Cultivando a paz positiva por meio da reconciliação interior: uma perspectiva filosófica

Eva Patricia Rodriguez Bellegarrigue

Introdução

A teoria da paz positiva de Johan Galtung (1996) transformou profundamente a forma como estudiosos e praticantes compreendem as condições necessárias para uma paz duradoura. Indo além do foco tradicional na paz negativa — que ele definiu como a ausência de violência direta — Galtung introduziu a paz positiva como a presença de estruturas e relações que promovem justiça, equidade e a realização do potencial humano. Em sua visão, a violência pode ser não apenas física, mas também estrutural e cultural, perpetuada por sistemas que negam às pessoas suas necessidades básicas, seus direitos ou sua dignidade.

Esse enfoque estrutural trouxe uma atenção vital às causas profundas dos conflitos e das desigualdades. No entanto, deixou em grande parte inexplorado um terreno crucial: o mundo interior dos seres humanos — seus pensamentos, emoções, senso moral e sensação de coerência. Hoje, diante de uma crescente consciência sobre as dimensões psicológicas da violência e o impacto do trauma em indivíduos e comunidades, torna-se cada vez mais evidente que a paz também precisa ser cultivada no interior. Ao expandirmos o legado de Galtung, devemos nos perguntar: como se manifesta a justiça não apenas na sociedade, mas também na alma?[1]

Essa pergunta nos leva de volta a Platão, um dos primeiros e mais influentes pensadores a relacionar justiça e paz com a estrutura da vida interior. Em A República, Platão oferece uma profunda analogia entre a cidade justa e a alma justa. Ele propõe que a alma humana, assim como a sociedade, é composta por três partes distintas: a Razão (logos), que busca a verdade e orienta a tomada de decisões; o Impulso Emocional (thymos), que anima a coragem, a dignidade e o senso de valor próprio; e o Apetite (epithymia), que impulsiona os desejos e as necessidades corporais.

Uma alma é justa, argumenta Platão, quando essas três partes estão em relação adequada: a razão governa com sabedoria, as emoções apoiam a razão com convicção moral, e o apetite segue em equilíbrio. A injustiça, por outro lado, surge quando essa ordem interna é perturbada — quando o desejo sobrepuja a razão ou quando a psique se inflama com raiva, ressentimento ou humilhação. A justiça não é simplesmente uma disposição externa de leis e instituições; é, fundamentalmente, uma forma de harmonia interior.

Essa percepção antiga possui uma relevância significativa para a construção da paz nos dias de hoje. Em contextos marcados pela violência — seja ela interpessoal, estrutural ou histórica — o mundo interno do indivíduo frequentemente apresenta sinais de fragmentação, desorientação moral e dor não resolvida. Experiências de trauma, vergonha, abandono ou culpa podem desestruturar a arquitetura interior do eu, produzindo ciclos de conflito interno e externo. Se, como ensina Platão, a paz e a justiça dependem da harmonia interior, então a construção da paz moderna deve levar a sério o trabalho de restaurar a coerência dentro da pessoa — especialmente naqueles que foram afetados ou envolvidos pela violência.

A visão de Platão nos convida a repensar a noção de agência[2] não como uma virtude inata, mas como uma capacidade cultivada por meio da educação, do diálogo e da prática — uma visão que se alinha estreitamente com abordagens contemporâneas de cura psicológica e transformação narrativa. Sob essa perspectiva, a reconciliação interior pode ser compreendida como o processo pelo qual os indivíduos restauram a coerência, o equilíbrio e a clareza moral após experiências de trauma ou feridas morais. Assim como os diálogos socráticos de Platão buscam despertar a razão e reordenar a alma, as práticas informadas pelo trauma e pelas narrativas apoiam a integração dos aspectos fragmentados da identidade, possibilitando a agência ética e a regulação emocional. Dessa forma, a reconciliação interior torna-se uma condição fundamental para a paz sustentável, permitindo que os indivíduos se relacionem de maneira mais construtiva consigo mesmos e com os outros.

Em resumo, Platão oferece mais do que uma metáfora — ele fornece um arcabouço para compreender como a justiça interior é fundamental para a paz duradoura. Sem essa dimensão interior, os esforços para construir estruturas externas de paz positiva podem permanecer vulneráveis aos conflitos não resolvidos e às feridas que os indivíduos carregam dentro de si. Nas seções seguintes, este artigo examinará como o trauma perturba a harmonia interior e como práticas narrativas — particularmente na vida de indivíduos encarcerados — podem ajudar a restabelecê-la, lançando as bases para formas mais profundas de paz.

Trauma, Fragmentação e a Ruptura da Justiça Interior

A visão de Platão da justiça como harmonia entre as faculdades da alma oferece uma poderosa lente para compreender como a violência afeta não apenas as sociedades, mas também os indivíduos. Quando expostas a experiências traumáticas — sejam como vítimas, perpetradores ou testemunhas — as pessoas frequentemente sofrem uma espécie de colapso interno: suas emoções tornam-se incontroláveis, seu senso de identidade se fragmenta, e sua capacidade de agir com clareza e propósito é comprometida. Aquilo que Platão descreveu como desordem da alma assume, na modernidade, a forma do que os especialistas em trauma chamam de desregulação, dissociação ou ruptura narrativa.

Sob essa perspectiva, a frase amplamente citada “pessoas feridas ferem pessoas” expressa uma verdade dura, porém essencial: aqueles que foram feridos — especialmente sem reconhecimento, cura ou apoio — podem se tornar agentes de dano para os outros. Esse ciclo de sofrimento e violência não é apenas comportamental ou social; é profundamente intrapessoal, enraizado em um desequilíbrio interno que obstrui a empatia, a confiança e a autorregulação. O trauma não deixa marcas apenas no corpo ou na mente — ele distorce a bússola moral, rompe o senso de uma narrativa pessoal contínua e inibe a capacidade de responder aos outros com dignidade.

Pesquisas contemporâneas confirmam que o trauma afeta os indivíduos em múltiplos níveis: neurológico, emocional, relacional e moral. Judith Herman (1992), em Trauma e Recuperação, descreve como eventos traumáticos podem “despedaçar os esquemas internos” que dão coerência à experiência e à identidade. Os sobreviventes frequentemente se sentem presos no tempo, incapazes de integrar o passado em uma narrativa significativa. Seu senso de agência é diminuído, e sua autoimagem moral pode ser distorcida por culpa, vergonha ou impotência. Essa condição — muitas vezes silenciosa, invisível e duradoura — pode ser compreendida como uma forma de violência interior, em que a pessoa se torna estranha a si mesma.

Sob essa perspectiva, a construção da paz não pode permanecer apenas no plano estrutural ou social. Quando o “eu” está desorientado, e quando a fragmentação emocional ou moral predomina, a capacidade de agir de forma não violenta, de reconhecer o outro ou de tomar decisões éticas é comprometida. A paz sustentável, portanto, exige não apenas sistemas de justiça, mas também indivíduos capazes de habitar a justiça internamente. Sob essa luz, a cura do trauma torna-se um ato político: ela restaura as condições internas necessárias para a agência, a dignidade e a responsabilidade ética.

Uma abordagem promissora nesse campo é a terapia narrativa, que vê a identidade não como um traço fixo, mas como uma história em andamento. Desenvolvida por Michael White e David Epston (1990), a terapia narrativa parte do princípio de que os indivíduos dão sentido às suas vidas por meio das histórias que contam sobre si mesmos e suas experiências. Quando essas histórias estão saturadas de violência, fracasso ou estigma, podem se tornar “narrativas saturadas de problemas” que limitam a ação e reforçam ciclos de sofrimento. O objetivo terapêutico é externalizar o problema, desafiar as narrativas dominantes e criar histórias que reflitam agência, resiliência e valores alternativos.

Esse processo pode ser visto como ressonante com aspectos do projeto platônico: ele convida os indivíduos à reflexão, a examinar como as forças emocionais e instintivas moldaram suas ações, e a começar a restaurar um senso de ordem interna. Na terapia narrativa, os clientes não são simplesmente tratados — eles são envolvidos em um processo de diálogo, no qual exploram e potencialmente reformulam os marcos emocionais e morais de suas vidas. Embora distintos em propósito e método, esse processo reflexivo compartilha certa afinidade com o uso da dialética por Platão, que buscava trazer à tona pressupostos e promover maior alinhamento entre a vida interior e as ações.

Pesquisas com populações afetadas pelo encarceramento, pela guerra ou pela exclusão social mostraram que intervenções baseadas em narrativas podem levar a uma maior regulação emocional, a um renovado senso de propósito e até mesmo à desistência da violência. Estudos demonstraram que indivíduos que conseguiram se reintegrar com sucesso frequentemente construíram “narrativas redentoras” — histórias em que erros do passado se tornaram fontes de aprendizado em vez de vergonha, permitindo que suas identidades evoluíssem em direção à responsabilidade (MARUNA, 2001). Essa constatação está alinhada com os resultados de um ensaio clínico randomizado que demonstrou a eficácia da terapia narrativa na promoção da resiliência entre crianças órfãs e abandonadas em contextos pós-conflito (KARIBWENDE et al., 2022).

Outros autores também enfatizam o poder transformador das narrativas pessoais no contexto do encarceramento político, ilustrando como o ato de contar histórias pode facilitar a reconciliação e a reconstrução da identidade entre indivíduos oriundos de contextos marcados por conflito (HUNT; WILLIS, 2022). Eles argumentam que práticas narrativas inclusivas permitem que os indivíduos processem traumas passados e vislumbrem futuros mais construtivos. Reforçando essa perspectiva, uma meta-análise de terapias baseadas em narrativas destacou sua eficácia na redução de sintomas de TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático) e depressão entre jovens sobreviventes de violência em massa, ressaltando sua ampla aplicabilidade em contextos pós-conflito (MORINA et al., 2017). A terapia narrativa, assim, emerge não apenas como um caminho para a cura individual, mas também como uma ponte para a reconstrução da identidade e da conexão social em comunidades marcadas por conflitos ou exclusão social.

Essas descobertas sustentam a afirmação de que restaurar a coerência interior é uma camada fundamental da construção da paz. Trata-se de uma forma de justiça realizada no interior do ser — uma reordenação moral que prepara o indivíduo para se relacionar com o mundo não a partir do medo, da confusão ou do desespero, mas a partir da integridade. Se a alma, segundo Platão, é um microcosmo da cidade, então a reordenação da alma por meio de práticas narrativas informadas pelo trauma é um passo necessário para a criação de cidades — e sociedades — pacíficas.

Na próxima seção, apresentarei os resultados da minha própria pesquisa qualitativa com homens encarcerados que participaram de uma prática narrativa informada pelo trauma. Suas histórias oferecem exemplos vivos de como indivíduos afetados pela violência podem começar a restabelecer a harmonia interior, recuperar sua agência e imaginar novos papéis para si mesmos como contribuidores para a paz.

Reescrevendo histórias violentas: um caso de reconciliação narrativa entre homens encarcerados

No contexto do encarceramento, onde os efeitos da violência estrutural e do trauma individual frequentemente convergem, a questão da paz interior torna-se não apenas filosófica, mas profundamente prática. As pessoas privadas de liberdade são, com frequência, aquelas que vivenciaram injustiças sistêmicas, exposição à violência ou experiências adversas na infância — todas elas deixando cicatrizes psicológicas e morais profundas. Dentro desses sistemas fechados, muitos lutam com sentimento de culpa, vergonha, raiva ou entorpecimento emocional — condições que Platão poderia descrever como uma ruptura da harmonia da alma. Restaurar a justiça interior nesses contextos não é uma simples questão de reforma pessoal; exige um processo deliberado de reordenamento do eu a partir do interior.

Minha própria pesquisa qualitativa, conduzida como parte de uma dissertação de mestrado em Estudos de Paz e Conflitos, explorou como práticas narrativas baseadas em cuidados informados pelo trauma poderiam ajudar homens encarcerados a iniciar esse processo. Com base no arcabouço da terapia narrativa, o estudo convidou os participantes a refletirem sobre suas histórias de vida, identificarem as narrativas dominantes que moldaram suas identidades e explorarem a possibilidade de reescrever essas histórias com mais agência, significado e coerência.

O estudo, de pequena escala, foi conduzido em colaboração com uma organização sem fins lucrativos que atua dentro de uma grande prisão em Chicago.[3]Os participantes participaram de sessões estruturadas nas quais contaram e escreveram sobre suas experiências de vida, muitas vezes pela primeira vez. Ao revisitarem suas histórias pessoais — marcadas por pobreza, abandono, violência e sobrevivência —, foram incentivados a localizar narrativas alternativas: momentos de resiliência, cuidado ou potencial não realizado. Esse ato de narrar não foi simplesmente uma forma de expressão; tornou-se um diálogo moral e existencial — uma maneira de dar sentido ao sofrimento e reformular sua relação com o passado e com os outros.

Os achados, embora preliminares e limitados pelo pequeno número de participantes, ofereceram percepções significativas sobre como alguns indivíduos começaram a refletir sobre e reinterpretar suas histórias de vida. Vários homens descreveram uma mudança na forma como se viam — não apenas como infratores ou vítimas, mas como autores de uma história em continuidade, capazes de reflexão e transformação. Um participante falou sobre ter descoberto uma “voz diferente” dentro de si, uma que agora podia falar com responsabilidade, em vez de ressentimento. Outros identificaram como haviam internalizado julgamentos sociais ou traumas familiares, e começaram a separar essas narrativas de seus próprios valores emergentes.

Esses insights refletem a ideia de Platão de que a justiça na alma advém do autoexame e da ordenação interior, com a razão guiando a energia emocional e o desejo. Em termos narrativos, trata-se da transição de um eu fragmentado e reativo para um eu mais coerente e integrado — o que o psicólogo Dan McAdams (1993) chama de “narrativa redentora”, cada vez mais reconhecida nos campos da psicologia e da identidade narrativa como uma estrutura poderosa para compreender a reinvenção pessoal e a orientação moral. Esse estilo narrativo é particularmente relevante para indivíduos que enfrentaram grandes desafios na vida, como ex-presidiários, pois lhes permite transformar comportamentos passados em uma base para uma identidade pró-social. Maruna (2001) descobriu que a reintegração bem-sucedida entre ex-detentos estava intimamente ligada ao desenvolvimento de narrativas redentoras do eu, que lhes permitem reformular suas experiências de vida como etapas de crescimento pessoal e contribuições positivas para a sociedade (PATON & KOTZEE, 2019). Além disso, a expressão por meio da narrativa pode facilitar a reconstrução da identidade e do valor moral após transgressões anteriores, remodelando tanto a autopercepção quanto a percepção dos outros (WYNN, 2005). Ademais, programas de escrita expressiva em prisões demonstraram promover regulação emocional e empatia, além de possivelmente reduzir incidentes disciplinares, enfatizando assim o poder terapêutico da narrativa (ALTAMIRANO, 2022).

Essas descobertas ilustram que a autoria narrativa serve não apenas como um mecanismo de reconciliação interior, mas também respeita a complexidade das histórias individuais e as nuances da agência. A narrativa desempenha um papel crucial no autoconhecimento e na construção de sentido, sugerindo que contar histórias permite aos indivíduos reconstruírem passados moralmente comprometidos em identidades mais coerentes e com propósito (BUSEY, 2019). Essa interação dinâmica entre narrativa, identidade e desenvolvimento moral destaca o potencial da narrativa como veículo de agência pessoal e reintegração social.

Nesse sentido, o trabalho narrativo pode ser visto como uma aplicação prática da psicologia moral de Platão: por meio da reflexão guiada, os indivíduos começam a reorganizar as partes da alma, trazer clareza à confusão e mover-se da desordem interior rumo à autonomia moral. Em ambientes prisionais, onde a justiça externa muitas vezes é lenta ou incompleta, essa mudança interna pode ser a primeira e mais acessível forma de paz.

Na próxima seção, volto-me às implicações mais amplas desse trabalho interior: como a reconstituição do eu por meio da narrativa pode possibilitar um engajamento mais ético com o mundo — e porque a paz positiva deve ser concebida tanto como estrutural quanto pessoal.

Da coerência interior ao engajamento social: recuperando a agência para a paz positiva

A reconstituição da identidade por meio da narrativa não é apenas um ato terapêutico; é a base da agência moral e social. Indivíduos que recuperam seu senso de autoria e coerência estão em melhor posição para fazer escolhas éticas, resistir aos ciclos de violência e participar da reparação dos relacionamentos sociais. Em termos de construção da paz, eles deixam de ser receptores passivos da justiça para se tornarem contribuintes ativos da paz.

Platão via isso com clareza. Em A República, ele argumentava que uma cidade justa requer indivíduos justos — pessoas que cultivaram a ordem interna e que agiram não a partir do caos ou do desejo irracional, mas da razão alinhada com a percepção ética. Na linguagem psicológica moderna, esse insight se traduz na ideia de que a autorregulação interna e a coerência narrativa são pré-requisitos para o comportamento pró-social. Uma pessoa emocionalmente desregulada, moralmente confusa ou consumida por uma vergonha não resolvida, pode ter dificuldade em se relacionar com os outros de forma não violenta, quanto mais participar de processos de paz.

Isso é particularmente verdadeiro em contextos pós-conflito ou prisionais, onde a linha entre vítima e agressor frequentemente se confunde, e onde os ciclos de trauma se perpetuam ao longo das gerações. Indivíduos que não tiveram acesso à cura podem permanecer presos em padrões reativos que alimentam mais violência. Por outro lado, aqueles que tiveram a oportunidade de refletir sobre suas vidas, reconhecer danos e imaginar um futuro diferente frequentemente expressam um renovado senso de responsabilidade social.

Os participantes da minha pesquisa — apesar das limitações do estudo — ofereceram percepções que ilustram essa transição da preocupação consigo mesmos para uma consciência relacional e ética. À medida que se engajaram na autoria narrativa, muitos começaram a expressar preocupação não apenas consigo mesmos, mas com suas famílias, comunidades e outros que poderiam seguir caminhos semelhantes. Essa transformação marca o surgimento do que pode ser chamado de imaginação ética — a capacidade de visualizar uma vida além do dano, enraizada na responsabilidade, empatia e desejo de restaurar relacionamentos. Por exemplo, um participante, Jorge, refletiu que seu desejo de compartilhar sua história vinha de um senso de obrigação para com “outros jovens que talvez ainda estejam livres” e que poderiam se inspirar a fazer escolhas diferentes. De forma semelhante, Moisés expressou esperança de que sua mudança pessoal pudesse “ajudar alguém, talvez até meus próprios filhos, a não passar pelo que eu passei.”  Para ilustrar ainda mais essa tendência, a tabela a seguir resume os temas mais comuns que emergiram nas reflexões dos participantes durante o processo narrativo. Embora a amostra tenha sido pequena e não estatisticamente representativa, as respostas apontam para padrões consistentes de arrependimento, preocupação relacional e um crescente senso de responsabilidade social — os quais sugerem – todos – que a transformação interior pode abrir caminho para formas restaurativas de cidadania. Essas narrativas em evolução sinalizam não apenas cura, mas também uma reorientação em direção ao outro, fundamentada na experiência vivida e em uma renovada agência ética.

Tabela 1 – Temas Emergentes nas Reflexões Narrativas

EntrevistadosNúmero de ParticipantesCitação Ilustrativa
Arrependimento em relação aos entes queridos5“Eu causei muita dor à pessoa que eu mais amava. Isso dói muito.”
Desejo ser visto de forma diferente pelas crianças3  “Eu quero que minha filha me conheça de forma diferente.”
Intenção de evitar que os jovens repitam o caminho4“Eu gostaria de falar com os jovens para que não cometam os mesmos erros.”
Senso emergente de responsabilidade social3“Estamos aqui para consertar o que fizemos.”
Reflexão sobre o passado e autorresponsabilização6“Acho que nunca fui realmente ouvido antes…, mas não queria repetir isso.”

A incorporação da narrativa, da cura do trauma e da responsabilidade cívica em programas de construção da paz é cada vez mais reconhecida como uma estratégia fundamental para promover a coesão social, especialmente em contextos pós-conflito ou de reabilitação. Programas como o ConTextos e o Projeto Alternativas à Violência, implementados em ambientes prisionais, demonstraram a eficácia da integração de práticas narrativas para apoiar a transformação pessoal e o engajamento cívico. Essas iniciativas monitoram o comportamento dos participantes após a intervenção, oferecendo evidências empíricas do impacto positivo da contação de histórias na promoção da responsabilidade social e do envolvimento comunitário (BENNETT; HAYS, 2022; ALAMDARI, 2020).

Estruturas de justiça restaurativa também estão evoluindo para incluir a narrativa como ferramenta para fomentar empatia e responsabilidade entre ofensores e vítimas. Narrativas pessoais são utilizadas para cultivar o entendimento mútuo e facilitar o diálogo, contribuindo assim para o processo de cura de ambas as partes envolvidas (PHILBIN et al., 2018; BERGAN et al., 2021). A abordagem narrativa na justiça restaurativa ajuda a preencher lacunas de empatia que os sistemas punitivos tradicionais frequentemente ignoram. Além disso, estudiosos da justiça transicional defendem o conceito de “justiça narrativa”, que destaca a importância de reconhecer as diversas histórias de indivíduos afetados por conflitos ou injustiça sistêmica. Esse arcabouço valoriza as histórias pessoais dentro do contexto mais amplo da memória coletiva, apoiando os processos de cura tanto de indivíduos quanto de comunidades (GARCÍA; CUELLAR, 2018).

Importante destacar que esse foco no indivíduo não implica um recuo à introspecção ou a um distanciamento espiritual. Pelo contrário, a paz interior, nesse modelo, é o que possibilita a ação exterior. Indivíduos em paz consigo mesmos são mais capazes de se engajar de forma contínua com a diferença, mais aptos a lidar com a complexidade sem colapsar em agressividade e mais propensos a agirem com clareza moral em vez de agirem por impulso.

Isso desafia uma dicotomia falsa comum nos estudos sobre a paz: a ideia de que o trabalho interior é “suave” ou “privado”, enquanto a mudança estrutural é “dura” e política. A defesa de um modelo ampliado de paz positiva insiste que essas dimensões são interdependentes. Assim como sistemas injustos precisam ser desmontados e reconstruídos, o mesmo vale para os indivíduos em desordem interna. A paz estrutural exige reforma sistêmica, mas também requer pessoas que possam habitar e sustentar essas reformas — não apenas em público, mas também em sua vida privada.

Na seção final, retorno às implicações mais amplas desse arcabouço expandido para a pesquisa, a prática e a educação voltadas à paz.

Considerações finais: rumo a uma visão ampliada de paz positiva

A teoria da paz positiva de Galtung (1996) desafiou o campo dos estudos sobre a paz a ir além da mera ausência de violência e a buscar a criação de sociedades justas, equitativas e harmoniosas. No entanto, como este artigo argumentou, tal visão permanece incompleta sem considerar as condições internas dos indivíduos que habitam essas sociedades. Com base nos insights filosóficos de Platão e apoiados por pesquisas contemporâneas sobre trauma, identidade narrativa e agência moral, vimos que a reconciliação interior não é apenas um complemento da paz estrutural, mas também sua fundação.

O modelo platônico de justiça como harmonia da alma oferece uma lente atemporal para compreender as rupturas causadas pela violência e o potencial de cura por meio da reflexão, da razão e da regulação emocional. Sob essa luz, o trauma pode ser entendido como uma quebra da ordem interior — uma forma de injustiça interna que compromete a capacidade do indivíduo de agir eticamente ou de viver em paz. Curar-se desse estado exige mais do que apoio terapêutico; requer a restauração da coerência moral, o realinhamento das faculdades internas e a retomada da agência narrativa.

O estudo de caso extraído da sua tese demonstra como práticas narrativas, mesmo em contextos difíceis como o sistema prisional, podem iniciar essa transformação interior. Através da narração de histórias, homens encarcerados começaram a ressignificar suas identidades, desenvolver maior consciência emocional e imaginar papéis para si mesmos além da violência. Seu processo ecoou a jornada platônica da confusão à clareza, do conflito interior à harmonia. Embora a escala do estudo tenha sido limitada, seus achados estão alinhados com a literatura mais ampla que sugere que o trabalho narrativo, o cuidado informado pelo trauma e a autorreflexão podem permitir que as pessoas não apenas se curem, mas também contribuam de forma significativa para a paz.

Em um mundo marcado por profundas desigualdades estruturais, conflitos persistentes e ciclos de trauma, essa compreensão ampliada de paz positiva é urgentemente necessária. Pacificadores, educadores, formuladores de políticas e pesquisadores devem reconhecer que a paz sustentável exige atenção não apenas aos sistemas, mas também às almas — não apenas à justiça externa, mas à justiça interior.

Isso não é um recuo ao individualismo. É um chamado à integração entre o pessoal e o político, entre o estrutural e o psicológico, entre o filosófico e o prático. Ao cultivar a reconciliação interior, preparamos os indivíduos para se engajar de maneira mais ética, compassiva e construtiva com suas comunidades. Dessa forma, a paz positiva torna-se não apenas uma meta social, mas uma prática pessoal — um estado interior que irradia para o mundo.

Artigo publicado em: CAMAROTTTI, Henriqueta; BRASIL, Mário Lima; COSTA, Melissa Andrade (org.). Caminhos para a paz: teoria e prática. Brasília: Universidade de Brasília, Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares, 2026. E-book (308 p. ).
Publicação completa disponível em: https://livros.unb.br/index.php/portal/catalog/book/726

Referências:

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[1] Na tradição platônica, a alma (psychē) não se refere a uma essência religiosa ou mística, mas, sim, ao princípio integrador da vida humana — a fonte da razão, emoção, desejo e julgamento moral. Para Platão, a alma é a sede da consciência e da identidade, o centro dinâmico a partir do qual a pessoa pensa, age e aspira ao bem. Ela é tanto racional quanto afetiva, estruturada por três partes inter-relacionadas: logos (razão), thymos (impulso emocional) e epithymia (apetite ou desejo). Esse modelo tripartido, apresentado de forma mais completa em A República (Livro IV), enquadra a alma como um microcosmo da cidade-estado, exigindo harmonia interna para funcionar de maneira justa. A justiça na alma, portanto, consiste em cada parte cumprir seu papel adequado, governada pela razão e orientada para o bem do todo. É a partir dessa alma bem ordenada que a ação justa no mundo se torna possível. O conceito de alma de Platão tem sido interpretado por estudiosos como uma estrutura moral-psicológica, um modelo para compreender o conflito interno, o desenvolvimento ético e as condições para a paz interior. Ele oferece uma base filosófica para a ideia de que a justiça interior precede e sustenta a justiça social — uma noção central à tese deste artigo.

[2] Na psicologia o termo agência é utilizado como a qualidade da mente humana que permite iniciativa, autodeterminação e senso de controle sobre a própria vida.

[3] A ConTextos Chicago é uma organização sem fins lucrativos, criada inicialmente em El Salvador, na América Central, há dez anos, e posteriormente em Chicago, EUA, há seis anos. Eles acreditam que “assim como em qualquer lugar com epidemias de violência, áreas geográficas não determinam comportamentos violentos, tampouco raça, gênero ou classe. Em vez disso, como um vírus, a vitimização gera vitimização. A maior parte da violência não é arbitrária, mas um reflexo do trauma: dor gera dor — aqueles que são feridos acabam ferindo outros. A teoria de mudança da ConTextos é baseada na cura, e não na punição. Eles acreditam em consequências, mas também em compaixão. Os indivíduos devem desenvolver habilidades socioemocionais para enfrentar seu passado e os traumas constantes ao seu redor, a fim de participar de comunidades eficazes, relacionamentos saudáveis e do mercado de trabalho.” Para mais informações, visite o site: https://contextos.org/chicago/about-chicago/

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