A realização de sonhos e a definição de prioridades

Denise Montandon*

Falar de sonhos e prioridades parece, à primeira vista, um tema bem prático: Imaginar o que se quer profissionalmente, organizar a agenda, estabelecer metas, conciliar trabalho, família, estudos, lazer…, mas, se olharmos um pouco mais de perto, veremos que a questão é outra: trata-se de compreender o sentido próprio da vida.

Sonhar, no sentido filosófico, é muito mais que planejar um projeto material, fantasiar sensações de sucesso e vitória; antes, é perguntar-se, com honestidade: no fundo, o que eu mais gostaria de realizar como Ser humano? Sim! Como “Ser”, pois aquilo que se realiza enquanto o que se é, se realiza plenamente e aí sim podemos entrar na natureza do sonho. Nela, as dificuldades, as dores, os desafios fazem sentido e são fatores motivacionais para a sua realização. Mas que natureza é essa?

Para responder, precisamos falar do tempo. Os gregos nos ensinaram três dimensões do tempo a partir da relação mítica com três deuses: simbolizaram o tempo cronológico com o deus Cronos: o tempo que passa, desgasta e nos engole (por isso um deus que devora seus filhos). É o tempo dos prazos, da pressa, do “não tenho tempo”, em que fazemos muitas coisas e, ao final, temos a sensação de que não fizemos nada… nada de importante. Em contraste, Zeus representa o tempo da consciência, o tempo eterno: quando estamos inteiros numa experiência, tão presentes que esquecemos o relógio. São momentos em que crescemos por dentro; esse é o tempo da vida plena.

Nossa cultura nos treinou para o tempo Cronos. Inventamos relógios, calendários e metas que ajudam a organizar a rotina, mas corremos o risco de viver para o relógio e não para o nosso sentido de vida. Passamos dias no “modo robô”, automatizados: existimos, funcionamos, mas não estamos verdadeiramente acordados. Já os momentos vividos com atenção e significado permanecem, porque nos transformam, nos dão vigor e entusiasmo.

Os estoicos lembravam que “a única coisa que realmente possuímos é o momento presente”. Só no “agora” podemos escolher: prestar atenção ou nos dispersar, reagir automaticamente ou agir com consciência, compreender ou se rebelar. Quando nos distraímos continuamente, não estamos nem aqui nem onde nossa mente vagueia; ficamos em lugar nenhum, em um estado de não existência, de morte em vida. Por isso, cuidar bem do presente é cuidar da própria vida.

Outra figura grega, Kairós, representa a terceira dimensão do tempo: a oportunidade. Ele tem um topete na frente da cabeça e é careca na parte de trás, isto é, a oportunidade só pode ser agarrada de frente, se não a agarra logo, já não se consegue pegá-la… Administrar o tempo, então, não é apenas encaixar tarefas, mas saber agarrar as oportunidades de reconhecer, acolher as chances de aprender, amar, servir e recomeçar. A forma como usamos o nosso tempo revela nossos valores, (vícios e virtudes) – e o tamanho dos nossos sonhos.

Os gregos também falavam de três dimensões humanas relacionando-as com esses deuses representativos: a dimensão soma, o corpo físico; a psique, a alma sensível; e Nous, o espírito, nossa essência. O corpo, então estaria submetido a Cronos (que nasce e morre com o tempo), a psique vive o tempo das experiências interiores, Kairós (tempo presente), e o espírito toca o tempo de Zeus (tempo eterno), o tempo real, dos valores que não dependem do tempo cronológico, estão sempre atuais: verdade, justiça, beleza, sabedoria. Um sonho verdadeiro nasce desse nível mais profundo do Ser.

Por isso é importante distinguir sonhos de projetos. Projetos são metas concretas: comprar uma casa, fazer uma viagem, conquistar uma profissão. Sonhos, em sentido filosófico, dizem respeito à realização do Ser. Posso desejar ser médica, mas talvez o sonho real seja garantir a vida, aliviar o sofrimento, servir ao ser humano através da promoção da harmonia do corpo com a alma, ou seja, a verdadeira saúde. Quando confundimos sonho com status, recompensa econômica, cargo ou papel social, corremos o risco de “alcançar tudo” e se sentir vazio.

Platão, no mito da caverna, mostra seres humanos presos diante de sombras, na parede de fundo, tomando imagens (sombras) por realidade. É também uma metáfora para a indústria dos falsos sonhos: vende-se segurança (casa própria, seguros de todo tipo), amor (indústria de casamentos e objetos que possam comprar o interesse das pessoas), beleza (invenção de um padrão social que limita a vida e cega os olhos para a natureza) sucesso rápido a custas da venda própria imagem para um produto vazio de consumo rápido, baseado nos prazeres fáceis. Corremos atrás de aparências, sem tocar a realidade que poderia nos preencher. O filósofo é aquele que se inquieta com isso e se encoraja, arriscando-se a sair da caverna, em busca da realidade.

Para reencontrar os autênticos sonhos, o caminho passa necessariamente pelo autoconhecimento. Sem ele, confundimos o que queremos com o que esperam de nós, culpamos sempre o exterior e não percebemos que muitos conflitos nascem da nossa imaturidade. Ao perguntar “por que isso me afeta tanto?”, abrimos espaço para descobrir quem somos, que valores de fato nos movem e que sonhos querem nascer dentro de nós.

Na prática, isso exige rever prioridades. Não basta ser eficiente; é preciso perguntar o que realmente merece ocupar o nosso tempo. Se digo que valorizo amor, justiça e sabedoria, mas gasto quase toda a vida apenas com prestígio, consumo e distração, “a conta não fecha” e o prejuízo é certo. A coerência entre valores declarados e escolhas concretas é parte essencial da realização.

Uma antiga narrativa conta que os deuses, ao criarem o ser humano, decidiram esconder a sabedoria dentro do seu coração, por ser o último lugar onde ele procuraria. A mensagem é simples: em vez de buscar fora respostas para o vazio, precisamos voltar-nos para dentro, escutar a consciência e reconhecer o sonho profundo que nos habita.

Realizar sonhos e definir prioridades, portanto, é um exercício filosófico. Envolve compreender os diferentes tempos que nos atravessam, distinguir projetos de ideais, sair das cavernas de ilusão e organizar o presente em torno do que é essencial. Não podemos exigir uma vida perfeita para sermos felizes, mas podemos cuidar do instante que temos, alimentar nossos verdadeiros sonhos e dar, dia após dia, pequenos passos na direção do nosso ideal. Assim, o que era apenas sucessão de dias se converte em história com sentido: a história de alguém que, em vez de apenas passar pelo mundo, escolheu realizar o melhor de si.

* Professora voluntária da Nova Acrópole há 20 anos, pedagoga e professora da Secretaria de Educação do DF.

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