sobre qualidade de cenário, elenco, figurino, detalhes em geral, devo dar uma resposta-padrão: sim, tudo de muito bom nível. Os amantes de ópera não devem ir com a expectativa de ouvir “árias de Puccini” ou coisa que o valha, pois o universo do musical, como sabemos, é definitivamente outro. Mas as canções são divertidas, com destaque para a já bem conhecida “Defying gravity”, a performance vocal dos artistas é muito boa e, como personagem, a hilariante Glinda cria momentos divertidíssimos, que exigem muito da atriz, e a intérprete brasileira responde à altura.

Mas “Wicked” reivindica o direito de ser um pouquinho mais que entretenimento banal; ele deixa um “gostinho na boca” especial, graças a algumas referências espalhadas ao longo da simples trama. De início, a rigidez maniqueísta de telenovelas, com “bonzinhos e “mauzinhos”, é logo quebrada: todo mundo é um pouco “de um e do outro”, a começar pela dupla central: a fada boa não é lá tão boa, e a bruxa má… se esforça para fazer uma única maldadezinha.

O que, em geral, é mau mesmo, é um “fantasma” que se espalha por todos os personagens: o gosto pela popularidade (“…Vale mais que a inteligência!”, diria Glinda), pelo reconhecimento, pela atenção do outro, por ser “amado a qualquer preço”. Esse terrível fantasma assombra a todos os personagens, dominando em diferentes graus a cada um.

“Elphaba” é o nome da bruxa, estranho nome criado a partir da pronuncia  em inglês das iniciais do autor do primeiro livro da série,  “O Maravilhoso Mágico de Oz”, L. Frank Baum (LFB), teosofista ativo, que amava incorporar símbolos em suas obras. Ela tem pele verde, pois é filha de dois mundos: o mundo exterior, de onde vem o Mágico de Oz, seu pai, e a terra fantástica de Oz, onde vive sua mãe, esposa do governador das terras de Munchkin.

O verde sempre foi símbolo da ponte entre o céu (azul) e o amarelo (terra). Ilegítima e estranha para os habitantes de Oz, um “patinho feio” de pele verde, sempre triste por sua rejeição, ela acaba por descobrir seus “poderes mágicos”.

Porém, no momento em que estes poderes estão à beira de lhe conceder a fama e a popularidade com que ela sempre sonhou, desperta dentro dela o maior dos poderes: a integridade, a justiça, a lealdade a valores, que não se trocam por nada. Em nome deles, ela paga o preço de se tornar “a bruxa má do Oeste”, solitária e injustamente odiada por todos. O oeste é sempre o antípoda, o “patala” hindu, a terra do sol poente, da morte. E ela sofre uma morte simbólica, “derretida pela água” jogada por Dorothy (Dorotheos, a menina que vem do mundo exterior para Oz e a “liberta” de sua missão, como Hercules, que liberta Prometheos).

O curioso é que, ao final, no encontro com Glinda, não há culpa nem cobranças: “Eu ouvi dizer que as pessoas entram em nossas vidas por uma razão: trazer algo que devemos aprender” (trecho da canção “For Good”, em tradução livre).

Ou seja, cada uma do seu jeito, com suas peculiaridades e necessidades tão diferentes, foi fator de soma para o crescimento da outra, para sua maturidade e capacidade de resposta à vida; isso é o que se costuma chamar de espírito clássico da amizade. Enfim: se puder, vá ver. No mínimo, tirará daí uns bons momentos de entretenimento.

  1. Lúcia Helena Galvão é filósofa, escritora, palestrante e voluntária há 37 anos da Organização Internacional Nova Acrópole do Brasil. ↩︎

Rolar para cima