Autora: Delia Steinberg Guzmán (1943–2023), presidente honorária da Nova Acrópole

Este assunto complexo, que estabelecemos como uma contradição entre o amor platônico e o amor sexual, pode nos parecer muito atual, mas assim que começamos a investigar um pouco em busca de dados, somos surpreendidos: a questão não tem nada de moderna; é tão antiga quanto o próprio ser humano e parece ter sido colocada desde que podemos registrar impressões a seu respeito.
Outra surpresa com que nos deparamos é que a aparente contradição entre amor platônico e amor sexual, filosoficamente falando, é muito difícil de ser sustentada.
O mais positivo, como filósofos, é perguntar-se antes de tudo o que é o amor. E esta não é uma preocupação nova.
Desde sempre o ser humano se interessou por saber tudo sobre o amor: o que significa, qual seu alcance, sua profundidade, seu sentido. E, sobretudo, sua relação com a felicidade. É como se, ao encontrar o amor, o ser humano encontrasse ao mesmo tempo a felicidade. Como se buscasse uma panaceia, uma fonte ideal onde todos os problemas se resolvessem. E, é claro, se relacionamos amor com felicidade, não deve nos surpreender que em todas as épocas tenha havido uma notável busca, seja pelo amor ou pela felicidade, se os consideramos convergentes.
Diziam os antigos filósofos que buscamos o que não temos, pois se o tivéssemos, não haveria por que buscar. E que o ser humano ama aquilo que lhe falta, e porque lhe falta, ama. Como se sente incompleto, tende para aquilo que considera importante para se sentir plenamente humano em sua totalidade.
Agora nos aproximamos mais do tema. Se buscamos o que não temos e amamos o que nos falta, é porque infelizmente não temos felicidade e nos falta amor. Essa é a grande paradoxa do nosso século: quanto mais falamos de algo, mais evidenciamos a carência do que estamos falando. Hoje, enchem-se páginas e páginas sobre o amor, considerado sob os mais diversos aspectos, mas quando nos recolhemos um pouco para ver quanto amor há em nosso interior, na humanidade, no mundo em que vivemos, a conclusão a que chegamos é que há pouco amor, muita palavra e pouco sentimento. Nos falta amor, e por isso saímos em sua busca, e somos capazes de trilhar qualquer caminho, seja o que a moda apresenta ou o que o discernimento nos inspira, para encontrar esse amor, essa felicidade que sabemos não possuir.
Um olhar sobre a história mostra que o amor recebeu diferentes concepções e definições em diversas épocas. Isso depende das ideias predominantes em cada momento histórico, da necessidade de cada um, do produto da evolução pessoal. Mas sempre nos movemos entre dois extremos: um amor espiritual, que chamamos de platônico, e um amor físico, o amor sexual. Mas não basta uma única palavra, “amor”, para designar a infinita variedade de relações entre esses dois polos.
Será que uma só palavra é suficiente? Será que essa única palavra pode realmente expressar tudo o que o ser humano quer viver ou sente a respeito?
Este é um dos problemas mais sérios das línguas modernas, que se tornaram muito pobres em aspectos íntimos, embora sejam ricas para nomear tudo o que é técnico, material e científico. São pobres para aprofundar a interioridade humana. Nos antigos idiomas, para expressar as diversas formas de amor, havia tantas palavras quanto tipos ou capacidades de sentimento o ser humano possuía.
Hoje, uma única palavra precisa designar mil coisas. Será que podemos definir o amor de uma só forma? Há tantas e diferentes definições? Ou há centenas de aspectos que devemos considerar para falar do amor?
Pensamos que o amor é tão rico que não se reduz a um problema de palavras nem de definições, mas sim a uma questão de matizes infinitos que talvez não abranjamos por completo em toda a vida, mas podemos analisar algumas ideias, ainda que não as chamemos de definições.
Vamos ao mundo da mitologia, esse mundo antigo em que o ser humano parecia estar em contato com os deuses, e tomemos um exemplo da mitologia grega, tão próxima de nossos conceitos éticos e estéticos. Vejamos o que é o amor, Eros, para os antigos gregos.
Segundo Platão, Eros era o mais antigo dos deuses. Não se trata do Eros que estamos acostumados a ver nas estátuas ou pinturas, esse serzinho simpático que espreita os humanos para armar-lhes ciladas. É um Eros muito arcaico, o Amor Primordial, a força fundamental da coesão.
Diz a mitologia que, quando o mundo ainda não existia, quando tudo era caos, quando todas as coisas estavam em potência mas ainda não haviam emergido, surgiu um impulso, uma força tremenda, capaz de ordenar tudo, unir tudo, dar forma e vida. Essa força é Eros, é o Amor, o amor primordial, o velho Eros de que fala Platão. E, uma vez que Eros organiza o universo, começa a expressá-lo em diversos planos, como se fossem degraus que descem de um céu sutil e elevadíssimo até uma Terra concreta, visível e palpável, o lugar onde nós estamos. Eros cuida para que, em cada plano, haja uma forma especial de amor, apropriada a esse nível.
Mas nós usamos a mesma palavra para todos os níveis, para nos referir à exaltação mística, ao amor que o ser humano sente por Deus, à necessidade de contato com o divino; à exaltação estética diante da beleza, à paixão por saber mais e desvendar os mistérios da natureza. E também para os múltiplos afetos, apegos e ternuras por outros seres humanos, por uma cidade, uma casa, um livro, um animal.
Se, por outro lado, concebemos todos os degraus que Eros criou no universo, encontraremos diversas formas de amor, até chegar àquele que hoje chamamos de amor sexual, o amor que se expressa entre corpos, como se os corpos também tivessem necessidade de união e de expressão com essa palavra tão ampla e rica que é o amor.
O velho Eros, segundo a mitologia, desce, se plasma e se expressa em diferentes formas, até tornar-se o que hoje conhecemos, o “amorzinho”, o Eros que acompanha Afrodite com suas flechas, à espreita da menor distração humana para inflamar corações e criar os problemas que enchem tantas páginas da História.
Isso é o que nos conta a mitologia, somada a conceitos teológicos e morais. Mas deixemos os deuses e voltemos ao mundo atual.
Hoje, entende-se o amor como uma inquietação psicológica que se expressa fundamentalmente por meio do corpo e do sexo, como se essa fosse a única forma possível. O amor sexual virou sinônimo de modernidade, enquanto o amor platônico passou a ser visto como rejeição ao sexo ou coisa ultrapassada.
Esse auge sexual, tido como ápice da modernidade, é fruto da liberação das novas gerações. Uma liberação que começou descartando valores que já não faziam sentido, úteis em épocas anteriores, mas que já não diziam nada à juventude e precisavam ser substituídos.
Mas, como tantas vezes na história, os valores não foram substituídos, apenas descartados. Depois, notou-se que era preciso viver de um modo novo, mas não se sabia como. Essa liberação, expressa também no amor e principalmente no sexo, logo se transformou em desenfreio. E entendemos por desenfreio o agir sem consciência, sem inteligência, movido apenas pelo desejo de novidade ou de transgredir.
Lembremos a frase emblemática da Revolução de 1968 em Paris: “proibido proibir”. Quanto mais proibido, mais desejado. O sexo, antes tabu, deixou de ser.
Essa liberação trouxe complicações: o amor perdeu seu sentido. O amor ainda leva à felicidade? O amor sexual tem como fim a felicidade, ou apenas um instante de satisfação? Entendemos a diferença entre felicidade e prazer?
Surgem desvios, distorções, pois onde há liberdade sem limites, o proibido perde o atrativo. A psique exige emoções cada vez mais fortes. E a idade para “experimentar tudo” se reduz. Crianças já falam como adultos, e a infância parece apenas uma espera desesperada para “viver tudo” o quanto antes. Chega-se aos vinte anos já velho, perguntando: “e agora?”
Assim nos tornamos modernos, decretando que o Amor ideal era impossível. Em seu lugar, colocamos o prazer, estimulado por drogas, filmes, revistas e afins. Passamos a chamar de amor o que é apenas prazer sexual, e, às vezes, nem isso temos coragem de chamar de amor.
Essa foi a grande revolução.
Mas então surge a pergunta: e o amor platônico?
Muitos pensam que, por se chamar platônico, o amor nos tempos de Platão não gerava dilemas. Mas é falso. Havia as mesmas questões. Platão tentou responder como filósofo.
Ele dizia: se o amor se expressa em todos os planos do universo, é lógico que também se manifeste no plano físico. Amor platônico não é negação do corpo, é integração superior. O corpo também ama, mas o ser humano deve destacar os planos mais elevados. O que o distingue dos animais não é a ausência de instinto, mas a presença de algo mais.
Platão propõe que o amor seja vivido de forma humana, e não apenas como impulso. Para isso, usava mitos, porque certas verdades são grandes demais para o intelecto. Um deles diz que, no princípio, as almas foram divididas, e cada uma sente falta da outra metade, daí a ideia de alma gêmea. O amor seria a busca dessa unidade perdida.
Platão alertava: o amor se disfarça. Há um Eros celeste, que busca a alma que lhe falta, e um Eros terrestre, que busca só o prazer. Este último, por depender do corpo que envelhece, adoece e morre, nunca traz felicidade duradoura.
O amor verdadeiro, para Platão, é sabedoria, energia e vida. Tudo o que está vivo é amor. O conhecimento também é uma forma de amor, não por acumular dados, mas por buscar a verdade.
A energia que é amor não é matéria, embora possam converter-se. A sabedoria que é amor não é intelecto, embora possa usar o intelecto.
Platão nos propõe uma escada de ascensão. Não importa se começamos pelo corpo, desde que saibamos subir. Ele e outros filósofos ensinaram esse caminho.
Começamos percebendo que a beleza do corpo revela algo mais sutil: uma alma bela. E há também ações belas, gestos, sentimentos. Há beleza nas leis da natureza. Há amor na arte, na ciência. E, acima de tudo, há a Beleza em si, a Beleza pura, que coincide com o Justo, o Bom e o Verdadeiro.
Isso é amor platônico: amar alguém que represente o Bom, o Belo, o Justo e o Verdadeiro.
Nesse sentido, o amor pode gerar muito mais do que filhos. Pode gerar ideias, virtudes, beleza.
E esse amor, longe de ser um sonho impossível, está ao alcance de quem ousa buscá-lo.
Curiosa é a vida. E os ciclos da história também. Após congressos, pesquisas e observações, descobrimos que os jovens voltaram a desejar o amor platônico, a fidelidade, o romantismo, a união estável. Hoje, o moderno é ser platônico.
Essa nova geração busca algo profundo e duradouro. Quer amar alguém que represente algo essencial. Não importa envelhecer, importa amar.
Esse é o grande retorno a Platão.
Hoje, o amor sexual não é o ponto de partida, é consequência, complemento. A psicologia supera a biologia. E, em breve, o espiritual superará o psicológico. E surgirão amores que não se desfazem com os anos.
Quando o espiritual renasce, os seres humanos percebem a imortalidade, e que gerar vida é participar da Vida.
Quem ama se enriquece, porque busca o que lhe falta e tenta recuperar o que perdeu.
E, como disse Platão, aquele que ama carrega consigo algo de divino, pois em quem ama habita Eros.
