Entrevista com Carlos Adelantado, Presidente da Nova Acrópole

Introdução

A Nova Acrópole é uma Organização Internacional que propõe um ideal de valores permanentes para contribuir com a evolução individual e coletiva, por meio de suas linhas de ação em Filosofia, Cultura e Voluntariado. A Nova Acrópole está presente em 60 países nos cinco continentes e mantém mais de 400 sedes abertas.

Sua atuação no mundo se baseia em três ideais fundacionais:

  1. O ideal da fraternidade universal, promovendo o respeito à dignidade humana, além das diferenças de sexo, cultura, religião ou condição social.
  2. O ideal do conhecimento, fomentando o amor à sabedoria, por meio do estudo comparado das filosofias, religiões, ciências e artes.
  3. O ideal do desenvolvimento, começando pela realização das melhores qualidades e valores de cada ser humano como base sólida para um mundo melhor.

O presidente da Nova Acrópole, Carlos Adelantado, nos explica os caminhos rumo a esses ideais comuns.


Quais são os principais desafios da Nova Acrópole atualmente? Quais metas gostaria de alcançar?

a) No plano filosófico, a grande meta é reivindicar a importância atemporal do conceito de Filosofia.

Hoje em dia, é uma palavra subestimada e esquecida, algo até mesmo um pouco incômodo. No entanto, é natural perguntar-se sobre o porquê das coisas que nos aconteceram ou que sabemos que vão acontecer. Sob esse ponto de vista, a Filosofia é uma ferramenta necessária para dar sentido coerente à existência e tomar consciência do verdadeiro protagonismo que cada ser humano pode assumir em relação à sua própria vida.

Desejo também que a Fraternidade vá se abrindo caminho na vida cotidiana, de forma clara e real. Que saibamos valorizar cada vez mais o que nos une acima daquilo que aparentemente nos separa, e que possamos ir além dos reflexos superficiais e sempre mutáveis das pessoas e dos acontecimentos.

A Filosofia nos ensina que quanto maior a percepção interior do essencial, maior a evidência exterior da fraternidade.

b) Esforçamo-nos para que a Cultura tenha mais presença na sociedade.

Não me refiro apenas ao aumento da quantidade de atividades culturais, mas ao fato de que a Cultura realmente una os povos e possibilite a compreensão de diferentes mentalidades, para que possa cumprir uma função de elevação da consciência e de abertura do coração.

Infelizmente, estou convencido de que algumas atitudes de intolerância e agressividade contra determinadas pessoas ou segmentos da população se devem à falta de cultura, provocada pelo desconhecimento de outras formas de expressão da atividade humana.

c) Com o Voluntariado, nosso trabalho busca fazer com que o desenvolvimento interior de cada voluntário caminhe junto com sua entrega altruísta ao bem comum.

Todo esforço, todo serviço em prol dos demais pode ser aproveitado para entender de forma mais consciente o Sentido da Vida; e ao mesmo tempo, desenvolvem-se forças interiores como o valor da solidariedade, a autoestima, a esperança num futuro melhor, a empatia… e muitas outras. Mas, acima de tudo, aumenta-se a sensação de Liberdade e a força de Vontade.

Meu grande desejo, então, é que as ações de Voluntariado não sejam apenas boas ações, mais ou menos úteis, mas que as pessoas que atuam como voluntárias possam estreitar seus laços com a Vida.


Que experiências estão sendo vividas nas quase 500 sedes da Nova Acrópole nesses tempos difíceis no mundo todo?

A nível pessoal, estou muito satisfeito, pois ficou demonstrado que a aplicação da Filosofia ajuda a enfrentar os medos e a incerteza.

Agora estamos observando que as pessoas que se aproximam de nossas sedes demonstram maior interesse e uma preocupação autêntica em compreender a Vida e o ser humano. É como se os espelhos que refletiam a realidade tivessem se quebrado em mil pedaços e, de repente, ou não se vê mais nada, ou percebe-se uma realidade diferente. Em qualquer caso, isso impulsiona a caminhada rumo ao autoconhecimento.

Comprovamos a utilidade das novas tecnologias, que nos permitiram continuar nosso trabalho, apesar das dificuldades. No entanto, também ficou claro que nada substitui a qualidade do contato pessoal. Não por acaso, a prática da Filosofia sempre ocorreu, na antiguidade, em escolas, em agrupamentos, onde o uso do diálogo como ferramenta pedagógica era fundamental, e o desafio de alcançar uma convivência harmônica era aceito por todos.


Há pessoas que desconfiam das organizações.

É verdade, e não lhes falta razão em muitos casos.

No entanto, acredito que uma organização pode ser muito útil, pois reúne e coordena esforços e vontades diversas. Claro que jamais devemos esquecer os perigos que podem surgir de certos desvios dentro das organizações.

Considero desvio impor uma opinião pessoal sem diálogo ou possibilidade de comparação; afastar-se dos objetivos e princípios para os quais foi criada; e se aproveitar de seu funcionamento para obter prestígio e fama social.

Algo que considero muito positivo é a grande quantidade de pessoas que fizeram parte da Nova Acrópole ao longo do tempo. Todos os anos, milhares de pessoas se beneficiam de nossos cursos de filosofia, atividades culturais ou ações de voluntariado. Algumas se incorporam à nossa organização, outras preferem colaborar esporadicamente, e outras não desejam se vincular. Mas todas essas pessoas comprovaram nosso esforço por uma sociedade melhor.


Também há pessoas insatisfeitas. O que responderia às críticas feitas à Nova Acrópole?

Que têm todo o direito de fazê-las.

Dada a maravilhosa diversidade e complexidade da natureza humana, não se pode esperar ser querido e aceito por todos. Isso está fora de qualquer lógica.

Acredito, além disso, que a crítica pode ser muito construtiva, se for dissociada da malícia e da carga negativa que muitas vezes a acompanha.

Não devemos dramatizar, pois é próprio dos seres racionais analisar, discutir, comparar argumentos, submetê-los ao exame e, por fim, escolher. Se eliminarmos esse direito à crítica, estaremos limitando a liberdade humana e eliminando uma parte importante da Filosofia, pois o pensamento crítico de submeter à análise e consideração a própria vida com todos os seus condicionantes é muito característico dos filósofos.

E como se explica que tenham existido detratores, sobretudo no passado?

Certamente é preciso voltar ao passado para encontrar esse tipo de mal-entendido. De fato, são situações que, dada minha idade atual, não conheci diretamente.

Mas, na minha opinião, foi um problema de falta de compreensão. Talvez provocado pela complexidade desta Escola de Filosofia à maneira clássica, que busca unir teoria e prática em sua expressão, como Ideal Filosófico que aspira melhorar o mundo e os seres humanos, e que desde o início se mostrou como um movimento com potencial de expansão internacional.

Inclusive muitos membros da Nova Acrópole nas primeiras épocas, aos quais devemos agradecer por seu esforço e dedicação, não compreenderam plenamente as características profundas da Nova Acrópole. Não entenderam que se tratava de algo que vinha do passado mais remoto e que, portanto, era algo totalmente novo e desvinculado de qualquer comparação com o que se conhecia no século XX. Foram cometidos erros que foram sendo corrigidos gradualmente. E essa atitude de autocorreção é válida agora e em todo momento futuro, pois o espírito de autocrítica não pode desaparecer da vida filosófica.

A isso devemos somar que tudo o que é novo, ao surgir, precisa de um tempo de adaptação ao entorno e também de tempo para demonstrar, através de seu desenvolvimento, o verdadeiro potencial e as vantagens sociais que possui.

Lamentavelmente, é inevitável que sempre existam pessoas na sociedade que “vivem” de críticas, difamações e sensacionalismo.

Mas de todo modo, as reações diante de nossa proposta filosófica não representam nenhuma novidade para uma Escola de Filosofia de raízes profundas que poderíamos denominar esotéricas. É uma constante que se repetiu ao longo dos séculos.

Qual a importância que a Nova Acrópole dá ao esotérico?

O termo “esotérico” significa “mais interior”. Entende-se, portanto, como aquilo que está oculto, que é interno, sendo o exotérico aquilo que é externo.

Na Nova Acrópole entendemos por esotérico o interior, o ser das coisas, aquilo que está oculto ao nosso olhar, mas que é essencial.

Todas as coisas e seres vivos têm uma parte exterior, visível, e uma parte interior, que é seu fundamento. Por exemplo, um edifício tem paredes, portas, janelas, que estão à vista. Isso seria o exotérico. Mas também tem uma estrutura composta por pilares, vigas e lajes, que é seu esqueleto, aquilo que o sustenta, o esotérico. E isso não é visível, a princípio.

No universo vemos planetas, estrelas, galáxias. São corpos feitos de matéria mais ou menos sutil, são o exotérico. A razão de sua existência, a vida que anima esses corpos, sua finalidade, seria o esotérico.

As pessoas realizam atos diariamente que possuem uma razão prática aparente, mas por trás de nossas atitudes exteriores estão os verdadeiros motores de nossas ações. Esses motores, que são de ordem metafísica (no sentido de que vão além do físico), conformam a parte esotérica dos seres humanos.

Por isso falamos na Nova Acrópole de Filosofia das Causas, também conhecida como Filosofia Natural ou Esotérica, porque nos interessa compreender o porquê das coisas, suas causas ocultas, que podemos perceber mediante a razão ou a intuição, se conseguimos desenvolver uma maior sensibilidade e uma maior capacidade de relacionar e integrar os elementos que nos rodeiam.

Por que a Filosofia do Oriente e a do Ocidente têm o mesmo valor na Nova Acrópole?

E por que não teriam? Não podemos nos empenhar em negar o legado filosófico do que chamamos de Oriente de povos como o indiano, o japonês, tibetano, chinês, entre outros, sem esquecer a contribuição da filosofia do Ocidente. O problema é que ainda existe muito racismo latente, e não apenas no plano físico. A vaidade e o racismo intelectual são muito piores do que o físico, e ainda mais grave é a soberba e o racismo espiritual de acreditar-se em posse exclusiva da verdade.

Qual o papel das chamadas Forças Vivas na Nova Acrópole?

São grupos compostos por membros que escolhem livremente dedicar tempo e esforço para apoiar diretamente o funcionamento vital das sedes. São também níveis de vivência, ou seja, de experimentação interior e exterior com a prática de conhecimentos e exercícios que podem ajudar no avanço pelo caminho da filosofia como forma de vida, como recomendam os clássicos do Oriente e do Ocidente.

Em última instância, trata-se de dar Vida às Forças que temos dentro de nós e também de conhecer e aproveitar as Forças da Vida. Estamos falando de algo importante, e isso implica certos requisitos para os membros desses grupos, como a honestidade e o bom senso (para citar alguns). Nem todos são aceitos, e isso pode causar frustração naqueles que não são admitidos e certas atitudes hostis, mas é um risco que precisa ser assumido.

Voltando ao nosso mundo, pode apontar algum erro fundamental da atualidade?

Do meu ponto de vista, o maior erro continua sendo confundir os meios com os fins.

Um exemplo claro é a Economia. A Economia deveria ser considerada um meio útil e necessário para a criação e conservação de estruturas, mas jamais um fim em si mesma.

Ela deveria servir para melhorar as oportunidades educacionais e fazer com que a educação alcance mais pessoas no mundo. Deveria aliviar a carga de trabalhos pesados, mecânicos e repetitivos. Deveria servir para proporcionar possibilidades de desenvolvimento aos seres humanos em todas as áreas.

O desejo de possuir, de acumular bens, tem como consequência prejudicar outros, fomentar excessivamente a competição e a exploração de pessoas com o fim de obter mais lucros. Isso é nefasto do ponto de vista humano e de projeção para um futuro melhor.

Na Nova Acrópole, por exemplo, nos financiamos principalmente com as mensalidades dos associados, com a venda de nossos livros e com pequenos ateliês internos que cumprem funções de autossustento. São pequenas quantias que nos permitem manter nossas sedes abertas e desenvolver projetos culturais e de voluntariado.

Apesar de a economia governar atualmente o rumo da humanidade, não acreditamos que ela constitua a única força de progresso para os povos e os indivíduos.

Qual é a sua opinião sobre o materialismo?

Há muito tempo essa é a ideia dominante que move o mundo. E é a ideia que acabou se impondo no campo da política, da ciência, da economia, da educação e, infelizmente, também da moral. Ela penetrou no coração de nossos lares e no cérebro das pessoas. A mentalidade materialista rege a vida da imensa maioria dos habitantes do planeta.

Isso é bom ou ruim? Provavelmente é uma experiência que a humanidade, como um todo, precisa viver. Talvez seja necessário esgotar o caminho do materialismo para que outros aspectos da existência humana recuperem seu valor.

Hoje, não é absurdo reconhecer que os cientistas materialistas encontraram seu maior obstáculo: explicar como, da evolução aleatória da matéria, surgiu a Consciência. Sabemos muito sobre o comportamento da matéria, mas não sabemos o porquê.

A educação, a política e a economia baseadas no materialismo também fracassaram. Os povos, em geral, não são mais felizes, apesar de possuírem mais bens materiais e mais conforto (em algumas regiões do planeta, muito mais que em outras). É necessário reconhecer que ainda não se conseguiu erradicar a fome, a pobreza e a imensa desigualdade que reina no mundo.

Política e Filosofia podem ser conciliadas?

A Filosofia pode se unir a qualquer dimensão própria do ser humano: com a Arte, na captação do belo; com a Ciência, no afã de aproximar-se da verdade; com a Religião, na expressão do bem; e com a Política, na busca pela justiça.

Para regular a convivência em sociedade, é preciso estabelecer de maneira clara os direitos e deveres dos cidadãos, e aí entra o conceito de Justiça. Já na Antiguidade, tanto Confúcio quanto Platão (entre outros) trataram dessa busca pelo justo, e o diálogo de Platão “A República” talvez seja o texto mais significativo.

Isso é comprovado pelas frequentes críticas que recebe e pelos inúmeros elogios e referências que aparecem em obras de autores posteriores, desde contemporâneos de Platão até os dias de hoje.

Pessoalmente, não creio que a intenção do filósofo ateniense fosse construir uma sociedade ideal formada por seres humanos perfeitos, mas sim oferecer reflexões e possíveis soluções para os inúmeros males dos diferentes regimes das cidades gregas de sua época. De fato, em “As Leis”, um diálogo posterior, ele modifica alguns argumentos de “A República”.

Platão é considerado totalitário em alguns círculos intelectuais.

Acho justo dizer que, para a grande maioria dos estudiosos e intelectuais livres de preconceitos, Platão tem a categoria de sábio. Na Grécia antiga, o conceito de sábio era amplo: implicava ser filósofo, matemático, cientista, médico da alma, poeta, conselheiro político… Um conceito de “totalitas”, de totalidade. Isso é contemplado por Platão quando propõe uma formação cidadã baseada em uma educação integral que abarcasse os diversos aspectos da natureza humana.

Aqueles que criticam Platão se esquecem de mencionar as obrigações que o grande filósofo estabelece para a classe dirigente.

Hoje, os conselhos de Platão ainda são válidos, como o de que os governantes:

  • Devem ter demonstrado amor pelo bem comum, por meio de serviços voluntários e altruístas, e amor pela virtude, através de uma vida privada exemplar
  • Não devem possuir bens próprios, mas apenas usá-los. Ou seja, não podem enriquecer-se no exercício de seu cargo
  • Não devem usar a demagogia para manipular o povo
  • Antes de serem nomeados, devem ser testados quanto à sua capacidade moral e intelectual
  • O exercício do poder deve ser entendido como um sacrifício
  • E há ainda mais requisitos…

O que exigimos hoje de nossos políticos? Quais critérios os partidos utilizam para selecionar seus candidatos? É uma boa pergunta.

A democracia pode ser aprimorada?

Sem dúvida, assim como tudo que existe sobre a face da Terra pode ser aprimorado. Em minha opinião, deveria haver um esforço verdadeiro para avançar na realização do bem comum, para além dos interesses partidários de um setor ou de outro.

Os confrontos, às vezes quase irracionais, entre diferentes facções provocam uma série de avanços e retrocessos que atrasam o progresso geral. O desejo de desqualificar o adversário, a falta de ética no cumprimento das promessas eleitorais, o desvio e o financiamento duvidoso de muitos partidos e a escassa preparação de alguns candidatos são aspectos que, sem dúvida, podem ser melhorados.

Também é preciso dar muita atenção à melhoria da educação, pois é o sistema que mais precisa dela, considerando que o cidadão pode escolher periodicamente nas urnas. Para pensar e decidir, todos precisamos de educação contínua. E, sobretudo, ela é necessária para dirigir outros.

O professor Jorge Ángel Livraga, fundador da Nova Acrópole, ensinava que os sistemas são bons se os seres humanos que os compõem forem bons. E deixam de ser bons quando os seres humanos que os compõem se tornam corruptos e ineficazes.

Qual é a posição da Nova Acrópole diante da Religião?

É a mesma que as Escolas de Filosofia têm mantido ao longo do tempo: de absoluto respeito diante das diferentes formas religiosas, desde que essas formas não sejam impostas nem dogmáticas.

Para a maioria das pessoas, a pertença a uma religião está ligada ao local geográfico onde nasceram e ao ambiente familiar. Mas é inegável que, à medida que se desenvolve a capacidade de introspecção e de reflexão, mais cedo ou mais tarde cada indivíduo acaba se perguntando qual é sua posição diante daquilo que podemos chamar de O Sagrado.

Essa posição considero muito íntima e muito livre, pois envolve a mente, o coração e a consciência. E acredito que, mesmo aqueles que se dizem ateus, mantêm essa relação interiormente.

Alguns se sentirão acolhidos pelas formas religiosas estabelecidas, outros adotarão suas próprias formas; para uns será uma conexão baseada em elementos objetivos, para outros será um encontro altamente subjetivo. É um bom exercício de tolerância para todos.

A questão é que ninguém pode ser dono da espiritualidade dos demais.

Por que o simbólico é tão importante?

Talvez por fazer parte da conexão com aquele Mundo Inteligível e Superior de que Platão falava. É preciso levar em conta que a lógica e seus mecanismos têm limitações próprias de um mundo linear. Mas em uma realidade não linear, as características do tempo e do espaço são modificadas e, como consequência, a consciência é afetada de maneira diferente: há um aumento e uma expansão da consciência que permite uma captação mais profunda e sutil da realidade.

Não me refiro ao subconsciente nem ao inconsciente, mas sim (se me é permitida a expressão) ao supraconsciente. Uma dimensão superior da consciência, onde ganha vida um conhecimento sem a intervenção dos sentidos e onde as experiências atualizadas estão sob o completo domínio do indivíduo. Os símbolos nos ajudam a exercitar as analogias que os conectam com as ideias superiores.

Por que você acredita que as pessoas usam símbolos? Eles estão presentes no comércio, na sociedade, no sagrado e até no cotidiano.

De início, posso dizer que parece existir uma necessidade natural de pertencimento, e isso leva à utilização de anagramas, símbolos e emblemas como meio de reconhecimento. São usados por funcionários de grandes e pequenos comércios, marcas de roupas e calçados, associações esportivas e culturais, corporações financeiras, etc. O uso dos símbolos está presente em todos os momentos e lugares.

Mas também é possível que todos nós saibamos, de forma natural e inata, que precisamos alcançar estados de consciência cada vez mais elevados e intuitivos, que nos permitam ir além dos limites do plano conceitual.

Talvez porque o mundo simbólico constitui a grande diferença evolutiva que distingue os seres humanos de outros reinos: o imaginário simbólico está presente quando nos casamos, quando concluímos os estudos; quando alguém nasce, damos-lhe um nome; e ao final da vida, nos despedimos simbolicamente. As pessoas usam anéis, colares, roupas e cores… até as tatuagens, tão populares hoje, são uma aproximação ao mundo dos símbolos. Como podemos ver, algo tão humano como o riso e o choro não podem ser compreendidos se eliminarmos seu pano de fundo simbólico.

Devemos considerar que há símbolos que têm significado idêntico em todas as civilizações ao longo da história: a mão aberta ou fechada, a roda como construção e como ciclo, o fogo associado à sabedoria, a águia como mensageira, o Sol como Senhor do Céu…

Como curiosidade, me chama a atenção a boa recepção que têm, por parte do público, as séries e filmes em que os roteiristas utilizam essa linguagem simbólica.

Também na Nova Acrópole usamos símbolos, conforme a atividade que estamos realizando: esportes, voluntariado, oficinas artísticas, artes marciais e, propriamente, a filosofia. Em nossa escola de filosofia, dedicamos muito tempo à análise dos símbolos relacionados ao sagrado em diferentes civilizações.

E em nossas celebrações filosóficas das estações do ano também estão presentes os símbolos relacionados à primavera, verão, outono e inverno.

Que conselho você daria a alguém que sente que a vida não tem sentido?

O primeiro conselho é que aprenda a fazer perguntas. Se essa pessoa é capaz de se questionar, e não encontra resposta, talvez não esteja buscando de forma eficaz, nem no lugar certo.

Eu lhe diria que busque dentro de si e não fora, porque há respostas que não podem vir do mundo exterior. Que procure perceber os valores que guarda em seu interior e, à medida que os for desenvolvendo, encontrará naturalmente os pontos de conexão com a vida.

Porque há aqui uma outra questão, não menos importante: se a Vida tem um sentido (e vamos supor que tem), como perceber esse sentido? Com que tipo de sentidos? É evidente que precisamos desenvolver certas forças latentes, por exemplo, o poder de perceber o sentido da Vida.

E onde reside a verdadeira força?

Sem dúvida, no desenvolvimento da consciência (como finalidade) e na educação (como meio para alcançá-la).

O professor Jorge Ángel Livraga ensinou desde o início que Educação é o uso da cultura para acelerar a evolução humana, para realizar sua transmutação. Ele insistia que educar não é torcer ou forçar naturezas, mas libertá-las do jugo instintivo e das estreitezas psíquicas e espirituais que as aprisionam e são causa de sofrimento.

E isso é possível porque todo ser humano nasce com certas potencialidades e qualidades latentes que pode desenvolver, se for educado de forma adequada.

Dizia o professor Livraga que a verdadeira pedagogia consiste em informar sem enganar, instruir sem politizar e educar sem deformar, com o objetivo de formar um cidadão consciente, feliz e útil, que saiba usar as mãos, o coração e a mente.

E talvez também se possa atualizar um elemento superior ao estritamente mental, como a imaginação e a intuição, para conhecer o mundo onde vivem os grandes Ideais, as Ideias arquetípicas, os Sonhos mais puros.

Deve ser difícil tornar-se professor na Nova Acrópole

É uma questão de capacidades demonstradas, estudos realizados e méritos alcançados.

Aqui é necessário explicar brevemente que a Nova Acrópole é uma instituição de caráter educativo reconhecida oficialmente como uma Organização Internacional sem fins lucrativos.

Sendo uma instituição de caráter privado e legalmente reconhecida, pode criar seus próprios modelos de formação acadêmica, sempre seguindo uma lógica que não é diferente da das instituições oficiais.

Assim, nossos graus acadêmicos são inspirados nos modelos utilizados pelas universidades europeias. É o que se conhece como o Sistema de Bolonha, atualmente aplicado de forma generalizada.

Nesse sentido, as universidades utilizam dois tipos de graus: os chamados graus oficiais e os chamados graus de ensino próprio.

Seguindo o modelo de Ensino Próprio, e dado que nosso Programa de Estudos é muito amplo, configuramos nossos graus acadêmicos como: grau de Especialista, de Experto e dois níveis de Mestrado (Master).

Nossos professores pertencem a algum desses graus.

Além disso, e não menos importante, devem ser exemplo claro de cumprimento do Código Deontológico ao qual todos estamos comprometidos. Se for demonstrada uma infração ao Código de Ética, essa pessoa não pode fazer parte do Corpo Docente e é desligada dessa função.

O que o senhor considera que a Nova Acrópole já conquistou até agora e o que ainda precisa alcançar?

De todos os êxitos e conquistas acumulados ao longo dos 65 anos de vida deste ideal filosófico, vou destacar o fato de termos conseguido que a convivência e a fraternidade sejam uma realidade entre milhares de jovens dos cinco continentes, pois a Nova Acrópole é composta por mulheres e homens de todas as raças, de diferentes culturas e crenças religiosas – ou de nenhuma –, de todas as classes sociais. Para nós, a categoria de ser humano está muito acima de qualquer outra consideração sectária.

Nosso trabalho oferece conhecimento com uma abordagem eclética e não dogmática, e foi reconhecido em vários países como “de interesse público”.

O que ainda precisamos alcançar?

Precisamos encontrar a forma adequada de sermos corretamente compreendidos. Precisamos conseguir que nossa voz ressoe em muito mais corações, para que possam nos encontrar todos aqueles que estão nos buscando.

Escolha o senhor mesmo as palavras finais desta entrevista

Então vou encerrar falando de Filosofia, porque já sabemos que em um universo curvo os princípios e os finais convergem. E volto a afirmar sua necessidade e sua utilidade.

Filosofia é estabelecer uma relação verdadeira entre os conhecimentos objetivos que temos do mundo e a subjetividade de nossa parte interior (que não é menos real, apenas é “outra realidade”).

Uma relação verdadeira significa que nossos atos correspondam a uma maneira de sentir e de pensar. E esse sentir e pensar deve estar em harmonia com a união e síntese de nossas experiências objetivas e subjetivas, ou seja, com nossa experiência da vida.

Isso implica que, com uma atitude correta, a Filosofia particular de cada ser humano melhora com o tempo, porque nossas experiências de vida também podem se tornar cada vez mais profundas e mais sutis.

A Nova Acrópole é um campo de experimentação, externo e interno, que oferece a possibilidade de aprimoramento individual e coletivo. A Nova Acrópole é um mundo cheio de possibilidades. Tal como a própria Vida. É Filosofia em ação.

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