Por Lúcia Helena Galvão*

Vivemos um tempo em que a informação é abundante, mas a sabedoria parece cada vez mais escassa. Nunca houve tantos meios de comunicação, mas paradoxalmente, raras vezes o ser humano esteve tão distante de si mesmo. No turbilhão das redes e da multiplicação das vozes, o ódio se tornou uma linguagem cotidiana: manifesta nos discursos, nos gestos e, muitas vezes, até nos pensamentos mais íntimos.
Costumo dizer que o ódio é uma forma de ignorância. Ele parte da falsa ideia de que algo ou alguém possa ser eliminado do universo. Mas o universo é um todo onde cabemos todos ou não cabe ninguém. Quando tentamos excluir uma parte, quebramos a unidade dentro e fora de nós. O ódio, portanto, é uma ruptura com a ordem natural da vida, um esquecimento da sua natureza una.
O ódio nasce do desejo de fazer preponderar uma parte sobre a outra, de afirmar o “eu” negando o “outro”. E talvez este seja o maior sintoma de uma humanidade que trabalhou para a evolução apenas da máquina, mas não do homem. Desenvolvemos tecnologias poderosas, mas continuamos dominados por impulsos rudes e paixões descontroladas. Quando o ser humano não domina a si mesmo, as máquinas que cria podem se transformar em instrumentos de propagação do ódio.
Chamo este momento de “A Era do Ódio” : um tempo em que o progresso técnico avança vertiginosamente, enquanto o progresso moral tropeça. A inteligência artificial cresce, mas a inteligência emocional e ética parece ter estagnado. E quando o ódio não é compreendido e trabalhado, ele se transforma inevitavelmente em violência. Depois do ódio vem a violência. Se não o diluímos diariamente com compaixão e compreensão, ele se espalha — nas guerras, nas disputas políticas, nas redes sociais, nas casas e nos corações.
A raiz do ódio está na recusa das diferenças. Odiar é querer que o outro não exista; é negar a diversidade que constitui a própria vida. No entanto, o autoconhecimento é o caminho de superação. Quando o ser humano se conhece verdadeiramente, percebe que dentro de si existem todas as possibilidades do universo: luzes e sombras, virtudes e defeitos. Algumas estão conscientes, outras dormem em potencial. Ao reconhecermos em nós o que também existe no outro, nasce a compaixão — e ela é o antídoto do ódio.
Recordo as palavras de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, para quem o ódio é o oposto do amor — o caritas, o amor universal. O amor consciente, manifestado como empatia e solidariedade, é a única força capaz de dissolver o ódio enraizado nas relações humanas e sociais.
O tema do Dia Mundial da Filosofia, “A Unidade para Além das Diferenças”, convida-nos a esse mesmo movimento interior. Odiar é justamente o desejo de suprimir as diferenças; um gesto que rompe o elo com a totalidade da vida. O mundo vive hoje uma guerra — muitas vezes barulhenta, mas também silenciosa. Mesmo onde não há conflitos declarados, sofremos com a violência cotidiana, doméstica, simbólica.
Precisamos despertar e escolher não alimentar essas influências tão presentes em nossos dias. A filosofia tem um papel essencial nisso: ela nos educa para a lucidez, para a fraternidade e para a unidade. Ensina-nos a reconhecer e a recusar tudo o que atenta contra a harmonia e a ordem universal. A filosofia é, em última instância, uma educação do coração humano. A Unidade é uma manifestação de Deus e, toda vez que rompemos com ela, afastamo-nos do divino em nós.
Neste Dia Mundial da Filosofia, convido cada leitor a uma reflexão profunda:
Vamos pensar juntos sobre esta era do ódio, que tantas guerras, externas e internas, têm provocado. Que possamos buscar uma posição interior capaz de nos proteger dessa influência, aprendendo a transformar o ódio em compreensão e o medo em consciência.
Só assim construiremos um tempo novo — a era da Unidade.
*Lúcia Helena Galvão é filósofa, escritora, palestrante e voluntária há 37 anos da Organização Internacional Nova Acrópole do Brasil. Este tema foi apresentado no Dia Mundial da Filosofia 2025.
