As Grandes Mentiras do Século XX: como a filosofia clássica nos ajuda a enxergar a verdade no mundo moderno

Conferência proferida por Jorge Ángel Livraga, fundador da Nova Acrópole, na sede da organização em Madri, Espanha, em 3 de junho de 1989.

Bem-vindos a este centro filosófico — ao que também podemos chamar de "lar filosófico", um lugar onde nos reunimos em torno de algo que aquece, que conforta a alma. Não sabemos bem defini-lo, mas sentimos. Como quando nos sentamos ao lado da família ao fim do dia, e as tensões ficam para trás. Aqui todos somos amigos de todos, e buscamos, juntos e com muita humildade, caminhar em direção a uma versão melhor de nós mesmos.

O tema de hoje trata das mentiras do século XX. E desde já é preciso deixar claro: não falamos para condenar ninguém. Em todo século, em todo momento da história humana, o ser humano se equivocou. Mas se equivocou porque tentou fazer algo, tentou dizer algo. Nosso papel aqui não é o de inquisidores. É o de observadores fraternos que expõem alguns erros do nosso tempo para que, se possível, não se repitam.

A verdade e a mentira são sempre relativas

Imagine que eu seguro um microfone e pergunto a alguém o que é aquilo. "É um microfone", diz um. "É um conjunto de plástico e metal", diz outro. Os dois dizem a verdade — de ângulos diferentes. A mentira raramente nasce da maldade pura: ela nasce do vazio de conhecimento, da falta de informação e de formação.

Assim como uma revista parece grande ao lado de uma caixa de fósforos, mas minúscula comparada ao tamanho de uma cidade, todas as coisas são relativas neste mundo das manifestações. Elas vêm e vão como numa dança imensa que está entre nós. Por isso, antes de apontar o dedo, precisamos compreender.

O Titanic: a grande metáfora do século XX

O século XX começou com auspicios e augurios extraordinários. Tudo prometia ser melhor — a ciência, a tecnologia, a política. Como o Titanic: um navio "inafundável", construído para transportar milhares de pessoas com segurança absoluta. Os engenheiros, os periódicos, os pensadores garantiam: "Este barco é insumergível, jamais se pode afundar."

O navio partiu entre festas e músicas. A orquestra tocava. As pessoas dançavam. Mesmo quando o iceberg rasgou o casco, ninguém acreditou de imediato no perigo. Os foguetes de emergência foram lançados — e um navio sueco próximo os interpretou como celebração. O próprio sinal de SOS não foi levado a sério.

Essa é, em grande medida, a história do nosso século. Prometemos muito, acreditamos em nossa própria invencibilidade e, quando os sinais de crise apareceram, muitas vezes os ignoramos ou os confundimos com brincadeira. Em todo siglo, em todo momento de la historia humana, o homem se equivocou — mas se equivocou porque tentou.

A grande ilusão da igualdade absoluta

Uma das mentiras mais difundidas do século XX foi o dogma de que "todos os homens são iguais". É o mesmo que dizer que todas as paredes são brancas. Os seres humanos não são iguais — mas podem ter direito a uma oportunidade semelhante. E isso é profundamente diferente.

Um músico nato ao qual entregamos apenas uma tela e pincéis não tem oportunidade. Um pintor genial ao qual damos apenas um violino também não. E quando privamos a ambos de qualquer oportunidade, de qualquer formação, de qualquer alimento — esse ser humano não tem oportunidade alguma.

A diversidade não é um problema a ser corrigido pela uniformidade forçada. Não é bela uma rosa? Sim, é muito bela — mas se todas as flores fossem rosas idênticas, quem quereria ter uma flor? A riqueza da vida está na diferença. O erro está em usar essa diferença para oprimir, em vez de tomá-la como convite ao reconhecimento mútuo.

O progresso sem discernimento: ter sem saber usar

O século XX nos deu maravilhas reais: automóveis velozes, luz elétrica que imita o sol, aviões, submarinos. Mas não basta ter as coisas — é preciso saber usá-las. Podemos ter uma casa maravilhosa, um carro muito rápido; mas se não soubermos usá-los, é pior do que não tê-los.

Devastamos a natureza, poluímos o ar, queimamos reservas que levaram séculos para se formar. E nos repetimos que havia tempo, que havia espaço, que haveria solução depois. Essa psicologia do "progresso interminável" nos levou a acreditar que éramos superiores a todos os séculos anteriores — quando, na verdade, apenas tínhamos instrumentos mais poderosos nas mãos, sem a sabedoria proporcional para manejá-los.

As contradições que nos cercam

Vivemos em um tempo de contradições profundas. Um psiquiatra fala de espiritualidade; um religioso aconselha sobre anticoncepcionais. A pena de morte foi formalmente abolida em muitos países — mas grupos continuam ceifando vidas cotidianamente. Pedimos café sem cafeína, açúcar sem glicose. A helioterapia que curava há quarenta anos hoje provoca câncer de pele.

Esse mundo confuso, onde até as certezas médicas se invertem de geração em geração, exige de nós algo que nunca foi tão urgente: discernimento filosófico. E para isso precisamos de algo que nenhuma tecnologia pode nos dar: o autoconhecimento.

Como a filosofia clássica nos ajuda a enxergar a verdade no mundo moderno

Diante de tudo isso, o que podemos fazer? A resposta que a filosofia clássica oferece é ao mesmo tempo simples e exigente. Como Sócrates buscou no Oráculo de Delfos: "Conhece-te a ti mesmo."

Não é uma revelação mística instantânea. Autoconhecer-se é perguntar, com honestidade: quais são minhas emoções reais? Em que acredito de verdade? Estou fazendo algo pelo mundo, ainda que seja pouco? Consigo defender minhas convicções quando são contrariadas? E se não consigo — por quê?

Essas são as perguntas que se deve fazer um filósofo — não o profissional que recita sistemas e repete o que os outros disseram, mas o buscador da verdade que indaga, dia após dia, o que significa viver bem e ser autêntico.

Quando cultivamos esse conhecimento de nós mesmos, torna-se muito mais difícil sermos manipulados. As mentiras perdem força. Porque, "O dia em que pudermos clavar essas pequenas pedras no fundo do poço de nossa ignorância, esse poço irá se tornando menos profundo, menos escuro — e será muito mais difícil que nos manipulem."

Nova Acrópole: uma escola filosófica de vida, não de dogmas

É nesse espírito que Jorge Ángel Livraga fundou a Nova Acrópole, em 1957. O próprio nome revela a intenção: Acrópole significa "cidade alta" — não em tijolos ou concreto, mas em ideais. Uma cidade mais próxima dos valores que transcendem modas e discursos passageiros.

A Nova Acrópole é uma organização filosófica, educacional e cultural presente em mais de 50 países, dedicada ao estudo e à vivência da filosofia clássica como ferramenta de transformação humana genuína. Sua base é a fraternidade universal: a convicção de que, além das diferenças de raça, credo ou origem social, todos compartilhamos algo essencial — a busca por sentido, por verdade, por uma vida que valha a pena ser vivida.

Como toda escola filosófica séria, a Nova Acrópole acolhe pessoas de diferentes origens e crenças. Não exige conversão religiosa, não impõe dogmas políticos. O que se cultiva é a capacidade de pensar com clareza, agir com ética e viver com profundidade — valores que a filosofia clássica sempre colocou no centro da formação humana. Dentro de cada um de nós há uma pequena montanha. Se a escalarmos, encontraremos uma força, um dom, uma graça difíceis de descrever — mas inconfundíveis para quem os experimenta.

A esperança como postura filosófica

Não acusemos ninguém pelos erros do século XX. Como disse Livraga nessa conferência: "A veces aun las mentiras son un acto de amor — às vezes até as mentiras são um ato de amor, e podem ser uma busca do mundo invisível." Aqueles que se equivocaram, muitas vezes o fizeram com boa vontade. O que está em nosso poder é sermos um pouco melhores, hoje, aqui, agora.

"Pobre de aquele que não tem sonhos! O que diferencia fundamentalmente o ser humano do animal é sua capacidade de ter fé em Deus e sua capacidade de ter sonhos." Essa é a convicção que atravessa toda a obra de Livraga e toda a proposta da Nova Acrópole: um mundo novo e, sobretudo, um mundo melhor — construído de dentro para fora, um ser humano de cada vez.


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A conferência de Livraga dialoga diretamente com a sabedoria socrática. Para aprofundar essa jornada de autoconhecimento, recomendamos:

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