
O Programa Janos, da Nova Acrópole, promove formação filosófica para jovens e busca contribuir para o desenvolvimento de indivíduos conscientes, autônomos e comprometidos com a sociedade. Vivemos em uma época marcada pelo excesso de estímulos. Somos constantemente convidados a desejar, conquistar e consumir mais, enquanto as redes sociais nos colocam diante de imagens e modelos de vida que podem alimentar comparações e expectativas.
Nesse cenário, como um jovem pode construir sua identidade com maturidade, responsabilidade e independência? Celebrado em 12 de agosto, o Dia Internacional da Juventude oferece uma oportunidade para refletir sobre a formação dos novos adultos diante dos desafios do mundo contemporâneo. A data foi instituída em 1999 pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) para promover o debate sobre o papel dos jovens, as políticas públicas, a educação e a sustentabilidade.
Em meio a essas discussões, a formação do caráter e da identidade humana ocupa um lugar fundamental. É nesse sentido que a Filosofia pode oferecer ferramentas para que os jovens não apenas compreendam melhor o mundo, mas também aprendam a conduzir a própria vida.
Atitude e consequência.
Para Kênia Barbosa Alencar, coordenadora da área Infanto-Juvenil da Escola de Filosofia Nova Acrópole nas regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste do Brasil, formar indivíduos despertos e autônomos, capazes de conhecerem-se a si próprios e compreenderem as razões de suas atitudes e suas consequências, é um dos propósitos do Programa Janos.
“Atuar na sociedade como elementos construtivos, capazes de servir ao colectivo com inteligência, justiça e compromisso ético” é o foco deste Programa estruturado para jovens entre 14 e 19 anos de idade.
O Janos existe desde 1998 e, nas regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste do Brasil, já soma mais de 60 núcleos, integrando cerca de 400 adolescentes. A iniciativa oferece uma formação filosófica, moral e prática voltada para essa fase de transição entre a infância e a vida adulta.
Seu símbolo é a divindade da mitologia romana Janos, representada com duas faces: uma voltada para o passado e outra para o futuro. A imagem traduz justamente a passagem e o olhar para diferentes momentos da existência. A proposta pedagógica combina o estudo dos ensinamentos clássicos da Filosofia com vivências práticas. Busca-se a ênfase nos desafios de superação e nos exercícios de cidadania ativa, que conectam a prática filosófica ao papel do jovem consciente, capaz de governar a si próprio e construir um propósito de vida fundamentado na ética.
Virtudes atemporais De acordo com Normando Pignataro, instrutor do Programa Janos na Escola de Lago Norte, em Brasília, grandes filósofos de diferentes tradições sempre ensinaram que a base da educação está no desenvolvimento das virtudes. “Quando uma pessoa cultiva valores como responsabilidade, coragem, honestidade, generosidade, perseverança e senso de propósito, ela constrói um alicerce sólido sobre o qual poderá desenvolver qualquer conhecimento técnico ou profissional e se realizar”, completa.
Normando Pignataro ressalta que o Programa não tem como objetivo preparar os jovens para uma profissão específica, mas ajudá-los a desenvolver capacidades que poderão acompanhá-los em qualquer profissão e em diferentes momentos da vida: refletir sobre os próprios atos, agir com discernimento e construir relações humanas saudáveis.
O Programa aborda os mesmos princípios e conteúdos filosóficos destinados ao curso Filosofia para Viver, oferecido aos adultos, mas com uma linguagem adaptada às necessidades e à realidade dos jovens. As atividades combinam aulas teóricas, dinâmicas, projetos e experiências práticas, permitindo que os participantes não apenas compreendam os conceitos filosóficos, mas também aprendam a vivenciá-los no cotidiano.
Assim, a Filosofia deixa de ser apenas um conjunto de ideias e passa a ser uma experiência concreta, capaz de contribuir para a formação do pensamento crítico e para o desenvolvimento da capacidade de agir de maneira mais consciente. Um espaço para as inquietações O Janos também se apresenta como um espaço de liberdade e reflexão.
É um ambiente onde o jovem pode pensar, questionar e fazer perguntas sem receio, percebendo que muitas das inquietações que carrega não são exclusivamente suas, explica o instrutor Normando. Nesse processo, ele descobre que faz parte de uma história muito maior: uma tradição formada não apenas pelos colegas com quem convive hoje, mas também por pessoas que, ao longo dos séculos, dedicaram suas vidas ao autoconhecimento, à busca da sabedoria e ao serviço à humanidade.
A convivência com outros jovens e com instrutores que procuram orientá-los com respeito, amizade e confiança também favorece o surgimento de amizades construídas sobre valores, e não apenas sobre interesses materiais ou conveniências.
Uma extensão da educação familiar
A psicopedagoga Marcela Gontijo, mãe de Diego, participante do Janos há dois anos, percebe na experiência do filho uma continuidade dos valores cultivados em casa. “Eu vejo o programa como uma extensão da educação que passamos para ele em casa”, avalia Marcela ao comentar os desafios dos pais em educar adolescentes.
Ela também observa mudanças concretas na maneira como Diego se relaciona com as pessoas e com as responsabilidades cotidianas. “Observo que o Diego tem um olhar mais humano, tem proatividade na casa dos amigos em ajudar no que for preciso, por exemplo. Há uma responsabilidade mais evidente nas atitudes dele”, diz a mãe ao desejar que este cuidado na formação de pessoas e transmissão de valores do Programa continue. “Vivemos tempos de difícil compreensão do externo e é muito importante cultivar valores”, considera Marcela.
A percepção da mãe encontra eco na análise da profa. Kênia Alencar sobre a importância da Filosofia durante a juventude: “A juventude é o período de estruturação da identidade, de questionamento das estruturas estabelecidas e de busca por sentido. Sem um eixo moral claro, essa fase de transição pode gerar desorientação, dependência de aprovação externa ou apatia. A Filosofia à maneira clássica oferece ferramentas essenciais para essa etapa, que encoraja o jovem a pensar por si mesmo com discernimento, libertando-o de modismos e pressões sociais”, analisa.
O diálogo com os grandes filósofos
Nos encontros semanais, os jovens entram em contato com o legado de grandes pensadores clássicos. Entre eles, Sêneca e os filósofos estoicos, além de Platão, exercem um apelo especial sobre a juventude, na avaliação de Kênia Alencar. As ideias de Sêneca dialogam com a necessidade de desenvolver resiliência e autocontrole. Em uma realidade marcada por estímulos constantes, comparações e ansiedade, o Estoicismo pode contribuir para que o jovem diferencie aquilo que está sob seu controle: suas reações, decisões e princípios, daquilo que não está. “E esta postura pode ajudá-lo a entender quem é, mesmo diante das pressões”, assegura.
A coordenadora completa que “Platão traz ideias que combinam com o idealismo da juventude, seja no Mito da Caverna ou em outras reflexões sobre o Belo e o Justo, contribuindo para o desenvolvimento de valores profundos.” Para o instrutor Normando, Sócrates também estabelece um diálogo particularmente significativo com essa etapa da vida: “Mais do que um pensador, foi um exemplo vivo do que significa ser filósofo. Não apenas formulou ideias, viveu de acordo com elas. Dedicou toda a existência à busca da verdade, do autoconhecimento e da sabedoria, mantendo-se fiel aos seus princípios mesmo diante das maiores dificuldades. Essa coerência entre pensamento e ação é um exemplo de heroísmo e uma inspiração “. O instrutor ressalta ainda que a Filosofia, tanto do Oriente quanto do Ocidente, pode oferecer referências construtivas aos jovens contemporâneos.
Filosofia para viver
Mais do que transmitir conhecimentos sobre a História da Filosofia, o Programa Janos propõe aos jovens uma experiência de formação. Ao estudar os grandes pensadores e, simultaneamente, exercitar na vida cotidiana valores como responsabilidade, coragem, discernimento e justiça, o jovem é convidado a transformar conhecimento em atitude. Em uma sociedade marcada pela velocidade, pelo excesso de estímulos e pela necessidade constante de aprovação, cultivar um espaço para pensar sobre si mesmo pode ser uma forma de liberdade.
A Filosofia, nesse sentido, não oferece respostas prontas para os desafios da juventude. Ela apresenta perguntas, referências e ferramentas para que cada indivíduo possa construir, com maior consciência, suas próprias respostas; e, sobretudo, aprender a governar a si mesmo.
