A filosofia mostra que, apesar dos limites no fazer, o ser humano guarda no campo do ser uma liberdade infinita.
Os limites do fazer
É comum ouvirmos que “podemos fazer qualquer coisa que quisermos”. No entanto, a realidade mostra que existem limitações inevitáveis.
Algumas delas são morais, como a impossibilidade de tomar posse daquilo que não nos pertence sem nos corromper interiormente. Outras são mentais, pois não basta desejar para alcançar a inteligência de um gênio da ciência. Também encontramos limites emocionais, como no caso de Agnes, uma mulher que, após perder a filha e o neto em um crime violento, foi capaz de perdoar o assassino — um nível de maturidade emocional raríssimo e fruto de toda uma vida de trabalho interior. Por fim, há limites físicos, já que não podemos, por simples esforço, nos transformar em atletas excepcionais como Pelé.
Portanto, no campo do fazer, enfrentamos fronteiras que não podem ser superadas apenas pela vontade.
O campo do ser
Mas e quando se trata do ser?
Aqui, encontramos uma dimensão diferente. Pico della Mirandola, pensador renascentista, em sua obra Discurso da dignidade do homem, afirmou que o ser humano tem a possibilidade de escolher aquilo que deseja ser.
Podemos optar por uma existência inerte como a pedra, pela busca incessante de energia como a planta, ou pela simples sobrevivência e perpetuação da espécie como os animais. Tudo isso é possível — e muitos vivem assim.
No entanto, o chamado verdadeiramente humano vai além: ser um ser humano pleno, cultivando valores, virtude e sabedoria. Esse é o caminho que nos distingue dos demais reinos da natureza.
A possibilidade de elevar-se
Segundo Pico della Mirandola, o ser humano pode inclusive aspirar à pureza dos anjos, elevando-se a um estado de entrega total, livre de egoísmo, vivendo em favor do bem comum. As tradições mais profundas afirmam até que podemos alcançar a união com o divino.
No campo do ser, portanto, não existem barreiras intransponíveis. Com vontade firme e disciplina, tudo se torna possível. É justamente essa esfera — a mais grandiosa — que muitas vezes deixamos de lado em nossa vida cotidiana.
A escolha essencial
A questão central, então, é: o que queremos ser?
A resposta deveria começar por aquilo que parece mais simples, mas é o mais elevado de todos os objetivos: sermos humanos de verdade.
Imagine se uma criança, ao ser perguntada sobre o que deseja ser quando crescer, respondesse: “Quero ser um ser humano.” Esse seria o fundamento de toda educação. Pois, sendo verdadeiramente humano, tudo o que fizer estará alinhado ao bem, à ética e à justiça.
Quando colocamos em primeiro lugar o nosso lugar na natureza como seres humanos conscientes, tudo o mais vem por acréscimo. Assim poderemos construir uma sociedade mais justa, sábia e fraterna.
Conclusão
A filosofia nos mostra que, enquanto o campo do fazer é limitado, o campo do ser é ilimitado. Cada ser humano carrega em si a possibilidade de se tornar algo maior, de transcender as barreiras externas e internas. A proposta da Nova Acrópole é justamente resgatar essa vocação essencial: formar seres humanos plenos, capazes de viver com sabedoria, virtude e propósito.
