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O tema de hoje, obviamente, na nossa cátedra de Fenomenologia Teológica o estudamos de uma maneira técnica. Estudamos as traduções dos rodapés e tabuletas sumérias, babilônicas, etc., que esses homens do terceiro e quarto milênio antes de Cristo nos deixaram.
Neste legado encontramos referências ao Mito de Gilgamesh. Vamos analisar este mito sob o ponto de vista simbólico e não tão técnico, de modo que nos possa interessar a cada um de nós.
Pessoalmente, creio que não só na história dos símbolos, mas ainda na história dos acontecimentos humanos, o mais importante não é captar a parte técnica ou formal - porque o técnico e formal passa - mas captar o espírito, captar os motores que puderam mover os acontecimentos históricos, seja na parte material, econômica, política, espiritual. Refiro-me àquela parte que sobrevive em nós como humanidade e que é sempre fresca e atual. Então, Gilgamesh não vai ser para nós somente aquele gigante sumério filho de Enlil, mas um símbolo, algo que pode estar vivo, que pode estar entre nós, que pode estar em cada um de nós.
O mito de Gilgamesh é, talvez, a forma mais antiga que conhecemos do herói que combate contra o dragão, do herói que combate contra as sombras, do herói que combate contra os inimigos. Gilgamesh é o protótipo do que será Heráclito na Grécia; do que será Hércules entre os romanos, e ainda mais, de São Jorge em sua luta contra o Dragão através de toda a mitologia medieval. Gilgamesh é um protótipo que vai se projetar através dos séculos.
Gilgamesh é o filho de Enlil e se diz - segundo todas as parábolas e todas as formas simbólicas - que é esse gigante que apareceu na Terra sedento de fazer uma série de grandes obras, de poder derrotar os inimigos da humanidade, de poder transpassar as neblinas.
Existem várias versões que conjugaremos em uma só para tratar de conseguir certa ligação, algo comum a todas.
Gilgamesh tem a princípio uma vida solitária; dedica-se a vagar pelos bosques e planícies e a investigar todas as coisas. Pergunta-se sobre si mesmo, sobre o mundo e sobre a natureza, até que tem uma série de sonhos premonitórios que lhe anunciam que vai ter um amigo, que vai ter um duplo, que vai ter alguém com ele. Sonha que na cidade de Uruk cai do céu um machado de fio duplo.
O machado é um dos símbolos que existem em todas as mitologias. Em suas formas curvas representa o Universo; em sua utilidade é o símbolo do que o homem pode fazer com sua vontade. É a ferramenta física para poder talhar, lavrar as neblinas, lavrar a terra e colocar a semente.
Gilgamesh sonha que o machado cai no meio das ruas e que todos os homens se reúnem junto ao mesmo e o adoram. Mas, logo, ao encontrar este machado, o chamam de Enkidu. Enkidu é seu "duplo luminoso", Enkidu é seu amigo. Porque Enkidu se transforma de um machado em um ser, em um homem.
Outras versões relatam que este machado foi manejado primeiramente por Enkidu. A este nos apresentam como uma espécie de gigante primitivo e bom que vivia entre os animais, nos bosques. Logo, quando conheceu Gilgamesh, aprendeu os princípios da civilização.
A partir de então, Gilgamesh e seu "duplo luminoso" começam a correr o mundo e fazer uma série de trabalhos ao modo de Hércules. Estas séries de provas são como as provas cotidianas que cada um de nós temos que passar. Porque muitas vezes nos perguntamos se não poderíamos fazer como Hércules, se não poderíamos fazer como alguns dos grandes homens da História: realizar alguma coisa que produzisse uma mudança total e profunda na natureza circundante, na história e na vida.
Mas, às vezes, não percebemos que todos nós, como se fôssemos Hércules, estamos dando voltas na vida vencendo inimigos constantemente, inimigos que podem ser a inércia, inimigos que podem ser o medo, inimigos que são, geralmente, a adversidade; que todos nós, quando aparecemos no teatro do mundo, quando chegamos à vida, entramos assim como através de uma pequena porta e nos encontramos com uma série de rostos de pessoas que nos rodeiam, a alguns conhecemos e a outros não, e sentimos diante do mundo a curiosidade do conhecimento, e sentimos a curiosidade de saber quem somos. Não acontece com todos o mesmo? De repente nos encontramos no meio de uma família, de um povoado, de uma cidade, de um país, de um mundo e nos perguntamos o que é isto que nos rodeia? E começamos a nos adaptar e a cumprir nosso próprio papel ali onde nos encontramos.
Houve um momento em que entramos neste teatro da vida por uma porta... e saímos do mesmo por outra porta sem saber, muitas vezes, nem porque entramos nem porque saímos. Em nossa alienação do momento esquecemos o que éramos antes e não podemos prever o que seremos depois, ou seja, é como se eu lhes falasse hoje de Gilgamesh e minha imaginação estivesse tão fixa em Gilgamesh que não recordasse o que disse antes - porque estou falando de Gilgamesh - e tampouco saberia o que iria fazer dentro de uma hora ou duas.
Não é por acaso essa a nossa própria situação quando, ao surgirmos na vida, nos esquecemos se temos existido em alguma parte e também nos esquecemos de pensar se vamos continuar existindo em outra parte?
Então os trabalhos de Gilgamesh ao vencer, por exemplo, um terrível touro que estava destruindo todas as regiões, ao cruzar sete montanhas simbólicas, ao ter que cortar os enormes cedros com seu machado e com a ajuda de seu amigo Enkidu. Todos estes trabalhos são símbolos de nossa própria vida, porque também nós temos que cruzar muitas vezes montanhas, atravessar rios, cortar os grandes bosques das inércias, os grandes bosques da incompreensão humana que nos rodeia... E temos medos e ansiedades.
Gilgamesh passa por muitas provas. Passa inclusive a prova da tentação de Inanna ou Ishtar (formas da mesma deusa). A deusa de deslumbrante beleza e atração diz a Gilgamesh que se detenha no seu caminho, que não prossiga com todas essas obras, que venha ao seu palácio onde pode receber amor, descanso, bons manjares e excelentes bebidas. Gilgamesh lhe responde com palavras que têm um matiz de eternidade - porque todos nós, ainda que não tenhamos dito, pensamos nelas algumas vezes. -: "Oh, Inanna!, tu és a beleza, tu és tudo aquilo que pode representar o descanso e a paz. Mas acredite no que sou. Eu sou como uma porta que deixa passar o vento, sou como uma cuia que perde a água, sou como um teto que já não cobre, sou um errante, sou um viajante. Meu amor é como uma pedra colada à parede que cai a qualquer momento... Permita-me seguir a minha busca, permita-me buscar algo que possa fundamentar-me e possa justificar diante dos meus próprios olhos, antes que aos olhos dos demais". Estas palavras são nossa própria busca, a busca de todo homem que trata sempre de justificar-se - valorizar-se - diante dos seus próprios olhos e cuja justificativa diante dos demais é basicamente um tipo de reflexo de sua própria justificativa - auto- valorização - interior
Gilgamesh segue em todas estas trajetórias e aventuras até que chega um bom momento no qual, como em uma parábola muito parecida ao rapto de Perséfone, perde Enkidu. Este morre, e é notável a ternura com a qual Gilgamesh se dirige a seu amigo íntimo: toca-lhe, apalpa-lhe, fala-lhe... Vê que não lhe responde e pergunta: "Que é este sono tão profundo que lhe acolheu? Acredita que se trata de um sono profundo que lhe detém?" Gilgamesh lhe fala assim: "Que acontece que já não me responde? Teu coração não bate, tuas mãos não se movem, tão sonolento estais?" Gilgamesh vai pelas montanhas e pelos prados pensando em Enkidu morto. E se pergunta se também suas mãos que hoje se movem estarão um dia paralisadas e indiferentes, e se seus olhos já não verão, nem sua boca pronunciará palavras. Diz-se que tem que saber a verdade, saber onde está Enkidu, se é que está em algum lugar... "O que vai acontecer comigo, o que vai acontecer com todos os homens?"
O herói se pergunta sobre sua própria sorte e a de todos os homens. Decide ir ao fundo do mistério e descer aos infernos, como tantos outros seres mitológicos, para resgatar seu amigo Enkidu. Na descida aos infernos encontra também uma série de dificuldades. Tem que se encaminhar até onde o sol cai; tem que cruzar enormes oceanos; tem que vencer vários inimigos; por exemplo, um casal de escorpiões que lhe fecham o caminho. O escorpião sempre foi símbolo da morte da carne. Terá que vencer também um par de homens-águia, um homem e uma mulher, que lhe fecham o caminho.
Ele procura algo; sabe que alguém possuiu alguma vez a imortalidade, isso ouviu dizer. Quando cruzava os mares de Shamash, umas vozes proféticas lhe haviam revelado. Tratava-se de Utnapishtim. Este era alguém assim como um Noé; era quem havia se salvado do dilúvio, o que tinha feito uma barca mágica com a qual salvou todos os elementos vivos de um mundo passado para transferi-los a este Mundo Novo. Em pagamento a tudo isso lhe haviam concedido a imortalidade. Gilgamesh se apresentou diante de Utnapishtim e lhe perguntou o que precisava para resgatar Enkidu. Respondeu-lhe que precisava uma planta mágica que crescia unicamente no fundo do mar.
Utnapishtim fala com Gilgamesh e trata de convencê-lo de que os homens não podem descer à morte até o momento em que são chamados. Trata de convencê-lo de que esta "planta da imortalidade" existe somente para muito poucos e que a imortalidade consciente que ele tem não é uma benção, mas uma maldição para os homens; porque se os deuses lhe deram a possibilidade de esquecer as vidas passadas e de não pressentir as futuras, é porque isso é bom para os homens.
Diz o texto que Gilgamesh escuta respeitosamente, mas logo lhe diz: "Quero encontrar a alga da imortalidade. "Assim, desce até o fundo do mar, até o fundo do Oceano Primordial, o Okeanós grego, ou seja, o grande oco, a grande escuridão, a grande concavidade. Arranca a alga da imortalidade e começa a subir de novo até o mundo onde estariam os mortos para resgatar Enkidu.
Diz-se que ao deixar-se descansar Gilgamesh, uma serpente lhe tirou a alga. A serpente é um símbolo de sabedoria. Na Índia a encontramos como a Naja, ou seja, a serpente, a cobra de óculos, símbolo da Sabedoria, do Discernimento. Também nos sarcófagos dos egípcios e em suas estátuas há uma serpente no meio da testa, é o Oreus egípcio, também símbolo da Sabedoria, do Discernimento. É o Olho de Dangma, de que também falam os modernos hindus, ou seja, o Terceiro Olho no meio da testa que permite ver as coisas além da sua aparência.
Ao tirar-lhe a planta da imortalidade, a serpente impede que Gilgamesh possa resgatar Enkidu, que vai ficar no fundo dos infernos. Mas os deuses lhe dão um prêmio por haver realizado tantas proezas. Segundo a versão babilônica, lhe dão um prêmio que ao mesmo tempo é prêmio e maldição. A partir deste momento, Gilgamesh não irá morrer jamais, se convertendo em imortal; vai viver continuamente através dos homens. A princípio o herói se alegra e pensa que pode seguir vivendo embora Enkidu já não esteja ao seu lado. Mas ocorre que a árvore que ele amava se seca; que os homens e mulheres que ele amava, morrem; que a cidade de Uruk é destruída; que Langash desaparece; que os rios secam; que tudo muda, mas ele não.
Assim nasce o Mito de Gilgamesh como o do imortal que vai atravessando o tempo, vai atravessando todos os tempos, todas as humanidades. Nas tábuas rezam: "Tu que me lês; no tempo que estiveres, entre todos os congêneres, entre todos aqueles que estiverem contigo está sempre Gilgamesh." A que se refere? Refere-se a que há algum homem que através de toda a humanidade não morreu jamais, e que simplesmente muda de roupa sem que nos déssemos conta? Ou terá talvez um sentido mais interno? Não se referirá a que dentro de nós mesmos existe, de algum modo, um Gilgamesh? Não existirá no nosso interior alguém que sonha, que quer combater dragões, que quer atravessar montanhas, que quer saber se é realmente imortal? Esta é uma boa pergunta.
Do ponto de vista filosófico, a última versão é a mais aceitável. Sabemos que os ciclos biológicos impedem a vida perpétua, mas sabemos que além do biológico e do temporal existem elementos que podem perdurar porque não estão no tempo. O tempo é uma relação, como a distância ou como o tamanho. Tantas vezes nos temos perguntado: que é exatamente o velho e o novo? Que é o perto e o longe? Que é o tempo afinal?
Há uns dias estive em Lion, onde havia um grande relógio de pêndulo. Via como corriam os ponteiros, olhava o pêndulo que ia da esquerda à direita, da direita à esquerda, com seu som tão típico que faz "tic-tac, tic-tac", esse "tic-tac, tic-tac" que sentimos no nosso próprio coração como se fôssemos um relógio vivo. Mas, pensei em algo: que se não prestava atenção ao movimento do pêndulo, não sabia o tempo que passava; se não olhasse os ponteiros, tampouco sabia o tempo que passava. Obviamente, se tivesse ficado para sempre em frente ao relógio, a fome, a sede, o frio ou a velhice, me teriam feito sentir o tempo que passava. Mas não são estes requisitos o mesmo que os ponteiros ou o pêndulo? Do mesmo modo o Mito de Gilgamesh não se refere a algo que estaria além das formas, além dos requisitos?
Em todas as literaturas e em todas as velhas instruções, nas antigas lendas e nas diferentes religiões nos falam de ensinamentos parecidos. Eu creio de algum modo na escada que pode nos colocar em contato com nosso Gilgamesh interior, com este filho de Enlil, com Enkidu, o "duplo luminoso", para isto devemos ter sonhos, ter afirmações e pensamentos suficientemente grandes e poderosos. Dizia Unamuno: "Eu sonho com que nesta terra nasçam muitos loucos, porque tenho visto como os sensatos deixaram o mundo; seria melhor que viessem os loucos agora". Não os loucos no mal sentido, mas os "divinos loucos". Loucos como aquele Quixote que montava um cavalo de pau, o "Clavileño", pensando que era um cavalo real. Ou como quando combatia aos moinhos de vento dizendo que eram gigantes. Loucos capazes de combater, loucos capazes de fazer surgir de dentro o que têm como afirmação. Estes são os irmãos em uma guerra interior, como diria Nietzsche, ou seja, é o poder interior do homem, o real Gilgamesh que todos temos dentro de nós.
Quando, por exemplo, falamos da Acrópole em relação a estes mitos, nos referimos à Acro-polis, ou seja, à "Cidade Alta"; nos referimos a este fenômeno psicológico de ter no nosso interior uma "Cidade Alta", uma montanha, que entretanto, em geral, não nos atrevemos a escalar. Não nos atrevemos a descobrir-nos a nós mesmos, a falar do que sentimos, a escrever o que pensamos ou a viver do modo que teríamos que viver. E damos voltas e voltas ao redor de nossa montanha, como um cachorro que dá voltas antes de deitar-se. E afinal... a vida nos pressiona sem haver escalado nossa montanha interior.
O que nós queremos propor não é uma cidade alta nem de cimento nem de tijolos - destas já estamos cansados e tem contaminado a única beleza que tínhamos como patrimônio: a Natureza. O que queremos é uma Cidade Alta no verdadeiro sentido da palavra, ou seja, uma Acro-polis que nos permita não somente ter uma Cidade Alta, mas ser altos nós mesmos em nossos ideais; altos nós mesmos na nossa força.
Imaginemos uma lança, como esta lança que sustenta a bandeira da Espanha. Quando está ereta, quando está na vertical, então, é uma lança; mas quando está na horizontal, quando está caída no chão, não é mais que um pau. Que diferença existe entre um pau e uma lança? A verticalidade e o sentido. Que diferença existe, meus amigos, entre um pequeno ramo e uma flecha? Que o ramo está imóvel e a flecha está cruzando o ar. Que diferença existe entre um montão de bolhas formado por algum detergente em uma lavadora e a espuma maravilhosa nas costas do mar? Que a espuma do mar se formou com o choque de uma onda, que vinha de uma distância de quilômetros e quilômetros, contra o granito, contra a adversidade. É preciso que possamos retroceder dentro de nós, termos noção de nossa atemporalidade, fazer surgir em nós aquilo que de grande e importante possamos ter. Todos nós podemos fazer surgir o grande e o importante.
Não é minha intenção expor uma teoria abstrata, eu não quero expor uma teoria difícil, deixemos isto para as cátedras onde os professores de modo moderado "ditam" aos seus alunos. Eu quero mais um contato humano e dizer-lhes, de pessoa a pessoa, que possa existir esta capacidade de verticalização, que possa existir esta capacidade de ver as coisas, não na parte superficial, mas no seu aspecto profundo. Quero dizer-lhes que assim como uma lâmpada é tão só uma lâmpada quando tem uma luz dentro - pois esta luz deixaria de ser tal lâmpada e seria simplesmente um conjunto de metal e vidro - assim também um ser humano não é um ser humano só porque tem dois olhos, cabelos, braços e pernas, mas que o é porque tem algo mais, algo que o diferencia: uma vida interior.
Esta vida interior existe em cada um de nós e também está no meio de nós. Esta vida interior não se pode extrair de maneira simples, mas a extraímos de modo forte e profundo. O homem tem o tamanho daquilo que se atreve a fazer. Veja uma criança dar os primeiros passos; se quer alcançar uma coisa que está muito baixa, não precisa se esforçar, mas como se esforça nas pontas dos pés se quer pegar um doce que gosta! Se nós tivéssemos a mesma simples vontade da criança para dar passos sobre nossos pés, em nos colocarmos nas pontas dos pés para conseguirmos aquilo que queremos alcançar! Se pudéssemos levantar a mão e capturar as estrelas! Se pudéssemos elevar-nos sobre nós mesmos e levantar aquela parte móvel que temos para alcançar o que de verdade queremos alcançar!
Basta fazer este gesto. Basta ter esta resolução para que comece a nascer em nós Gilgamesh, o vencedor do Dragão, dos Cedros. Este Gilgamesh que poderia voltar a dizer: "Eu sou uma porta que deixa passar o vento, que não represa nada; eu sou uma vasilha que deixa escorrer a água, que não a retém nem a escraviza." Este Gilgamesh que pode descer até o fundo do mar em busca da imortalidade. Este Gilgamesh que ainda está em cada um de nós. Este Gilgamesh que surge a cada primavera sob a forma de folhas de árvores mais além dos troncos que estão secos... que surge outra vez nos berços na forma de crianças, que surge nas noites na forma das novas estrelas; este que se formará amanhã com o novo Sol que vai surgir.
Aqui está o sentido de uma juventude perene ou, como diriam os pré-socráticos, esta "Afrodite de Ouro" que nos permite ser eternamente jovens, eternamente agressivos diante da vida, no real e verdadeiro sentido da palavra. Que nos permita, como novos Leônidas, poder resistir às Termópilas do Destino; fazer-nos seguir pelos homens, e que os homens sejam nossos amigos e nossos companheiros, e seguir, nós também, aos homens mais nobres, aos mais valentes e virtuosos.
Estes impulsos, estas virtudes e estas forças que estão somente adormecidas em nós, não desapareceram. Quero dizer-lhes que este Mito de Gilgamesh, sendo tão antigo, é, contudo, muito novo e muito atual. Não creio de nenhuma maneira que o mundo de hoje seja mais materialista que o mundo de mil ou dois mil anos atrás, como muitos dizem. Talvez o seja inclusive menos, ainda que pareça paradoxal. Dentro do homem atual, como dentro do homem de todas as épocas, existe esta força de elevação. O que temos que fazer é tratar de ver que parte de nós é capaz de levantar-se, que parte de nós é capaz de pegar essas estrelas e trazê-las para a Terra. Eu sei que, às vezes, estamos numa noite; é certo que este é um momento obscuro onde há materialismo, sei que há exploração, sei que há ignorância, sei que há luta, que há violência, que há incompreensão para muitas coisas... Mas também sei que na noite mais escura, se conseguirmos acender uma pequena fogueira nos servirá para iluminar-nos e esquentar nosso corpo, que, além disso, será vista de muito longe. E se conseguirmos fazer muitas fogueiras na Terra, vamos reproduzir o fenômeno celeste das estrelas acesas.
Desde os mais antigos barcos até as mais modernas aeronaves ainda se guiam pelas estrelas fixas. Eu creio que as humanidades também se guiam pelos "Homens-Tocha", por aqueles que sabem arder. Existe um milagre e um mistério nas velhas lâmpadas de azeite que usavam os gregos e romanos. Transmitem-nos o simbolismo de que eram feitas de barro, tal e qual é barro o que nos compõe a nós, mas tinham algo móvel dentro de si, líquido, como é nossa própria psique que nunca está realmente em um lugar determinado, pois divaga e se balança ao ritmo dos nossos pensamentos: "isso eu gosto, isso eu não gosto; isso me interessa, isso não me interessa; quero ir, não quero ir, etc." Mas, quando este líquido entra em contato com o fogo, este líquido começa a consumir e a casca que era de barro, que era tão só um pouco de água e terra amassada, se transforma então num barco que porta o fogo. Dentro de cada um de nós pode surgir essa chama, essa força. Essa força faz mudar todo o sentido da nossa vida. Essa força nos faz entender os velhos mitos e os novos problemas. Essa força permite dirigir-nos aos homens com maneiras simples, com palavras simples... e ser entendidos. Essa força nos permite construir, recriar, unir-nos, amar... É a Força Interior, a única força que vale, a única força real e espiritual. Porque não é uma força de contemplação, mas uma força ereta como uma lança, uma força que é capaz de lutar pelo que acredita, de vibrar por tudo aquilo que sente, como uma harpa eólica que pode pendurar-se entre os ramos de uma árvore e somente o vento a faz vibrar.
Não digamos que não temos oportunidades! A oportunidade histórica se dá hoje como se deu na Suméria, em Roma ou como se dará dentro de mil ou dois mil anos. A verdadeira oportunidade está dada no nosso próprio mundo circundante e em nossa própria capacidade de poder vivê-la. Daí dizemos que este Mito de Gilgamesh, tão complexo para estudá-lo do ponto de vista teológico, é simples para vê-lo em uma pequena conversa filosófica; este Mito de Gilgamesh é atual no aqui e agora. Este Mito de Gilgamesh somos nós mesmos.
Temos que atrever-nos a sonhar três vezes - como Gilgamesh - com um machado luminoso para que desça junto a nós um companheiro de aventuras. Temos que recriar de novo nos homens o sentido cavalheiresco das proezas e nas mulheres o sentido que inspira as proezas, como o fazem as autênticas damas. Temos que recriar dentro de nós a força capaz de vencer o destino e os astros. Hoje falamos de astrologia, hoje falamos do destino, hoje falamos de pressão do meio, etc.; mas, se fôssemos realmente fortes, se tivéssemos um motor próprio, todas estas circunstâncias seriam aproveitadas e vencidas.
Que cada uma das dificuldades e adversidades sejam simples degraus sob nossos pés; e assim levaremos cada um de nós - dentro de nós - o velho Gilgamesh; teremos também a lembrança desta serpente que nos tira a uma imortalidade sonhada, mas que nos dá uma imortalidade real; teremos a lembrança de nossas proezas e poderemos deixar este mundo sem irmos jamais; porque permaneceremos, de alguma forma e de alguma maneira, mais além destes grandes enganadores que são o Tempo e o Espaço.
Estas não são simples palavras. Perguntemo-nos sempre: o que é uma coisa grande? O que é uma coisa pequena? O que é uma coisa velha? Se não podemos definir estas coisas tão simples, como poderíamos definir a vida? Todos estes conceitos são meros correspondentes. O que importa é o que está mais além do correspondente, mais além das dualidades, mais além da adversidade.
O que importa é lançar-se adiante, ter fé em um Ideal, ter fé em si mesmo, ser novos Gilgamesh, cada um de nós. Todos talvez...?

 

Jorge Angel Livraga

Fundador de Nova Acrópole

 

 

"Toda a existência grega estava indissociavelmente ligada à celebração dos mistérios de Elêusis."
(Karl Kerényi)

 

"Há coisas santas que não se comunicam a todos ao mesmo tempo. Elêusis sempre oculta algo para mostrar ao que voltam."
(Séneca, Quaestiones naturales VII, 30, 6)

 

Os mistérios de Elêusis foram, sem dúvida, os mais famosos da Grécia antiga. Com origem no 2º milénio a. C. (existem evidências arqueológicas), este santuário situa-se a cerca de 19 kms de Atenas, próximo do mar. Foi miticamente instituído pela deusa Deméter que revelou (ou desvelou) estes mistérios, em primeira mão, a Triptólemo (o que muito se esforça ou o triplo guerreiro, triplo lavrador) depois de re-encontrar a sua filha Perséfone que tinha sido raptada por Plutão (deus dos infernos) quando ela estava no campo a recolher um narciso. Depois do rapto, Deméter, deusa que propicia a fecundidade da Terra fez com que esta se tornasse completamente estéril enquanto não re-encontrasse a sua filha amada. Depois de muitas provações, e com a ajuda do Sol e da Lua, conseguiu finalmente reavê-la dos infernos, porém como Perséfone, antes de voltar à Terra tragou uma romã no reino de Plutão, ficou condicionada a regressar cerca de um terço do ano ao hades (espécie de inferno grego). O seu périplo cíclico pelo reino de Plutão e pela Terra é um símbolo dos mistérios cíclicos da natureza (quando reaparece na Terra a tudo começa a germinar) e também do grande enigma da demanda de Psykhé, a alma humana, ao encontro de Eros, o seu amado perdido (Nous, o espírito celeste). Demanda cíclica através das sucessivas estadas no mundo celeste (o reino natural da alma segundo Platão) e no mundo terrestre das provações, que por vezes se torna um verdadeiro inferno.
Segundo HPB, os mistérios na Grécia foram instituídos por Orfeu que os trouxe da Índia. Assim, Deméter estaria relacionada com o aspecto feminino de Axieros, Pérsefone com Axiokersa e Plutão com Axiokersos.
Os mistérios menores de Elêusis - ritos de purificação e preparação - eram celebrados em Fevereiro e os mistérios maiores eram realizados em Setembro, no âmbito de uma programa de 9 dias. Culminavam com a grande noite dos mistérios, sobre a qual nada se sabe de em efetivo, devido ao segredo que os iniciados guardaram zelosamente durante dois milênios. Este ritual secreto realizava-se no Teleustério, edificado no século de Péricles por Ictino, o arquitecto do Pártenon.
Do mesmo modo que o cristianismo nascente recebeu muita influência do platonismo, neoplatonismo e estoicismo, encontramos frases cristãs do Novo Testamento que recordam a essência simbólica dos Mistérios de Deméter e Perséfone em Elêusis, onde os mistérios agrários tinham uma relação simbólica profunda com os mistérios da iniciação da Psykhé, da morte e ressurreição (em reminiscência) da alma humana que se "recorda" e se alia ao seu esposo divino Nous:

"Se o grão de trigo cai na terra e não morre, não dá fruto. Mas se morre, dá muito fruto." (João, 12, 24.)

"Como ressuscitam os mortos? Em que corpo virão? Néscio, o que semeias não vivifica se não morre anteriormente. E o que semeias não é o corpo que há de sair mas somente a semente, seja ela de trigo ou de outra espécie (...)." (Paulo, I Coríntios, 15, 35-38)

"Feliz aquele que de entre os homens que vivem sobre a terra chegou a contemplá-los [os mistérios de Elêusis fundados por Deméter]! Pois, o não iniciado nestes ritos, aquele que não participa deles, nunca terá um destino semelhante, sobretudo quando morto baixa às trevas sombrias."
Hino homérico A Deméter, séc. VII a. C. (480-482)

O ENIGMA DE ELÊUSIS

As ruínas de Elêusis encontram-se a pouca distância de Atenas, num bairro industrial. As ruínas escavadas a partir de 1882 estão dispersas aos pés de uma colina que constituía a Acrópole.
Construído no ano 445 a.C. pelo mesmo arquitecto do Pártenon, é um quadrado de 52m de lado, com seis fileiras, de 7 colunas cada uma. As bancadas para os espectadores estão distribuídas pelos quatro lados do quadrado. À direita situa-se o Anaktoron, lugar onde se conservavam e exibiam os objetos sagrados. Outros monumentos de importância são: os Grandes Propileus, o Templo de Artemísia e de Poseidon e as ruínas que restam da Via-Sacra.
Estamos na Atenas do século XX, a cidade que, contemplada a partir da Europa, parece deslizar para oriente; e vice-versa, dependendo do nosso ponto de vista. A urbe, como algumas das afortunadas entre as megalópoles, que podem com razão, gabar-se do sol, conserva na sua face de pedra e cimento os fragmentos da sua História, falando das suas muitas idades, dos anos transcorridos, da vida e do sedimento material que esta deixou como recordação, como acontece com as rugas no rosto dos homens. Percorramos então a pele da sua experiência para recolher a sua mensagem. Façamos com que esse seja o nosso destino: voltemos atrás. Tentemos recobrar o espírito destas ruínas; a vida destas pedras talvez não completamente mortas, que tanto nos fascinam com a sua equilibrada beleza. Sintonizemos o relógio da História para nos dirigirmos às épocas de esplendor deste povo. Viajemos então; não oponhamos resistência, tentemos abandonar-nos nas mãos do Tempo, e que ele nos guie pelos seus caminhos para o ontem. Limpemos a nossa mente de preconceitos. Abramos as portas da percepção para receber nas nossas almas esses homens daquela época que, sob o mesmo céu que agora nos cobre, talvez com outro azul, fizeram a si próprios as perguntas eternamente humanas, eternamente repetidas, que toda a gente mais tarde ou mais cedo se coloca onde, quando ou como quer que exista, às quais deram as suas próprias respostas.
Nesta ocasião dirigiremos a nossa atenção para um importantíssimo acontecimento, que durante mais de dois milênios condicionou a vida de Atenas e das cidades helenas e que traz na sua essência o transcorrer cíclico de todo o criado, o movimento e transformação da Natureza, em que o nascimento e a morte são duas facetas, visível e invisível, da Vida-Una manifestada.

OS MISTÉRIOS DE ELÊUSIS

Pediremos a Cronos que nos deposite num Setembro de qualquer ano entre 1350 a.C. e 300 d.C. próximo do plenilúnio, precisamente quando os atenienses enviam a toda a Grécia mensageiros das mais nobres famílias, Eumólpidas e Kerikes, a proclamar que vai começar o Grande festival e que, por decreto, devem cessar todas as guerras. Consigo trazem convites pessoais do Hierofante de Elêusis para as autoridades de cada cidade, e estas permitirão aos cidadãos que o desejarem, assistir às cerimônias. Para isso, além de cumprir com certos requisitos, terão de comprar um leitão para o sacrifício ritual, e satisfazer os honorários dos sacerdotes e guias, equivalentes ao soldo de um mês, além de cobrir os gastos da permanência em Atenas. Entretanto, todo o procedimento legal é suspendido até que terminem as celebrações.
Ao mesmo tempo, em Elêusis, prepara-se a recepção dos visitantes, cuida-se com todo o detalhe do conforto dos alojamentos e dispõem-se os guias e o pessoal de serviço necessário para todos os que acudam ao acontecimento. Pouco a pouco, a cidade é equipada com tudo o que é preciso e iniciam-se as reparações necessárias. Entretanto, vão chegando responsáveis de outros Estados com suntuosas ofertas e oferendas para a Deusa Deméter.
Está prestes a terminar um longo ciclo, iniciado seis meses antes, no mês de Anthesterion, nosso Fevereiro, também conhecido como "mês das flores", com uma série de rituais, prescrições higiênicas e alimentares, normas de vida a observar, instruções e ensinamentos específicos, que integrarão aquilo que Platão chamou "Mistérios Menores". Agora, durante nove dias cheios de simbolismo, irão decorrer diversos atos, que culminarão, em torno do GRANDE DIA e da GRANDE NOITE, com uma profunda experiência que transformará os participantes de modo radical, de tal forma que, nem eles serão os mesmos, nem nada será igual, e a vida e a morte ganharão um novo significado. Muitos ligar-se-ão pela primeira vez com a sombra do enigma, outros aprofundarão nos Mistérios, mas todos se sentirão profundamente comovidos. São os "Mistérios Maiores", um conjunto de cerimônias, ensinamentos, provas e experiências transmutadoras que confrontam o homem com a verdade do seu próprio Ser, o seu lugar no Cosmos e as leis Naturais.
A história da Sagrada Elêusis, pequena cidade próxima de Atenas, perde-se nos tempos míticos: Homero conta num hino que Zeus, o Deus regente da Era atual, permitiu a Hades, o que reina nos campos dos mortos presidindo o mundo subterrâneo, raptar Perséfone, filha de Deméter, Magna Dea, Grande Senhora da renovação da natureza e da terra fecunda, nas costas da sua mãe, sem que esta o soubesse. Estava a jovem a colher diversas flores, que crescem na planície de Nisa, em companhia de outras Deusas e ninfas, entre elas as Oceânidas, quando reparou numa flor muito especial, um narciso, e ao pretender arrancá-lo, a Terra, congeminada com Hades, abriu-se, surgindo da brecha Polidegmon, o filho de Cronos, que, a galope nos seus cavalos imortais, lançou-se sobre ela e levou-a sem que fosse possível resistir para o infra mundo.
Ninguém ouviu os seus gritos, salvo Hecate, o rosto oculto da Lua, tripla Deusa de corpo mutável, e também, noutro aspecto, misteriosa deidade do mundo da escuridão; e Hélios, o luminoso Senhor solar; até que por fim chegou aos ouvidos da Mãe um longínquo pranto interminável. Deméter sentiu então uma pontada de angústia no coração e, sem pensar, partiu subitamente por terra e por mar em busca da filha, mas nenhum dos Deuses conhecedores do pacto quis revelar-lhe a verdade.
Nove dias andou a Senhora, cheia de tristeza com uma tocha acesa, deambulando na sua busca incessante pelo rasto de Perséfone e durante esse tempo não comeu, não dormiu, não descansou e não se banhou... No décimo dia, Hecate, comovida, saiu ao seu encontro, mas pouco lhe pôde informar, pois, certamente ouviu os gritos, mas não viu o raptor. Então as duas Deusas compareceram perante Hélios, o Sol; e Deméter, olhando a sua face resplandecente, perguntou-lhe pela filha, ficando a saber deste modo que Zeus a tinha entregue a Hades, seu irmão, para que este a desposasse, e que tinha sido conduzida por ele às Trevas.
Deméter, cheia de fúria e dor, fugiu para o mundo dos homens, ocultando-se do olhar de todos. Vestiu os véus de anciã e, entre os humanos, ninguém a reconheceu. Deste modo chegou perto do palácio do Rei de Elêusis, e sentou-se aflita na beira de um poço onde as mulheres da cidade iam buscar água. Ali a encontraram as filhas do monarca e, hospitaleiras, sem saber quem ela era realmente, lhe ofereceram trabalho e alojamento. Algum tempo depois, após uma longa série de acontecimentos, a Deusa revelou a sua identidade tão zelosamente oculta e ordenou:
"-Que todo o povo me construa um templo com um altar ao pé da cidade! Construam todos um alto muro em redor do poço! E Eu vos ensinarei os Mistérios da Vida e da Morte, para que aplaqueis logo o meu ânimo com santos sacrifícios".

Dito isto, apareceu resplandecente, cheia de glória, juventude e beleza, os cabelos brilhantes da cor das espigas douradas pelo sol. Deméter ficou escondida no lugar mais profundo do Templo, mas não consentiu à terra que germinasse. Os campos tornaram-se ermos e o mundo converteu-se rapidamente num lugar triste e desolado até que, por fim, Zeus se preocupou pensando que os homens acabariam por morrer de fome, o Hades encher-se-ia e romper-se-ia o equilíbrio entre os diferentes mundos. Por isso decidiu intervir.
O soberano dos Deuses enviou Íris, a mensageira, a Elêusis, para que rogasse a Deméter que abandonasse a sua atitude. Mas a Deusa não fez caso. Depois, também a pedido de Zeus, foram desfilando um a um cada um dos Deuses do Olimpo. Deméter continuou inamovível, sem aceder aos insistentes pedidos e conselhos: disse que não sairia dali até que a sua filha regressasse sã e salva. Depois de tão reiterada negativa, Zeus mandou Hermes a Érebo para falar com Hades, para que este devolvesse a menina. Ela estava sentada ao lado do seu senhor como Rainha dos Mortos; o seu esposo ao inteirar-se da situação, refletiu, voltou-se para ela e permitiu-lhe ir, mas não sem antes lhe dar a comer de improviso um gomo de romã, o fruto da fecundidade. De seguida montou-a no seu carro e levou-a para o exterior. Acompanhava-os Hermes, o mensageiro.
Por fim mãe e filha abraçam-se jubilosas e conversam durante muito tempo, relatando o sucedido; até que Deméter, depois de fazer muitas perguntas, dá-se conta do engano. Por ter comido alimento do mundo subterrâneo, Perséfone teria que voltar porque assim o ditam as Leis, ficando assim duas partes do tempo na superfície e um terço nas profundidades da terra, como companheira de Hades. Zeus dá o seu assentimento a uma tal repartição do tempo, e finalmente Deméter, acatando o pacto, devolve ao mundo a sua fertilidade.
Depois, tal como tinha prometido, a Deusa desvelou os seus Mistérios aos homens: Santas Cerimônias que não é lícito descuidar, nem espiar por curiosidade, nem revelar... sob pena de morte. E daí em diante essas cerimônias são celebradas a cada ano, em Elêusis, em honra da Deusa e dos seus ensinamentos, primeiro reservados à família real euleusina, de onde surgiram os primeiros Hierofantes, e depois abertos a todos os que cumprissem determinados requisitos, de modo que inclusive os escravos podiam ser admitidos, e nos tempos modernos, jovens de tenra idade; até que o Cristianismo, que tentaria por todos os meios destruir os cultos milenários e o antigo saber, poria o ponto final a este ciclo tantas vezes centenário.
É a Teodósio II, na sua luta contra a idolatria, que corresponde a duvidosa honra de ter precipitado a queda definitiva dos Mistérios. Nove dias irão durar as celebrações em memória dos dias em que a Deusa andou errante, e cada dia terá um nome e uma cerimônia especial, assim como cada um tem prescrições especiais para os candidatos. Vamos agora pois acompanhar os expectantes candidatos ao longo destas jornadas.
A 14 de Setembro, primeiro dia do Festival, depois de realizar o primeiro Grande Sacrifício no altar subterrâneo situado à entrada do Santuário de Deméter na cidade de Elêusis, forma-se a Grande Procissão segundo a ordem ritual, na qual participam os sacerdotes da Deusa encabeçados pelo portador do Cofre Sagrado; atrás irá o Hierofante, seguido pelo portador das tochas, depois as autoridades locais e por fim a multidão de fiéis.
Dirigir-se-ão a pé, desde Elêusis a Atenas, embora com o decorrer dos tempos, pouco a pouco, irão integrar-se carroças puxadas por bois; seguirão pela Via-Sacra, estrada religiosa que em alguns pontos coincidirá com o caminho tradicional e cujos restos, vinte séculos depois, perderão o seu traçado na zona mais industrializada da Grécia.
A Via está almofadada com flores e frutos e os doentes colocam-se nas bermas, abrindo espaço como podem entre uma multidão cada vez mais numerosa para suplicar a ajuda e a bênção da Mãe, e assim aliviar as suas doenças e confortar os seus espíritos.
Quando chegam ao lago de Rheltoi (nos tempos modernos o lago Comoundouros) reúnem-se à Guarda de Honra, guardiã oficial da Deusa, composta por jovens atenienses vestidos de negro e armados com lanças e escudos, que irão escoltar os caminhantes durante o resto do percurso.
Por último, dirige-se ao Eleusinión de Astey, em Atenas, templo similar ao Santuário de Elêusis, onde se depositam os Objetos Sagrados. Aqui, o sacerdote de mais baixo nível de Elêusis anunciará oficialmente aos sacerdotes de Atenas a chegada de Deméter à cidade. Com isto, finalizam os atos públicos da jornada e os observadores dispersam-se rumo aos seus alojamentos.
A 15 de Setembro, denominado "Agrymos", segundo dia das celebrações, o Arconte-Rei (supremo funcionário civil), juntamente com os máximos funcionários religiosos (o Hierofante ou Sumo Sacerdote e o Arauto Sagrado, com a Guarda Sagrada em seu redor) dirigem-se à Ágora de Atenas. Então o Arauto chamará o povo para que se reúna. É uma proclamação oficial, um convite aos cidadãos, porque os candidatos já foram selecionados. Pouco a pouco, o lugar vai-se enchendo de fiéis e curiosos, que lutam por entrever as autoridades. Num dos lados, afastados da massa e vestidos com túnicas brancas, estão os aspirantes aos Mistérios; e quando se obtém um respeitoso silêncio, começa a proclamação oficial da abertura das festividades, que serão inauguradas pelo Hierofante em pessoa; este reitera novamente o convite a todos aqueles que queiram participar, excepto àqueles que sejam culpados de assassínio, profanação, ou que não falem grego. Depois, em nome de Deméter, distribui a bênção, e os candidatos, do seu lugar, inclinam a cabeça comovidos por receber a luz da Deusa. Deste modo termina o dia numa atmosfera de espera e antecipação.
O dia 16, terceiro das festas, também chamado "Elasis" ou "Halade Mystai" (da descida ao mar) começa com o chamado dos arautos, que rompem o silêncio da cidade, ao percorrer as suas ruas, instando os candidatos para que se reúnam aos seus guias, e acudam imediatamente ao mar a fim de realizar o baptismo purificatório por imersão, para deixar que a água banhe os seus corpos e limpe a sua alma de impurezas. Assim, pouco depois, todos os convidados descem à praia, levando cada um um leitão - presente também em outros festivais dedicados a Deméter - que será lavado e sacrificado, pensando que conforme jorra o sangue inocente do animal, ir-se-ão dissolvendo no seu interior o ódio e a maldade e poderão aproximar-se livres de mancha da experiência espiritual suprema nos próximos dias. Como o leitão é também uma boa oferenda para o Senhor do mundo subterrâneo, enterrarão depois o pequeno cadáver num buraco profundo, devolvendo assim a vítima propiciatória ao seio da terra.
No dia seguinte, o quarto, conhecido como o do "sacrifício das vítimas" em 17 de Setembro, o Arconte-rei, juntamente com os vigilantes dos Mistérios, realiza um sacrifício no Eleusinion de Astey.
O dia 18, quinto dia do festival, é conhecido também como "Epidaureia" ou "Asclépeia". Embora o nome tenha talvez relação com Esculápio, o Sanador, que conhecia os enigmas da vida e da morte, Pausânias diria que este dia se chama assim porque nos tempos do Deus, este saiu do seu santuário para ser também iniciado nos Mistérios, mas chegou tarde; por isso, perdeu o princípio das cerimônias iniciáticas. Mas sendo uma Deidade, foi-lhe concedida uma permissão especial para participar e pode assim integrar-se.
O sexto dia, 19 de Setembro ou de "Iaccos", é um dos dias mais importantes e intensos do festival. É a antecâmara das experiências culminantes: No Eleusinion de Astey forma-se novamente a procissão em que se integram todos os candidatos; e pela mesma ordem que à chegada, transportando desta vez uma imagem de madeira de Iacco, inicia-se o caminho de regresso a Elêusis, no meio de entusiásticas aclamações generalizadas das pessoas. A comitiva segue a sua marcha através da cordilheira que limita a Ática por ocidente. Todos vestem túnicas cerimoniais, vão coroados de mirto e trazem uma vara de madeira torcida, "baccus" ou báculo, símbolo dos Mistérios, que séculos mais tarde, quando as ruínas forem portadoras de velhas recordações, aparecerá nalguns relevos e representações pictóricas.
De Iaccos diz-se que é ao mesmo tempo filho de Deméter e de Perséfone, talvez apontando para um simbolismo duplo da Deusa, e considera-se guia dos aspirantes aos Mistérios Maiores. É ele que conduz os aspirantes diante da visão da Vida Eterna. A Iacco, com o epíteto de "Zagreo", também se chama "o grande caçador", e parece que deste nome deriva "Zagre", que significa "armadilha para caçar feras". Tanto Iacco, como Zagrei, podem ser considerados como uma forma de Dionísio, Deus cujo significado tem diversas chaves de interpretação; numa delas tem a haver com a Natureza, a vegetação e os seus frutos; e os seus Mistérios também se relacionam com a vida e a morte.
Em breve a procissão fará a primeira paragem do percurso no Santuário de Apolo em Daphne, rodeado de loureiros consagrados ao Deus; e alguns peregrinos aproveitam a pausa para descansar no pequeno bosque que evoca o mito da donzela que perdeu a sua condição humana ao fugir do Senhor do Saber Luminoso, convertendo-se em árvore. O Santuário nos tempos primitivos era um pequeno anexo de um templo dedicado a Afrodite; depois foi dedicado quase por completo ao culto do Vencedor da serpente píton, e nos séculos futuros, quando o cristianismo se ergueu ocultando os velhos deuses, o lugar foi ocupado por um mosteiro ortodoxo entre pinheiros, nos quais se celebrava o tradicional festival anual do vinho de Daphne.
Depois, o cortejo irá parando nos santuários existentes ao longo da Via-Sacra, enquanto os participantes cantam hinos semelhantes às modernas litanias. Depois de passar pela planície Rariana, onde segundo a tradição foram cultivadas pela primeira vez as gramíneas, diante dos produtos da terra selvagem não domesticada, farão a última paragem antes de chegar ao lugar sagrado, num lago dedicado a Deméter e Perséfone, cuja pesca, especialmente a das enguias, só pode ser consumida pelos sacerdotes de Elêusis.
No Rheltoi estão agora os representantes da velha família Croconides à espera; e conforme vão chegando os participantes, eles atam-lhes com um fio de intensa cor amarela o pé esquerdo e a mão direita. É a primeira tentativa de travar a marcha. Entretanto, a noite vai caindo e as tochas marcam um caminho luminoso até à ponte que separa dois mundos e duas realidades.
Um dos aspectos mais importantes da jornada consiste em atravessar a ponte física e o umbral psicológico que lhes permitirá o acesso à vivência culminante. Por ali passam, sem nenhum problema, os sacerdotes e os objetos sagrados e ali esperam expectantes as gentes de Elêusis. Quando os candidatos se aproximam, sem que tenham tempo para reagir, vêem-se envoltos em lençóis que os impedem de ver e lhes dificultam ainda mais os movimentos. São obrigados a ir em fila e a atravessar individualmente. Além disso, chovem injúrias de todo o tipo: insultos, imprecações, troças, abusos, ameaças, golpes e fortes empurrões, caem sobre os incautos sem nenhum tipo de contemplações. E estes têm que fazer um grande esforço não apenas para não perder o equilíbrio, rolar pelo chão e lastimar-se ou cair à água, mas simplesmente para respirar. Cada qual por seu turno resiste como pode aos maus-tratos, com a tensão suprema de aguentar a dor, o aturdimento, o sufoco e a comoção emocional para poder vencer na luta. É um jogo de forças: as que impulsionam o avanço e as que o travam.
Um a um são instados com veemência a desistir e a abandonar o empenho. Cada um é obrigado a escutar a verdade nua sobre si próprio; gritam-lhes os seus próprios defeitos com palavras que nunca voltarão a escutar, atados, cambaleando na escuridão às cegas sem poderem falar, e evidentemente sem se poderem rebelar nem dar nenhum tipo de resposta violenta. Depois os peregrinos dirigem-se aos propileus do Templo. Perto do poço sagrado, no lugar em que, segundo o mito, Deméter refrescou os seus lábios gretados depois da sua angustiosa busca, as donzelas de Elêusis iniciam uma dança para honrar as duas Deusas e Dionísio. Aqui, alguns viajantes bailam sobre as estrelas até ao amanhecer, enquanto os escolhidos atravessam as portas do enigma, cruzando o umbral físico do Templo para a "Grande Experiência".
As noites de 20 e 21 de Setembro, correspondentes aos dias sétimo e oitavo do festival, são as Noites dos Mistérios, as Noites Sagradas, o fim do caminho.
Já se realizou o último Grande Sacrifício pelo Arconte-rei, como chefe de Estado, em representação de Atenas, e depois o Sacrifício do Touro por um jovem membro da Guarda de Honra da Deusa. O animal, simbolizando a força da Terra, a energia vivificante da Natureza e o seu potencial de fecundidade, costuma aparecer associado ao culto das Deusas geradoras, neste caso relacionado com Deméter e Dionísio. Efetuam-se as oferendas do "Pelanos", oferta dos Eumolpides. Trata-se de uma torta feita de farinha de trigo e cevada, decorada com desenhos como aqueles pães que ainda hoje se oferecem à Virgem nalgumas festividades populares. Entretanto, reparte-se entre os participantes, como comunhão, uma be¬bida à base de cevada dissolvida em água e aromatizada com menta, como aquela que Deméter aceitou no palácio de Elêusis.
Com o grito de "Para trás profanos!" que é lançado pelo Arauto, começam as Cerimônias Secretas por detrás dos muros do Telestérion, que continuarão na noite seguinte, desta vez reservada só para os "Epoptai", aqueles que foram recebidos no Templo em anos anteriores.
Nada se sabe com exatidão acerca do conteúdo concreto e da natureza última das experiências que têm lugar no interior do recinto, salvo que fundamentalmente os escolhidos presenciam ou vivenciam algo que os religa com o transcendente e produz uma intensa comoção em todo o seu ser. Algo relacionado com os Ciclos da Natureza, com aquilo que os humanos chamam "Vida" e "Morte", experimentados aqui como duas facetas de uma única Realidade que aparece e submerge ao nosso olhar dependendo do ponto de observação, como fazem os golfinhos na sua deslocação através das águas luminosas do próximo Egeu.
No dia seguinte, o nono ou "Plymochoai" (22 do mês Boedromion), os iniciados, depois de terem participado na cerimônia que encerra o ciclo dos Mistérios recordando a morte, tomaram uma bebida doce de composição desconhecida, num recipiente especial, depois de ter derramado parcialmente o conteúdo, primeiro para leste e depois para oeste, e cantam alvoroçados.
Saem com o rosto cheio de luz. Muitos dedicaram as suas túnicas brancas à Deusa e outros levam-nas consigo para fazerem trajes para si ou para os seus filhos, pois consideram-nas santificadas e portanto protetoras do seu portador. No próximo dia, "Epistrophe" ou "do regresso", iniciados e não iniciados voltam às suas casas. Alguns ficarão algum tempo em Elêusis e outros regressarão a Atenas em grupos. Em breve começará a reunião do Conselho dos Quinhentos, decretada por uma das Leis de Sólon, para julgar todos os delitos e atos impróprios que tenham tido lugar durante o desenvolvimento das Festividades. Atenas volta finalmente ao seu ritmo normal depois deste parêntesis, e a nós só nos resta navegar outra vez pelo curso dos séculos.

SOBRE O CONTEÚDO OCULTO DA NOITE DOS MISTÉRIOS

No longo milênio durante o qual, ano após ano, se celebravam os Mistérios, variadíssimos dados acabaram por escapar ao juramento de silêncio, e nenhum nos momentos de esplendor. O pouco que sabemos para além dos atos públicos, corresponde aos tempos mais modernos e muitos são comentários que por sua vez se referem a outros autores.
Clemente de Alexandria indica que "o mito de Deméter e Coré converteu-se num ‘drama para iniciados', e Elêusis celebra com tochas a sua peregrinação, o seu rapto e a sua aflição". Se bem que, por um lado, tudo no Festival Anual de Elêusis, tanto a forma das celebrações como o seu conteúdo, tem uma leitura simbólica, podendo assim ser também interpretado; e que por outro lado, ao que parece, em certos momentos dos Mistérios Menores se fizeram dramatizações de tais conteúdos e do Mito da Deusa, parece no entanto muito pouco provável que na Noite dos Mistérios se tenha realizado alguma representação dramática, tal como Clemente indica, e, citando-o, tantos investigadores e comentaristas posteriores. Se se tivesse realizado alguma teatralização no Telestérion de Elêusis, teriam que se ter encontrado registos de contas gastos de atores e cenografia, e não foi assim. Além disso, o Telestérion, de configuração quadrangular englobava uma câmara muito mais pequena, também retangular: o anaktoron ou "morada do senhor". Esta posição foi mantida intacta nas sucessivas reconstruções. Além disso, a disposição do Telestérion - ao pé de cujos muros se sentavam os candidatos, velados, em degraus cobertos de pele de cordeiro - impedia a visão a partir de muitos ângulos. São Hipólito declara que "a verdadeira essência dos Mistérios consiste em mostrar uma espiga de cereal". Se bem que não seja impróprio que, como parte do rito, as espigas tenham um papel simbólico destacado na alusão à ceifa e a Deméter, sua Senhora, pretender que consistam na "verdadeira essência dos Mistérios" é bastante ridículo. Além disso, sabe-se que dentro do Telestérion os candidatos sofriam uma profunda comoção e uma profunda vivência, e por mais que o conjunto ritual facilitasse a expressão de determinados sentimentos, isso não parece explicação suficiente. Por outro lado, dentro da gama de emoções entrava a ansiedade e o medo, e parece estranho que alguém pudesse assustar-se com uma espiga.
Santo Agostinho cita Marco Terêncio Varrão, que interpreta o conjunto dos Mistérios Eleusinos em relação ao grão. "A própria Prosérpina diz, "simboliza a fecundidade das sementes; como num certo momento fracassou, ocasionou a que a terra enlutasse pela esterilidade, e por essa razão deu origem à opinião de que a filha de Ceres, a fecundidade, foi raptada por Plutão, e retida no mundo de baixo. E quando a carestia foi publicamente lamentada, e fecundidade voltou, houve júbilo pelo regresso de Prosérpina; e em consequência instituíram-se Ritos solenes". E "depois", continua Santo Agostinho, citando Varrão, "ensinaram-se muitas coisas nos seus Mistérios que não têm relação com mais do que a descoberta do grão".
Uma interpretação semelhante foi recolhida das investigações que se fizeram no século XIX, a partir do auge dos colonialismos, os estudos geográficos e antropológicos, que facilitaram o interesse pelas simbologias e pelas religiões comparadas. Parece que numa certa chave, em culturas agrárias, o simbolismo teológico possui uma evidente relação com os ciclos naturais de renascimento e declínio. Deste modo se aparentaram os Mistérios de Elêusis com os rituais mesopotâmicos que evocam os mistérios da Grande Mãe Natureza e do "filho-esposo" que se despedaça, morre e ressuscita periodicamente. De fato, especulando sobre a origem do mito e dos mistérios eleusinos, alguns autores fazem-no provir da Ásia Meúmeronor, se bem que é verdade que outros apontam para o Egito, ou Creta, o que parece ser possível pelos elementos comuns que podemos encontrar, se rastrearmos entre o simbolismo minoico da Grande Mãe, seus atributos e certos elementos presentes no mito de Deméter. Outras interpretações na mesma linha apontam para que, sobre a primitiva rememoração do nascimento e da morte das colheitas, se tenham associado os elementos gerais do morrer e renascer, acrescentando-se posteriormente a esta base uma abstração geral sobre o renascimento e a permanência "post-mortem" humana.
Segundo Plutarco, Alcibíades mostrou em sua casa alguns elementos dos Mistérios, representando em mímica uma cena, pelo que foi acusado de impiedade. Alguns comentaristas creem que o grego se está a referir aos "Hiera", "objetos sagrados", mas apesar das muitas versões, não se sabe com exatidão se se referia a uma visão ou a um objeto.
Platão, no Fédon, fala dos Mistérios Menores e dos Mistérios Maiores, referindo-se a certas visões das noites dos Mistérios como "Phantasmata", aparições fantasmas. Aristóteles sublinha o papel da vivência, emoção e experiência nos Mistérios. Eurípedes põe na boca de Hércules que, "na noite dos Mistérios", se via a aparição de Deméter surgindo dos Infernos.
Outra linha de investigação moderna indica que é muito possível que nos Mistérios de Elêusis se tenham utilizado fungos "enteogénicos". Ou seja, que depois de uma preparação psicofísica muito cuidadosa, certas doses deste tipo de fungos num ambiente especial facultariam a vivência mística. E em seu apoio citam os dados provenientes de múltiplas culturas onde se utilizava a ajuda de substâncias semelhantes.
A palavra "enteogénicos", que quer dizer "Deus connosco", foi utilizada para descrever o uso de fungos em rituais religiosos, para os diferenciar de qualquer outro tipo de experimentação profana com outros fins. Estes investigadores sugerem que é possível que, oculto na tradição Eleusina, subjaza o uso de alguns derivados da cravagem do centeio. Assim, dizem que os fungos eram considerados um fermento da terra, um símbolo do renascer da vida a partir do frio reino da putrefacção que era o bolorento Além.
Os mesmos autores, procurando provas da sua tese, assinalam que os fungos eram conhecidos na Grécia e que estavam também associados a rituais extáticos de Dionísio, e que se misturavam no vinho, indicando que esta bebida não continha apenas álcool, mas que geralmente era uma infusão variada de diferentes vegetais num líquido vinhoso. Acrescentam provas do perigo de tal vinho que poderia provocar a loucura se se abusava dele. Afirmavam que o vinho de Dionísio era o meio essencial pelo qual os gregos da época clássica continuaram a participar no vetusto êxtase que residia em todas as formas vegetativas que eram o filho da Terra.
Os seguidores desta corrente afirmam que nas noites em que culminavam os Mistérios, se distribuía algo mais do que água e cevada para que os participantes bebessem. Mas a cortina do segredo não para de se abrir. Dados, alusões mais ou menos veladas, suposições... Algo tão importante que levou o poeta exclamar:
"Feliz é o homem que viu os Mistérios, mas aquele que não tomou parte neles não pode ter a mesma fortuna que aqueles que descem ao reino de Hades com os Iniciados".

Fonte: www.nova-acropole.pt

 


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