Resumo
Entre fazer e ser: um convite filosófico à autoconstrução, ao ideal e às virtudes que dão sentido à vida inteira.
Artigo
Entre “fazer” e “ser”
A pergunta “o que você quer ser?” costuma virar lista de ocupações: médico, engenheiro, marceneiro. Mas profissão é “fazer”; não define o que somos como seres humanos. Se mudamos de ofício, seguimos sendo. A questão essencial é outra: há algo a aspirar no plano do ser? Estamos satisfeitos em permanecer os mesmos até o último dia da vida?
Um espelho para a vida inteira
Marco Aurélio, o imperador estoico, sugeria um teste: “Se eu morresse amanhã, quem eu gostaria de ver no espelho?” Construir a nós mesmos é a tarefa primeira. Sem base ética, emocional e espiritual, nossas obras tornam-se ambíguas ou perigosas. O problema não é a tecnologia em si, mas o caráter de quem a utiliza.
Três respostas comuns à pergunta “o que quero ser?”
- Ser levado pelas circunstâncias: gostos e opiniões variam ao sabor da moda — a autenticidade rareia.
- Projetos de posse e projeção: “quero ter”, “quero aparecer”. Isso não sustenta sentido para a vida inteira.
- Propósito idealista: tornar-se um ser humano melhor e servir ao todo. Quem tem um ideal encontra forças para superar crises — sempre há motivo para levantar e agir.
O ponto de apoio “acima”
Se nossa mesa da vida tem três pernas — profissão, afetos, finanças —, um golpe em duas delas costuma nos derrubar. Mas quem apoia sua vida num ideal superior fica “preso ao alto”: as pernas podem quebrar, e ainda assim permanece de pé. O ideal dá estabilidade e direção.
Podemos fazer tudo? E podemos ser tudo?
No fazer, há limites: morais (não devo tomar o que não é meu), mentais, emocionais e físicos.
No ser, há uma liberdade singular. Pico della Mirandola, no Discurso sobre a Dignidade do Homem, afirma que ao ser humano foi dado tornar-se aquilo que decide ser, desde a inércia de uma “pedra” até a pureza de um “anjo”, conforme cultive suas sementes interiores com vontade e disciplina.
Escolha primeira: ser humano de verdade
Educar uma criança para responder “quero ser um ser humano de verdade” recoloca tudo no lugar. Com valores, virtudes e sabedoria, qualquer fazer se torna bom, justo e útil. O resto vem “por acréscimo”.
Desfazer máximas confusas
“Crime não compensa” ou “faça o bem e receberá em dobro” trocam ética por cálculo. Amamos o bem porque é bom, não por lucro ou medo. A justiça vale por si mesma.
O método: agir “como se já fôssemos”
Escolha um referencial — histórico ou próximo — de integridade e retidão. Diante de cada situação, pergunte: o que essa pessoa faria? E faça. A conduta coerente, repetida, transforma caráter. Epicteto lembrava: “as sementes de grandeza precisam de uma imagem para germinar”.
Disciplina que vira hábito
Práticas diárias por alguns meses tendem a enraizar hábitos: paciência no trânsito; gentileza que olha nos olhos; compaixão com o humor alheio; honestidade nas pequenas coisas. O que começou como imitação vira propriedade íntima.
Ser é construir-se continuamente
Nada está congelado. Tendências podem ser reeducadas; vícios são estados passageiros. “Cresça tanto que as pessoas precisem conhecê-lo de novo.” Heróis e bons exemplos — da história ou da família — alimentam a imaginação moral e elevam o padrão das nossas respostas à vida.
Ser idealista também no trabalho
Ambientes que retêm pessoas idealistas oferecem finalidade humanista (“estamos melhorando a vida das pessoas”) e autoridade humana no liderar: conhecer o ofício, dar o exemplo e priorizar o crescimento das pessoas no processo. Pela lei da afinidade, valores sinceros atraem pessoas e oportunidades do mesmo nível.
A estrada que sobe a montanha
Cristina Rossetti pergunta: “O caminho serpenteia montanha acima o tempo todo?” — Sim, o tempo inteiro. A construção de si é diária, de manhã à noite. Antes de dormir, revise o dia: o que aprendi para tornar-me melhor? Exija de si um ganho humano cotidiano, por menor que seja.
Conclusão: filosofia viva e a proposta da Nova Acrópole
Podemos fazer nem tudo; ser, podemos muito. A melhor escolha é desejar ser profundamente humano — com virtudes, sentido e serviço ao todo — e praticar isso hoje. Essa é a direção da filosofia como modo de vida: transformar ideias em ações, construir caráter e participar conscientemente da obra comum. É esse o chamado que a Nova Acrópole renova: aprender a viver, para que o mundo fique um pouco melhor porque existimos.
