O homem diante do mistério da vida e da morte

Autor: Jorge Ángel Livraga

Antes de tudo, para aqueles que me conhecem há tantos anos, queria explicar um pouco por que esta forma atípica de me dirigir aos meus amigos peruanos. A professora recolheu uma série de inquietações sobre o tema, fez uma espécie de sondagem entre os jovens peruanos, e por isso quis dar a esta reunião um caráter eminentemente prático.

Vamos falar de coisas que podem ser muito agradáveis, muito maravilhosas, com boa oratória, que todos aplaudam e todos fiquem contentes; mas queremos também que seja prático. Ou seja, vamos podar um pouco essa parafernália da oratória, que tanto me agrada — confesso —, mas que às vezes é mais útil contemplar de uma maneira direta. Assim, todos aqueles que pela primeira vez estão em nossa casa de Lima terão a oportunidade de conhecer mais a fundo, mais diretamente, o que é isto da Nova Acrópole e o que é uma filosofia à maneira clássica.

Muitos acreditam que filosofia é algo frio, que filosofia é saber o que disse Aristóteles, Platão, o que disse Hegel, etc. Não. A verdadeira filosofia, a filosofia que estamos resgatando, não é uma filosofia de palavras simplesmente; é uma filosofia de palavras e de ação, é uma filosofia viva, é uma filosofia tradicional, é uma filosofia muito abrangente, que não somente vai nos falar do ser e da coisa enquanto coisa, e do ser em relação ao tempo, mas vai nos falar de tudo isso e muito mais, aplicado à vida cotidiana.

Às vezes ensina mais a pétala de uma flor do que todo um tratado sobre filosofia — e é isso que viemos propor. Esta é a proposição fundamental da Acrópole: o retorno à natureza, o retorno à vida, o não depender sempre dos outros numa espécie de molde psicológico, no qual temos que esperar para ver o que fulano opinou sobre Aristóteles, o que opinou sobre Platão, o que opinou sobre a vida, sobre a morte, etc.

O tema de hoje, sim, está relacionado com a vida e a morte.

Por que escolhemos este tema? Se fosse um tema econômico, poderia tocar a uns sim e a outros não; se fosse outro tema, também. Mas o tema da vida e da morte… já que a morte nos alcançará a todos, e todos, por ora, estamos vivos, então é de interesse para todos nós. Uns mais, outros menos, cada qual responde a isso à sua maneira — e agora sabereis como eu respondo. De que maneira eu posso ter uma ideia? Posso tê-la através dos meus estudos, da minha experiência, das minhas viagens: uma ideia sobre a vida, sobre a morte.

Alguns de vocês sabem que já faz vinte anos que viajo constantemente pelo mundo, que não vivo em nenhum lugar. Sou italiano de nacionalidade, nasci na Argentina e estudei em vários países, em várias universidades, desde a de Buenos Aires até a de Salamanca. Assim, através das minhas viagens, pude ver uma série de fenômenos, mil modos diferentes de sentir e de viver. Eu gostaria de trazer um pouco dessa universalidade, um pouco desse perfume, um pouco dessa atitude de tanta gente distante.

Não tenho um lugar fixo, não resido em nenhum lugar, sou um pouco cidadão do mundo — e é dessa maneira que quero estar diante de vocês, de forma muito natural. Agradeço a quem me apresentou por ter mencionado alguns dos meus títulos, mas isso é secundário. Agora há um homem, uma pessoa, e outras pessoas que escutam. Esta é a única diferença: eu falo e vocês escutam; algum outro dia vocês falarão e eu escutarei. Essa é a única realidade, nua e clara. Não há nada preparado, essa é uma das nossas regras. Podem começar as perguntas.

Pergunta:

Depois de tê-lo escutado, pensamos que, mais além de todos os títulos, o mais importante é que o senhor é um humanista e um filósofo, um filósofo à maneira clássica, assim como recordamos Sócrates na Grécia. Mas a inquietude que creio que todos os presentes têm esta noite é: como se sente um filósofo cuja forma de agir, de transmitir ensinamentos, cujo pensamento pertence a um mundo clássico, em uma época como esta?

Dizem que “pelas suas obras os conhecereis”. A Nova Acrópole, neste momento, encontra-se em 50 países e reúne milhares de estudantes que são filósofos com essa inquietude viva que o senhor soube inspirar. Então, gostaria que nos contasse um pouco como conseguiu isso e que rejeições pode ter encontrado, já que a filosofia, como bem disse, hoje é vista como algo repelente, algo abstrato, e muitas vezes é rejeitada sem sequer ser conhecida.

Resposta:

Talvez fosse bom recordar, antes de tudo, que o clássico não é apenas as ruínas do Partenon, as pirâmides do Egito, ou as obras de Sêneca… Clássico é tudo aquilo que perdura, que pode atravessar o tempo. Pode ser algo antigo, pode ser algo moderno. Mas por que chamamos de “clássico”? Chamamos de clássico porque é durável, porque não é efêmero.

Evidentemente, o mundo atual tem outros conceitos: as coisas, em geral, são efêmeras, e cada vez mais efêmeras. Os objetos que usamos, até mesmo os livros que lemos, já não têm grande futuro — fisicamente falando. Ao contrário de um livro do século XVI. Por quê? Porque hoje reutilizamos materiais, acrescentamos muita química, muitos elementos artificiais. Já não se imprime mais com os velhos tipos de chumbo usados pelos livreiros da época de Gutenberg. Por isso, aqueles livros ainda podem ser manuseados. Hoje, tenho visto — e talvez com surpresa — que um livro moderno, atual, em vinte anos já está com páginas amarelas, quase destruídas. Em contrapartida, nas bibliotecas encontramos livros, ainda que não sejam incunábulos, mas do século XVII ou XVIII, geralmente mais bem conservados, com páginas ainda brancas. O material era outro.

Chamamos de clássico, então, não só aos objetos, mas às ideias que permanecem, que duram, que ficam. O nosso mundo, como dissemos, não é muito afeto a isso. Hoje uma coisa é boa, amanhã é má. O fenômeno que está acontecendo agora no Leste o demonstra: da Revolução de Outubro até agora se passaram cerca de 70 anos. Para a história dos povos, não é tanto tempo — e, no entanto, tudo ruiu, tudo mudou. As grandes estátuas de Stalin hoje se vendem como sucata. Tudo muda com rapidez. Isso significa que nada disso é clássico, nada disso permanece.

Nós, precisamente, viemos trazer algo que perdure, algo que siga adiante, algo que possa ser continuado pelas gerações futuras. A fragmentação, a fratura, a oposição entre gerações se deve exatamente à ausência do clássico. Cada geração “inventa a pólvora”: vem uma, inventa; a seguinte precisa inventar de novo; e a outra, mais uma vez. Falo simbolicamente, claro — sei que seguimos usando a mesma pólvora.

Quero dizer que cada um quer inventar algo novo. E muitos jovens se espantam quando falam com o avô e ele conta que, em sua juventude, também tinha receios, inquietudes, problemas na Universidade. “Mas como, vovô, na sua época, o senhor também?” É que o avô nem sempre teve 70 anos. Ele também foi jovem, também esteve em movimentos de reforma, nacionalistas, de esquerda, de direita. Em todo tempo há inquietudes.

O que queremos é ascender ao cume dessas inquietudes — essa acrópole, essa cidade alta —, para que não haja choque de gerações, para que os jovens possam viver em paz com pais e avós. Ou seja, voltar um pouco a esse mundo tradicional tão desprezado e que, no entanto, era perfeitamente equilibrado. Equilibrado no sentido de que todo jovem entendia que, se não morresse antes, um dia seria velho; e todo velho lembrava-se da juventude, de suas aventuras, de seus sonhos, entendia o que os jovens sentiam. Era um mundo muito mais humanizado.

E como se sente um filósofo clássico em um mundo que não é clássico? Não tenho tempo de analisá-lo. Viajo demais, corro demais, não tenho tempo de analisar. Simplesmente me sinto feliz em fazer o que faço, e feliz por todos vocês estarem aqui, escutando. Esta noite vivo este instante. Amanhã não sei se amanhecerei — mas não importa. Importa viver este instante, importa comunicar algo que trago no coração. Algo que não preparei como um “presentinho de Natal”, mas que é real. E sei que as pessoas também escutam com o coração. Não querem ouvir uma dissertação acadêmica; vêm ouvir um homem, um filósofo, um buscador.

Todos somos filósofos, porque todos nascemos perguntando de onde viemos, para onde vamos, por que o avô morreu, por que morreu o velho cachorro… O que acontece?

Todos, desde crianças, somos “philo-sophos”, enamorados da verdade, enamorados da realidade. Depois, ao crescer, muitas vezes nos esquecemos dessas perguntas. A vida nos leva, nos desvia pouco a pouco. Quase me atrevo a dizer que há adultos que têm vergonha de se perguntar sobre as árvores, sobre as estrelas. E se perguntam, perguntam intimamente, não dizem, com vergonha.

Só agora, com os movimentos ecológicos, recuperamos um pouco a consciência da importância da natureza. Mas muitos de nós ainda sentimos vergonha de fazer perguntas simples, já adultos. Podemos nos perguntar: por que as folhas das árvores são lisas e verdes para cima? Claro que não sabemos… mas respondemos como se soubéssemos. Ou: por que as águas correm para o mar? Para onde correriam, senão? Para cima não podem… então, para baixo.

Mas estas respostas, que julgamos adultas, são mais infantis do que as respostas das crianças. Precisamos pensar: por que a água corre para baixo? Por que o fogo sobe? Desde quando existo? Até quando vou existir? Todos estes que agora me olham — de onde vêm, para onde vão? Será que realmente nos vemos? Ou vemos apenas nossas cascas, como se fossem roupas?

Até que ponto nos vemos em profundidade? Até que ponto tudo não passa de uma vitrine, uma fachada, sem ver além?

Pergunta:

O senhor, como filósofo, como poderia nos definir a vida e a morte?

Resposta:

Do ponto de vista filosófico, a vida e a morte não existem exatamente. Existem, mas dentro de um jogo de dualidade. Por exemplo: todos dizem que quando o sol se vai, é noite. Mas amanhã ele nascerá de novo, percorrerá o céu e voltará a se pôr. Todos veem isso, mas quase ninguém compreende. E eles veem que as estações seguem umas às outras, que todas as coisas seguem umas às outras, mas isso não importa.

Para os filósofos clássicos, vida e morte são apenas dois aspectos da mesma coisa. Na Grécia antiga, por exemplo, representavam a vida e a morte com a figura de um golfinho que salta alternadamente para fora da água e volta a mergulhar. Suponhamos que se trata de água[1]. Então, dessa água emerge este golfinho que seria Thanatos, a morte. Ele emerge, salta, entra. Nós vemos apenas o instante em que o golfinho está fora da água. Então, na nossa ignorância, dizemos: “Nasce quando sai do mar, morre quando volta a mergulhar”. Mas só quem conhece a natureza do golfinho sabe que se trata apenas de um processo, um momento. Ele sai do mar para voltar ao mar, e para saltar novamente.

Por essa razão, os antigos geralmente aceitavam a teoria da reencarnação das almas. Assim como o sol que nasce amanhã não é novo, mas o mesmo sol de antes; assim como a lua não é nova, mas a mesma lua que aparece periodicamente, também o ser humano, o ser interior do ser humano, reapareceria periodicamente em breves “reencarnações”. Essas reencarnações nos permitiriam, segundo os antigos filósofos clássicos, uma série de experiências múltiplas que são muito difíceis de ter em uma única vida, em uma única “encarnação”.

Por fim, independentemente de a teoria da reencarnação ser verdadeira ou não, todos sabemos que ela é verdadeira. Afinal, quantos de nós nunca desejamos ser algo diferente do que somos? Quantos de nós, sendo comerciantes, não gostaríamos também de ter sido pintores, músicos, carpinteiros? Mas não podemos ser tudo ao mesmo tempo. Temos que escolher — ou a vida escolhe por nós, através das circunstâncias. Os antigos chamavam a isso “destino”: aquilo que guia a meta final, o caminho da alma. Para os hindus, é o mecanismo do Karma, a lei de ação e reação que conduz cada ser de acordo com o que fez, oferecendo experiências necessárias, positivas ou negativas: ser homem ou mulher, rico ou pobre, ter fortuna ou infortúnio, encontros de amor ou de dor. Todas essas experiências enriquecem a alma.

Nas antigas religiões e nos Mistérios, e pelos filósofos antigos, Platão inclusive, afirmava-se essa lei da reencarnação. Entre os gregos, o símbolo era o golfinho que salta e mergulha, imagem que também se relacionava com Dionísio e sua nau que navega em um mar de vinho, um mar negro, para representar o mistério. Quando alguém se lança nesse mar sem preparação, afoga-se, embriaga-se, perde a consciência. É preciso saber atravessar o mistério a nado para não beber muita água — que neste caso não é água, mas vinho — e perder a consciência e ficar bêbado. O mito é muito bonito, seja ele verdadeiro ou não.

Pergunta:

Muitos dizem que não é simples acreditar na reencarnação, porque não recordamos. Por que não recordamos as nossas reencarnações anteriores, que já vivemos antes?

Resposta:

Eu não creio que seja uma prova suficiente de que não exista a reencarnação o fato de não recordarmos. A um enfermo, a um paciente, a alguém que simplesmente tem um trauma qualquer, pede-se que conte a sua vida. Uma pessoa de 40 a 50 anos, a sua vida a conta em não mais do que duas ou três horas; ou seja, o que recordamos da nossa própria vida atual é muito pouco. E se recordamos tão pouco da nossa vida atual, não é difícil que quase não recordemos de outras vidas, de outras encarnações.

Além disso, há pessoas que sim recordam outras encarnações; há bastante gente que recorda. Inclusive se realizaram experiências muito notáveis, em casos de regressões sob estado hipnótico, nas quais depois se comprovou que haviam dado nomes de ruas, descrições muito precisas de certos lugares onde, em determinado momento, lhes aconteceu tal ou qual coisa, e buscou-se nos arquivos e se confirmou. Agora, isso não impede que tudo isto esteja em estudo, esteja em revisão, isto é muito novo.

É algo que surgiu nos últimos anos, a investigação da parapsicologia. Psyché (a psique) é a borboleta que representa a alma. Essa psyché ou psique, que como uma borboleta vai de flor em flor, era também outra imagem da alma que reencarna em distintas ocasiões.

Platão, ademais, no Mito de Er nos explica algo que se ensinava nos mistérios: que de alguma maneira simbólica a alma, uma vez que está no “outro mundo”, na outra dimensão, lhe é apresentada a oportunidade de recordar ou esquecer. Há algo que a leva a esquecer: beber das águas do Leteu, beber dessas águas tão frescas. E o homem, então, o homem apaixonado por tudo, mergulha para beber e beber e beber, e já não recorda nada. Em certa forma é como aquele que bebe vinho ou outra bebida alcoólica, ou aquele que se droga, ou como quem vê um filme de cinema um pouco escabroso: faz isso para esquecer.

Geralmente, nós que queremos recordar vidas passadas, queremos esquecer a vida atual. Há muitos aspectos da nossa vida atual que desejaríamos esquecer, que desejaríamos afastar da memória. Isso, a alma parece que o faz em grandes processos, e também afasta de sua memória muitas coisas de encarnações passadas.

Não traz nenhuma felicidade recordar. Certamente traria uma certa segurança de preexistência, mas nesse caso unicamente se teria ampliado o horizonte. Um homem em pé, sobre o solo, vê o horizonte a uns 4.000 metros ao seu redor. Se sobe a um helicóptero verá um horizonte muito maior, terá um raio de 30.000, 40.000 ou 50.000 metros, mas igualmente terá um limite.

O conhecimento de recordar todas as nossas reencarnações — se é que as tivemos — também não nos faria totalmente sábios; simplesmente nos daria limites mais amplos. Porque, na verdade, tampouco poderíamos saber de onde viemos em última instância, nem para onde vamos em última instância, talvez as duas perguntas fundamentais da filosofia, e que seguem sem resposta porque não há respostas para isso; não há respostas para o último, para o absoluto.

Por que não há resposta? Em grande parte porque o problema não é mergulhar a nossa colher no oceano Pacífico ou em uma xícara. Não, o nosso problema é ampliar a nossa colher. Se mergulhamos uma colher no oceano Pacífico, quanta água tiramos? Uma colher de água. Se mergulhamos agora essa mesma colher em um prato de sopa, quanta água tiramos? Uma colher de água. O problema não é onde mergulhamos a colher; é ampliar a colher, se por colher entendemos a nossa consciência. O problema é ampliar a nossa consciência.

Em geral, os filósofos, digamos esoteristas, dizem: “Eu li o Bhagavad Gita, a Voz do Silêncio, etc., e então eu sei”. Não é forçoso. Depende do tamanho da colher, ou seja, depende da consciência que se tenha; então se verá quanto se pôde recolher. O problema não é tanto mergulharmos em livros verdadeiramente profundos, os livros não são o problema; o nosso problema somos nós mesmos, que estamos muito limitados. E uma das tarefas da Acrópole é precisamente ir pouco a pouco — porque tampouco podemos quebrar a colher —, ir ampliando essas paredes para que, se mergulhe onde se mergulhe, se recolha um pouco mais.

Em filosofia, como em todas as coisas da vida, um pouco de humildade faz bem. Não vamos poder conquistar a sabedoria total em um momento, em uma encarnação ou em uma hora, senão que temos que nos conformar com um degrau. Uma escada se sobe degrau a degrau. Essa é uma velha lição. Se quisermos subir uma escada de quatro em quatro ou cinco degraus, é quase certo que vamos nos machucar. Então, sobe-se de degrau em degrau. Tampouco se vê toda a escada de uma só vez, porque se não a pessoa se assusta e pensa: “Se tenho que subir tudo isso, melhor não subo”.

É como o montanhista que, quando sobe uma montanha, se olha para trás, fica bloqueado, paralisado, cravado na montanha. Por quê? Porque vem o vértigo. Então, até que ponto não será prudente e não formará parte da bondade de Deus que não possamos recordar, que não possamos sentir o vértigo, esse terrível vértigo de ver tudo o que já caminhamos e ver a terrível montanha que temos diante de nós?

Deus, que velou para que essas flores sejam tão belas e as árvores tenham as folhas dispostas de tal maneira que possam respirar; Deus, que velou para que todas as coisas estejam harmonizadas, para que todo o Universo, desde o mais ínfimo até o mais grandioso, possa viver e sobreviver; não terá também velado, de alguma maneira não terá previsto em nossa fragilidade psicológica — se às vezes temos angústias por uma só vida, por uma só encarnação —, o que nos aconteceria se recordássemos o abismo de encarnações que nos precedem? O que nos sucederia se pudéssemos ver o abismo que temos pela frente? As nuvens, os vales, as tormentas, os raios, os trovões? Até que ponto esse esquecimento não é uma proteção de Deus diante da nossa ignorância?

Pergunta:

Doutor, então não devemos ver a morte como aniquilação da alma? Mas há um grande temor da morte. É algo que está dentro do ser humano e, às vezes, por mais que se fale da imortalidade da alma, existe esse temor, esse medo. Como poderíamos vencer o medo da morte?

Resposta:

É muito difícil. Platão já falava disso. Platão dizia que um dos problemas que tem o homem é que, se ele se identifica com uma cadeira, ele vive tanto quanto a cadeira; porque se identifica tanto com a cadeira, que se a cadeira se quebra, ele também se quebra. E é certo, nos identificamos com o que nos rodeia. Nós não dizemos que esvaziou ou estourou um pneu do nosso automóvel. Entramos em casa e dizemos: “Sabes que estourou um pneu meu?”. Desde quando temos pneus nós? E, no entanto, é uma forma de falar normal. Nós dizemos assim: “Não sabes que minhas calças se rasgaram?”. Nós nos identificamos com a nossa roupa, nos identificamos com o nosso carro, com a nossa casa, com tudo…

E não estaremos nos identificando também com o nosso corpo? E então, quando o corpo morre, acreditamos que nós também morremos. O caminho seria não se identificar com o corpo. Mas isso é muito difícil, já que desde muito pequenos estamos agarrados ao corpo. É a verdade, e isso é certo. Ao filósofo, digamos, mais desprendido de tudo o que é material, ao mais “espiritual”, ao guru da montanha, se alguém de repente pisa no pé dele, não sei até que ponto não dirá: “Ai!”, e deixará de estar falando da alma e de tudo o metafísico. Ou seja, ainda estamos muito “agarrados” a essa parte física.

Precisamente, nos antigos mistérios faziam-se exercícios a esse respeito, exercícios verdadeiramente perigosos que hoje provavelmente seriam proibidos, exercícios em que lançavam o candidato de cabeça a um poço cheio de água, sem perguntar se sabia nadar ou não; e assim viam até que ponto estava agarrado ao seu corpo.

Há uma pintura etrusca muito bela chamada tomba del tuffatore. Bem, isso é em italiano; o mergulhador, o que se lança à água. Há uma espécie de costa com uma árvore de sete ramos. Há um jovem nu que se joga na água. Está a água e logo há outra montanha, outra terra, com outra árvore igual de sete ramos.

É o símbolo da reencarnação. Mas esse tuffatore tem que se lançar à água, e não sei se ele gostava ou não de se lançar à água. Mas aqui não se pergunta a ninguém. Algo nos traz à vida e estamos como neste cenário, fazendo algo, e de repente alguém nos pega pelo braço, nos puxa e nos tira do cenário. “Mas eu não terminei a minha obra!”, “Não importa, fora!”. Claro, ninguém gosta.

Ninguém gosta de morrer, mas como é preciso fazê-lo, se faz. Às vezes também não gostamos de viver. Mais de uma vez, quando temos desgraças ou problemas, quando vemos o mundo como está, nos dá desesperança por não poder fazer nada. Gostaríamos de fazer algo e dizemos: “Não vale a pena viver, melhor morrer”. Em ocasiões, quando uma pessoa está doente ou sofre muito, ou tem uma desgraça muito grande, ou tem um golpe sentimental muito grande, não quer continuar vivendo. Assim que tanto a vida quanto a morte nos dão medo; temos medo de viver, temos medo de morrer.

Através da filosofia vamos perdendo esse medo, pouco a pouco. Eu não temo morrer, mas é um fato que tudo é atadura nesta vida. Daí que alguns digam que é preciso cortar todas as ataduras. Mas é preciso ter cuidado, pois se estamos fazendo montanhismo e cortamos todas as ataduras, caímos.

Assim que é preciso ter cuidado com essas doutrinas, às vezes um pouco ingênuas, que dizem: “Corta com tua família, corta com teus amigos, corta com o que pensas, corta contigo mesmo”. Se alguém corta com tudo, cai como em um poço, porque está sustentado. Precisamente, se sobrevivemos e vivemos é porque temos alguém que nos quer um pouco e nós o queremos. Isso é fundamental no ser humano. Já desde os romanos se dizia que é um ser social, é um ser afetivo; precisa de um pouco de amor, precisa de um pouco de carinho. Não se pode cortar com tudo e deixá-lo só, crucificado no espaço.

Já sei que esse é o ideal arquetípico de que Platão já nos falava no Timeu, mas esse é um ideal ao qual temos que chegar, ao qual vamos chegar. Não podemos dizer que já chegamos, mas que paulatinamente vamos nos aproximando. Enquanto isso, o bom é trocar os amores baixos por amores mais altos, os interesses baixos por interesses mais altos, as ambições baixas por ambições mais altas, o egoísmo pela generosidade, a maldade pela bondade. Esse é o caminho, esses são os degraus, no sentido do discipulado, que levam à iniciação.

Pergunta:

Esse mesmo apego de que o senhor nos fala faz com que, então, em relação aos nossos entes queridos, diante da morte, não queiramos que morram. Daí os médicos chegarem a manter pacientes em estado vegetativo, para que não morram. O que pensavam na Antiguidade da eutanásia?

Resposta:

Na Antiguidade não havia essa situação de vida vegetativa, em geral. Isso hoje se faz com pulmões de aço, ou seja, pulmões artificiais, rins artificiais, onde os sinais vitais são mantidos ainda que a consciência não esteja mantida. Para os antigos, isso teria sido uma espécie de aberração. Por quê? Porque o golfinho não pode ficar sempre no ar, tem que cair; tampouco pode ficar sempre submerso. Sabeis que o golfinho é como nós, um mamífero, respira, então precisa subir. Quando o homem tem que morrer, morre, e quando tem que viver, vive. Eu não creio nessa perpetuação mecânica da vida; quando o homem já tem que morrer, tem que morrer diretamente.

Pergunta:

Na atualidade está muito difundido o espiritismo. É possível a comunicação com os seres que estão no “além”, com um parente que tenha morrido antes?

Resposta:

Isso da comunicação com os mortos é um tema muito antigo. Na Europa não há grande interesse por esse tema neste momento. Não quer dizer que não o tenha havido no fim do século passado, ou no início deste, mas sempre existiu esse interesse sobre se era possível comunicar-se com os mortos, se era possível chamá-los ou não.

Os povos mais antigos sempre o fizeram. Em uma parte, Platão diz, por exemplo: “Não te alegres ao ver um fantasma se cruzar no teu caminho, porque os fantasmas que estão nos caminhos são os que ainda estão presos ao mundo”.

Pode ser que possamos atrair, ou fazer contato, através de uma espécie de magnetismo, de uma exalação do nosso corpo — para utilizar termos espiritistas, pelo menos de Allan Kardec — com aqueles seres que morreram há muito pouco; porque depois vão se liberando, vão deixando também os demais corpos; não somente o corpo físico, mas vão deixando o seu corpo psíquico, o seu corpo mental inferior vai ficando para trás. Os contatos, digamos, os contatos imediatos, seriam nada mais que com aquilo que a iniciada do século passado H. P. Blavatsky chamava de “cascarões”, ou seja, cascarões psíquicos, não são pessoas reais.

Em alguns casos, às vezes se recorre até à magia negra, em que já não são atraídos esses espectros ou cascarões humanos, mas sim outros espíritos que chamamos em geral de elementais, que são os espíritos relacionados com os elementos, que vêm e pululam, e atuam como se fossem seres humanos e simulam sê-lo, mas evidentemente não o são. Em geral, é uma prática muito perigosa do ponto de vista psíquico; pode criar obsessões, ideias circulares, e que somente podem fazer aqueles que conhecem isto. E os que conhecem isto, evidentemente não o fazem.

Pergunta:

Com respeito ao que nos estava falando da reencarnação, a morte seria então um descanso, a vida, uma atividade, uma nova experiência? Ou seja, a vida seria uma experiência permanente? Há uma pergunta que todos nós fazemos em algum momento: por que as diferenças entre os seres humanos? Por que as diferenças sociais, econômicas, intelectuais, as possibilidades de se desenvolver na vida? E isso às vezes é muito frustrante, porque alguém poderia dizer que Deus é injusto, se esta fosse a única oportunidade, porque não começamos todos com as mesmas oportunidades. Isso está relacionado obviamente com a reencarnação?

Resposta:

A morte seria algo parecido ao sono. O sono era considerado pelos antigos o irmão menor da morte. Nesse estado não estamos totalmente em descanso, cuidado! No sono também há sonhos — em espanhol é a mesma palavra —; há sonhos e há pesadelos. Também pode existir no período entre duas encarnações. Não poderíamos dizer realmente que é um descanso; ainda que também haja encarnações de descanso. Platão, em uma parte, diz que os filósofos pediam reencarnar como camponeses, para descansar. Claro, porque a eles parecia que trabalhar a terra era mais descanso do que estar escrevendo livros.

Mas eu imagino que os camponeses também diriam: “Em outra encarnação, que bom seria ser filósofo, e não ter que estar lavrando a terra, mas sim conversando sobre o ser ou a vida e a morte”. Ou seja, em geral ninguém está contente com o seu destino, ninguém está. Alguém pode passar com um veículo de luxo diante de um senhor aparentemente mal; talvez esse homem, esse mal vestido, seja aquele homem da felicidade que não tinha camisa. Talvez seja mais feliz que o outro que vai em um grande carro de luxo. Quer dizer, tudo é muito, muito relativo.

Então, é evidente que nascemos com diferentes oportunidades, é evidente que as oportunidades são diferentes. Uma coisa é nascer em uma boa família, em um bom país, e outra coisa é nascer em uma choça de jívaros. É uma coisa óbvia: as oportunidades não são as mesmas. Digo isso levando ao extremo, mas há matizes no meio. Seguramente isso poderia se basear na teoria das reencarnações, ou seja, em atos realizados em outras vidas.

Assim como quando semeamos trigo, colhemos trigo, e quando semeamos milho, colhemos milho, assim também, se em encarnações anteriores semeamos uma série de maus elementos, é evidente que vamos colher maus elementos. E daí que nasça gente que lhe falta uma perna, lhe falta um olho, lhe faltam os dois, ou seja, que são diferentes dos demais. Não seria por acaso, mas sim que seria uma experiência necessária ainda que dolorosa, mas uma experiência afinal, como poderiam sê-lo em diversas condições.

Agora, cuidado também com exagerar isto! Porque eu estive na Índia e vi que as pessoas, muitas pessoas, se deixaram adormecer por essas teorias, essas crenças. Vêem um pária, uma pessoa que não tem dinheiro, que está morrendo de fome na esquina, e filosofam sobre ele, ou seja, conversam. Dizem: “Olha esse nosso irmão que está ali na esquina; como morre de fome. Que karma tão terrível tem esse! É um karma espantoso”. A ninguém ocorre levantá-lo e dar-lhe um pedaço de pão, ali ficou…

É preciso ter muito cuidado também com essa teoria do karma, que ainda que seja certa — para mim o é —, não nos tire a bondade do coração, que não nos tire a possibilidade de ajudar o próximo. Porque alguém pode chegar a pensar do pobre que está em uma esquina completamente desprovido, de uma criança que não tem cultura, que não tem nada, que mal tem roupa para vestir e está limpando os vidros dos carros que passam: “Olha, que duro o karma dessa criança”, adeus, e não lhe dão nada.

Assim que talvez seja melhor para as pessoas que não se dominam a si mesmas, não conhecer ou conhecer filosoficamente esta teoria, porque senão poderiam cair no fanatismo, como por exemplo eu vi pessoas adorarem as vacas. A vaca na Índia é um símbolo de Kamadhenu. É um símbolo da natureza, da Mater Matuta, da grande mãe, da Pacha Mama que diziam os Incas. Mas na Índia adoram a vaca, ou seja, a vaca é sagrada, ninguém pode tocá-la mas tampouco ninguém lhe dá de comer. A vida de uma vaca vale muito mais que a vida de uma pessoa, pelo menos em muitos lugares da Índia que percorri.

Pergunta:

Falando desse tema do karma, ou da vida, da experiência, está o tema da situação demográfica, de como nascem aqui no Peru 650.000 crianças a cada ano e que na China já se passou de um bilhão de habitantes. Doutor, essa situação demográfica é algo tremendo da nossa época e para toda a sociedade. Por que estamos assim, como poderíamos evitá-la, em que vai nos afetar diretamente?

Resposta:

Para mim, a explosão demográfica é o maior problema que temos pela frente, é o problema mais terrível. É evidente que a técnica avançou mais do que o ser humano em si. Um homem há 1000 anos, há 500, 400, 300 anos, a que velocidade se deslocava? À velocidade de seu cavalo, à velocidade de seus pés. Hoje o homem vai a enormes velocidades; a dos aviões, e ainda mais a dos satélites artificiais. Aparentemente o homem fez enormes progressos nos últimos séculos. Agora mesmo, aqui não há tochas fumegando; aqui agora há uma luz fria que vem através da eletricidade, que para nós é muito normal, mas que na época de Roma teria sido algo verdadeiramente assombroso.

Parece-nos que avançamos enormemente; no entanto, oxalá em vez de estar falando eu, estivesse falando Sêneca, ou estivesse falando Platão. Nesse sentido, o que avançou foram as ferramentas, a técnica, não o homem em si.

Na Antiguidade não existiam as técnicas de prevenção de doenças e de cura de doenças, sobretudo de doenças do tipo infeccioso. Isso fazia com que, se nasciam cinco crianças, morressem três e ficassem duas. Então se equilibrava naturalmente o número de pessoas. Ao aplicarem-se as novas técnicas — humanitárias, mas novas técnicas —, e ao não ter sido educado o casal para que tivesse os filhos que pudesse manter, e não mais, então há uma grande desproporção onde o homem, completamente cego, tem filhos até onde pode ou mais do que pode, no sentido econômico. Seria necessário um verdadeiro plano de educação do povo, para que pudessem regular o número de filhos, não sendo necessários mais do que um ou dois filhos para que se dê a renovação geracional.

Evidentemente, assim nenhum governo poderá fazer absolutamente nada, não pode fazer nada. Planeja-se — vamos supor — uma rede de esgoto, uma rede de fornecimento de água ou de fornecimento elétrico, e quando se planejou e executou — além disso com esses sistemas burocráticos que demoram 10 anos —, resulta que aquilo que foi planejado para uma população de mil pessoas, agora não serve, porque são dez mil.

É preciso planejar outra vez e nunca se alcança o objetivo. Daí que inclusive aqui no Peru há invasões pela superpopulação, de jovens que estão vivendo em um estado quase neolítico. Porque essas pessoas não têm os serviços higiênicos, não têm os banheiros básicos; não os têm. Tampouco têm ruas, mas sim trilhas de terra, nada mais, como poderia ter havido em Sumeria há sete ou oito mil anos. Talvez alguns tenham eletricidade, ou a roubem de algum local próximo; se não, tampouco têm eletricidade, nem nada.

Essas pessoas evidentemente — e perdoem o meu exemplo infantil — o que vão fazer? A única coisa que podem fazer é buscar o que comer e ter filhos, nada mais. Não têm outra distração, não têm outro interesse, não têm nada. E a única coisa que lhes resta é fazer amor e tentar conseguir comida, só isso.

Ou seja, o homem se animalizou nesse sentido. Mas há um problema: os animais têm períodos anuais de fecundidade; em contrapartida, o homem é muito mais fértil nesse sentido. Por quê? Porque está pensado para que seja regulado por uma educação. Omitindo a educação, o homem se torna uma verdadeira fábrica de crianças, e isso tem vários problemas.

Um problema metafísico — esotérico, diríamos — é que o número de almas é fixo; não há número ilimitado de almas. E quando se alcançar o número de almas, então as crianças nascem “vazias”, ou seja, nascem sem alma, e habitam nelas elementais ou formas psíquicas que não são inteiramente humanas. Além disso, o período “celeste” — na pintura etrusca, a parte em que o golfinho está submerso —, cada vez é mais curto, sendo fixo o número de almas.

Daí que nasçam crianças aparentemente mais espertas do que as crianças de há 50 ou 100 anos. Não é que sejam mais inteligentes; é que não são crianças exatamente, são “anõezinhos”. São crianças com lembranças, ainda que não sejam lembranças claras, ou lembranças instintivas de elementos econômicos, sociais, sexuais. Hoje muitas crianças são um problema para as professoras e professores, crianças que não têm a sexualidade natural, que não chegaram à etapa de serem seres sexuais mas que já atuam com costumes sexuais e já utilizam, digamos, elementos que não são próprios de sua idade. É um fenômeno porque há uma lembrança subconsciente. Agora, evidentemente, a isso ajuda uma má educação, às vezes a TV ou qualquer coisa que eles veem, que está ao alcance de qualquer um. E os pais não cuidam, as avós tampouco. A criança está muito sozinha, escuta qualquer coisa e então já é velho desde pequeno, e tem problemas de adultos desde pequenino.

Do meu ponto de vista, o problema do crescimento demográfico considero o maior problema que enfrentamos na segunda metade do século XX.

Eu sei que há uma série de teorias, mas eu sou um homem prático; sou um filósofo, mas prático. No Brasil, por exemplo, me diziam: “Não importa que a população cresça, temos oito milhões de quilômetros quadrados”.

Oito milhões de quilômetros de quê? De selva densa aonde ninguém chegou. As pessoas continuam se acumulando nas cidades, continuam se acumulando em alguns lugares da costa. Chegamos ao mesmo. Não há oito milhões de quilômetros quadrados; há o que há, há o que se pode alcançar, porque se faltam transportes… Que importa que o Peru tenha enormes zonas na parte da Amazônia, se não há transporte! Se ninguém pode chegar, é como se não tivesse. No Brasil é exatamente igual.

Temos que ver o que realmente se pode fazer, dar uma educação real às pessoas e ensiná-las o que têm que fazer, como têm que fazer e colaborar.

Temos que ver o que realmente se pode fazer, e dar uma educação real às pessoas. E ensiná-las o que têm que fazer, como têm que fazer, e colaborar as equipes médicas para que tenham os elementos. Porque, evidentemente, também não têm dinheiro para comprar elementos nem mecânicos nem químicos para poder regular sua parte sexual. E tampouco têm — não lhes peçamos isso — uma espiritualidade para dizer: “Olha, vamos nos abster…”, porque isso também é estúpido.

É preciso dar-lhes meios reais, e ver as coisas como são, não como deveriam ser. Porque alguns dizem: “Bom, que importa que haja tantos chineses, se estão tão longe”. Bom, sim, estão tão longe mas são gente, gente como nós. Há às vezes um racismo, é uma coisa terrível. Eu vejo isso na Europa. Na Europa não existe o problema demográfico porque está em cota zero — praticamente está paralisado —, e dizem: “Bom, já lhes acontecerá algo…”. Sim, já lhes acontecerá; o egoísmo é terrível. “Já virá uma peste e morrerão todos”. Isso não são soluções, são soluções brutais, bestiais, indignas de um ser humano. O que temos que fazer é tentar solucionar os problemas dessa gente que são nossos irmãos, queiramos ou não.

Talvez alguém não goste que outro seja branco ou que seja negro, ou que tenha os olhos azuis ou verdes, mas, goste ou não goste, é o seu irmão. Tem que fazer algo, tem que tentar ajudá-lo. Isso é natural. Assim que antes que aconteça algum desastre, terão que encontrar meios para canalizar os fundos necessários para que as pessoas possam regular esse crescimento, essa explosão demográfica.

Pergunta:

Nós, os professores da Nova Acrópole, em muitas oportunidades temos falado de como a filosofia pode levar o homem a melhorar, a conhecer-se, a enfrentar os problemas que tem cotidianamente, essas crises que se costumam viver, porque creio que todos as passamos de alguma maneira. Eu gostaria que esta noite fosse o senhor mesmo, já que é o fundador, o que dirige a Nova Acrópole, quem nos explique, explique ao nosso público que está aqui presente, como é que a filosofia realmente pode nos ajudar.

Resposta:

Eu dizia no começo que todos somos filósofos. Podemos ter o título de professor ou doutor em filosofia por uma universidade, mas naturalmente todos, assim como nascemos com um sexo ou com outro, todos somos filósofos, da mesma maneira. Todos, quando crianças, nos perguntamos uma série de coisas, e se somos tímidos e não as perguntamos, pensamos, o que é o mesmo. Todos pensamos: por que morreu a avó? Por que morreu o cachorro? O que acontece com a árvore? O que acontece com o céu? O que é a lua? O que é o sol? Somos ingenuamente filósofos.

O que a Acrópole está fazendo é despertar esse menino interior que ficou sepultado pela vida; despertá-lo para que de novo se faça as perguntas fundamentais, para que de novo enfrente as perguntas fundamentais, como essa de que é a vida, que é a morte, como posso eu viver, como se deve viver, como deve preparar-se alguém para a morte, que é a morte em si, o que disseram os grandes, os sábios, o que disseram os iluminados, o que disseram as religiões. Enfim, o que é que nossos predecessores, os que marcharam antes pelo caminho que agora andamos, disseram sobre tudo isso. Isso é muito importante, não só como algo cultural, não, mas para colocar em prática, e a Acrópole é como uma espécie de oficina de filósofos.

À Acrópole não importa tanto que venha uma enorme quantidade de gente e aprenda uma série de nomes, de filósofos, de teorias, de palavras em sânscrito. Não, isso é secundário. O principal é que possa aplicar; que realmente aplique hoje, agora, amanhã, depois de amanhã, que aplique em sua vida, em sua forma de ser. Não que leve um cartaz nas costas que diga: «Eu sou um filósofo acropolitano», mas que as pessoas, vendo-os atuar, vendo de que maneira se comportam, digam: «Ali vai um filósofo acropolitano», como um dia disseram dos pitagóricos. Esse é o nosso sonho: recriar um grupo humano, suficientemente, e quanto mais numeroso melhor, sem nenhuma diferença, nem política, nem religiosa, nem sexual, nem nada parecido. Vamos à alma das pessoas, não à casca que está nos apresentando. Para que essa gente chegue a escalar-se em si mesma, chegue a essa acro-polis, a essa cidade alta que todos, todos, todos temos dentro, e sem exceção.

Todos podemos escalar a nós mesmos. Se substituímos nossas ânsias de escalar pisoteando os outros, para ter um salário que nos dê um pouco mais de dinheiro, se substituímos isso por um trabalho interno — que a longo prazo nos dará inclusive mais possibilidade de dinheiro, porque a longo prazo nos permitirá falar, nos expressar, trabalhar de melhor maneira, com uma melhor apresentação, uma melhor forma de tratar as pessoas — então isso é o que a Acrópole está fazendo. Por isso se promovem concursos de música, museus, concursos literários, e toda uma série de atividades, como são Seraphis em medicina, Maat na parte legal, uma série de institutos que nos permitem elaborar e canalizar de uma maneira honrada, de uma maneira boa, todas essas inquietudes.

E que as pessoas possam reencontrar-se consigo mesmas, como dizia Sócrates, noscete ipsum, «conhece-te a ti mesmo», que ele havia tomado por sua vez dos velhos mistérios gregos. O poder voltar a nos conhecer e dominar a nós mesmos.

É preciso exercitar a vontade, exercitá-la de tal maneira que a parte carnal nos obedeça, que faça o que nós lhe mandamos fazer. Então, a nossa vontade poderá ir além das portas da morte. Mas se nós nos identificamos com o nosso corpo e fazemos o que o nosso corpo quer, quando chegar às portas da morte, quando morrer o nosso corpo, nós morremos com ele, pelo menos em consciência. É como se fosse um poço negro e acabou. Em troca, se exercitamos a nossa vontade e exercitamos o nosso conhecimento, se dominamos nossas paixões, então poderemos seguir, ainda deixando o corpo para trás. Essa é uma lição muito antiga, mas que creio que deve ser ensinada hoje, uma e outra vez.

Eu agradeço a todos por terem vindo esta noite, por terem me escutado. E apenas vou pedir uma coisa, uma coisa muito pequena. Por favor, vós fizestes um esforço para vir aqui, todos nós fizemos um pequeno esforço esta noite para estarmos juntos. Então vamos aproveitá-lo: por favor, tentai recordar algo do que eu disse, tentai colocar-vos realmente em contato com as fontes de sabedoria, com as fontes de luz. Não sejais somente espectadores, tentai viver realmente a vida.

Tentai que esta noite não tenha sido apenas uma noite a mais, mas que tenha sido a noite em que recordeis este pobre golfinho, que ainda está saltando, aqui neste quadro, este golfinho que sois vós, e que vos mergulhais na matéria e saís de novo. E vos colocais na morte, saís para a vida, e voltai à morte, e voltai à vida. Recordai o golfinho. Nada passa, nada termina, tudo continua e tudo segue vivo. Tudo o que possa parecer morte ou destruição é mera aparência, tudo está em um ciclo.

Onde estão agora as ruínas de Pachacámac havia antes uma montanhinha. Pachacámac é muito mais antigo que o incaico, sabeis disso muito melhor do que eu. Então essas velhas culturas fizeram aí um centro cerimonial; depois vieram os incas, e agora estão se desfazendo de novo, outra vez voltando a ser pedaços de pedra. Voltará outra vez alguma outra cultura, que talvez retome os pedaços de pedra e faça outra vez palácios, e faça outra vez torres, e faça outra vez altares ao sol. Tudo é cíclico, como o sol, como as estrelas, como somos cada um de nós. E com essas armas de discernimento e de valor, venceremos o medo; o medo é o nosso inimigo. Sejamos então valentes e matemos o medo que é a única morte de que precisamos.

Notas:

[1] Desenhando no quadro.

[2] A tumba do nadador é um importante monumento arqueológico encontrado em uma pequena necrópole perto da cidade grega de Paestum, no sul da Itália. Os quatro lados e a parte superior da sepultura são feitos de cinco lajes de pedra calcária local, e a laje do teto contém a famosa cena que dá o seu nome à tumba: um jovem atirando-se nas ondulantes águas de uma corrente.

[3] Refere-se aos tradicionais Quatro Elementos: Terra, Água, Ar e Fogo.

[4] Pachacámac é um sítio arqueológico que se encontra em frente a um grupo de ilhas homônimas, no distrito de Pachacámac, da província de Lima, no Peru. Foi o principal santuário da costa central peruana durante mais de 1200 anos. Seus templos eram visitados por multidões de peregrinos nos grandes rituais andinos. Contém os restos de diversos edifícios, que datam do Intermédio Inicial (século III d.C.) até o Horizonte Tardio (século XV d.C.). Ali se encontrava um antigo oráculo pré-hispânico construído basicamente com tijolos de adobe.

Jorge Ángel Livraga Rizzi, fundador de Nova Acrópole
Artigo publicado em maio de 1980.

Referências ao artigo: Conferência proferida em Lima (Peru), em março de 1990. As perguntas foram feitas pela Diretora da Nova Acrópole no Peru, Beatriz Diez Canseco.

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