Por que você busca bem-estar
e ainda se sente vazio?
Mais autocuidado do que nunca — e mais ansiedade do que nunca.
Talvez o problema não seja o que você está fazendo, mas de onde você está partindo.
Em 2024, o mercado global de wellness faturou 5,6 trilhões de dólares. No mesmo ano, mais de um bilhão de pessoas foram diagnosticadas com ansiedade, segundo a OMS. Nunca cuidamos tanto de nós mesmos — e raramente nos sentimos tão vazios. Quando os dados se cruzam assim, a filosofia tem uma pergunta a fazer: e se estivermos buscando no lugar errado?
Tântalo e o bem-estar que nos escapa
Os gregos conheciam bem essa armadilha. O mito de Tântalo descreve um homem condenado a permanecer com água até o queixo e frutos ao alcance da mão — mas que jamais conseguia saciar a sede nem a fome. Toda vez que se inclinava para beber, a água recuava. Toda vez que estendia o braço para o fruto, o galho se erguia.
O mito não é sobre punição divina. É sobre o mecanismo de uma certa forma de buscar. Quando perseguimos o bem-estar com a mesma intensidade com que ele foge, quando corremos de método em método esperando que o próximo seja o definitivo, estamos vivendo uma versão moderna de Tântalo — exaustos justamente pelo esforço, não apesar dele.
“A felicidade da sua vida depende da qualidade dos seus pensamentos.”
— Marco Aurélio, Meditações, século II
Marco Aurélio escreveu isso não como conselho para os outros, mas como lembrete para si mesmo. Governava o maior império do mundo, conduzia guerras, enterrava filhos, lidava com traidores — e voltava, sempre, a essa constatação: o que determina a qualidade de uma vida não é o que acontece ao redor, mas o que acontece dentro. Não a dieta, não o aplicativo de passos, não o protocolo de sono. Os pensamentos.
O que Delia Steinberg identificou em 1985
A filósofa Delia Steinberg Guzmán escreveu sobre motivação na Revista Nova Acrópole há quarenta anos — e o texto parece ter sido redigido esta semana. Ela começa por onde poucos começam: pela definição.
“Em geral, as emoções e a mente buscam a satisfação e evitam a inquietação: essas são as duas maiores e mais ilusórias motivações psicológicas.”
Delia Steinberg Guzmán — As Motivações, 1985
A palavra ilusórias não é retórica. Ela descreve um problema estrutural: motivações construídas sobre a busca de satisfação imediata e a fuga da inquietação dependem, por definição, de fatores externos para existir. Se há alguém nos animando, avançamos. Se essa pessoa some ou muda de humor, paramos. Se as circunstâncias cooperam, sentimos entusiasmo. Se se complicam um pouco, desmoronamos. O ciclo se repete indefinidamente porque o ponto de apoio está fora de nós.
Steinberg identificou também o papel que a própria sociedade cumpre nesse processo. Longe de ajudar, ela amplifica o problema:
“As sociedades em que vivemos são desmotivadoras, precisamente porque abusam de estímulos psicológicos falsos e superficiais — enganam propondo o sucesso apenas por comprar produtos de marca, tomar um medicamento milagroso ou estar na moda.”
Delia Steinberg Guzmán
O que ela descreve é um mercado que vive da promessa de satisfação — não da satisfação em si. Porque se a promessa se cumprisse de uma vez, o mercado perderia o cliente. A lógica do consumo de bem-estar depende de que o bem-estar nunca chegue completamente. Os falsos valores que predominam fazem com que se substitua o esforço continuado pelo sucesso fácil, o trabalho pela diversão, o estudo pelo mínimo necessário para se safar. Como resultado, escreve ela, “impera o imediato sobre o importante.”
Motivação que dura e motivação que passa
Steinberg distingue dois tipos de motivação não como categorias abstratas, mas como duas formas de vida radicalmente diferentes.
Motivação Externa
Nasce da aprovação alheia, do resultado imediato, das circunstâncias favoráveis. Quando qualquer desses elementos muda, a motivação desaparece com ela. É passageira por natureza, não por fraqueza de quem a tem.
Motivação Interna
Surge de ideias e sentimentos assumidos por decisão consciente, por aprendizagem acumulada, por perspectiva de futuro. Não depende do humor do mundo para continuar existindo.
A motivação de base psicológica — dependente das emoções e de estímulos externos — tem ciclos curtos porque as emoções são instáveis por natureza. Não é um defeito humano. É simplesmente o que as emoções são. O problema não está em tê-las, mas em construir sobre elas toda a estrutura de sentido de uma vida.
A motivação filosófica funciona de outro modo. Steinberg a descreve com precisão:
“A melhor das motivações é um Ideal de Vida que coloca em jogo todas as nossas capacidades, que ocupa todo o nosso ser e nos oferece finalidades a curto, médio e longo prazo, dando um sentido útil, poderoso e eficaz às nossas ações.”
Delia Steinberg Guzmán
Um ideal de vida não é uma meta de ano novo nem um objetivo de carreira. É uma direção que permanece mesmo quando os resultados não chegam, mesmo quando as circunstâncias mudam, mesmo quando ninguém está olhando. É o que distingue quem para quando as condições pioram de quem continua porque o motivo é interno.
“Vá de fora para dentro e converta as motivações em causas, as causas em raízes, as raízes em fundamentos, os fundamentos em finalidades, as finalidades em evolução. Este é um verdadeiro caminho filosófico, um excelente motivo para Viver.”
O que a filosofia propõe — e o que isso tem a ver com o vazio
Nas antigas escolas de sabedoria, do Egito à Grécia, da Índia a Roma, filosofia não era uma disciplina reservada a especialistas. Era uma prática de autoconhecimento acessível a qualquer pessoa disposta a examinar a própria vida com honestidade. A pergunta central não era “como me sentir melhor agora?”, mas “que tipo de pessoa quero me tornar?” — e, consequendo de resposta, “quais pensamentos preciso cultivar para chegar lá?”
É uma pergunta diferente. Ela não resolve o desconforto imediato. Não oferece alívio rápido. Mas é a única que, respondida com seriedade, produz algo duradouro — porque muda o lugar de onde as ações partem. Não de fora para dentro, como propõe o mercado. De dentro para fora, como propõe a filosofia.
O vazio que persiste mesmo quando fazemos tudo certo talvez seja o sinal de que estamos invertendo a direção. Que buscamos no espaço externo o que só pode ser encontrado no interno. Não como consolo, não como resignação — mas como ponto de partida real para qualquer transformação que valha o nome.
Vídeos do canal Nova Acrópole
01A prof. Lúcia Helena Galvão examina a dor de quem está rodeado de pessoas e recursos e ainda assim sente que algo falta — e o que a filosofia tem a dizer sobre isso.
Assistir no YouTube ↗Uma conversa entre a prof. Lúcia Helena Galvão e a Monja Coen sobre o que está por trás da sensação de vazio — e por que preencher o exterior não resolve o interior.
Assistir no YouTube ↗Se Marco Aurélio tinha razão e a qualidade dos pensamentos determina a qualidade da vida, então vale perguntar: que tipo de pensamento temos cultivado?
Assistir no YouTube ↗Mudar o que se pensa é mais difícil do que mudar o que se faz. Neste vídeo, a prof. Lúcia Helena aborda o que está em jogo quando decidimos realmente questionar as próprias certezas.
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